Eis um assunto que vai fazer ranger os dentes aos infelizes Batistas.
Maria, Medianeira entre Deus e os homens, bradarão eles, eis o que é o cúmulo, é idolatria, é absurdo, é invenção papal, é pagão… é tudo… o que há de horrível e execrável, porque não é protestante.
Pobres protestantes! Que nem enxergais a explosão de ódio que se apodera de vós, o que já é uma refutação aos vossos erros, pois o ódio nunca foi e nunca será virtude.
Nós refutamos os vossos erros, porque são erros, mas refutando-os, demonstramos com provas bíblicas, científicas e de bom senso, a verdade oposta a estes erros, enquanto vós blasfemais, procurais refutar a verdade Católica, mas nunca chegais a provar nem um de vossos erros, e dar-lhes pelo menos uma aparência de verdade.
É o caso da verdade de Maria, Medianeira das graças. Gritais contra, citais textos, mas todos estes textos nada provam em contrário.
É como se alguém, para provar que São João é santo, citasse textos que provam que Judas é traidor e vice-versa.
Mas que relação têm estes textos: provam o que não deve ser provado, e nada dizem do que deve ser provado.
Examinemos bem, de frente e no âmago, esta grande verdade Católica, que Maria é medianeira das graças e vejamos o ridículo das objeções protestantes.
1. A objeção protestante
Recolho a objeção do jornal batista, modelo de ódio anticristão e de cegueira fanática.
Leiam bem o pedacinho, e examinem o que provam os argumentos citados:
“Em que razões se apóia o Catolicismo para provar o ofício medianeiro da Virgem Maria? Em puros raciocínios humanos. Entre todas as suas razões, falta justamente a mais necessária e fundamental – a razão bíblica, a razão da carta constitucional do Cristianismo, o Novo Testamento.
Esse ensinamento contradiz a Sagrada Escritura que ensina clara e peremptoriamente não só que Cristo é o Mediador, mas que é o único Mediador entre Deus e os homens. Eis apenas algumas passagens:
“O Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. (Lucas, 19:10)
“E os escribas deles e os fariseus murmuravam contra os seus discípulos” (de Jesus) “dizendo: Porque comeis e bebeis com publicanos e pecadores? E Jesus respondendo, disse-lhes: Não necessitam de médico os que estão sãos, mas, sim, os que estão enfermos; eu não vim chamar os justos, mas sim, os pecadores ao arrependimento. (Luc. 5: 30-32)
“Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo? E por isso é Mediador de um novo Testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões, que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebessem a promessa da herança eterna”. (Heb. 9: 14, 15)
“E a Jesus, o Mediador duma Nova Aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor que o de Abel”. (Heb. 12: 24)
Parte do discurso do apóstolo Pedro, no dia de Pentecostes:
“Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel que em nome de Jesus Cristo, o nazareno, aquele a quem vós crucificastes, e a quem Deus ressuscitou dos mortos, em nome desse (ex-paralítico) esta são diante de vós: Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça da esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”. (Act. 4: 10-12)
“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem“. (Tim. 2:5)
“Eu sou o bom Pastor: o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas”. (João, 10: 9, 11)
“Eu sou o caminho, e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim“. (João, 14: 6)
“E no última dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede venha a mim e beba. Quem crê me mim, como diz a Escritura, rios d’água viva correrão do seu ventre. É isto disse ele do Espírito que haviam de receber os que nele cressem”. (João, 7: 37, 39)
“Naquele dia pedireis” (os discípulos) “em meu nome, e não vos digo que eu rogarei por vós ao Pai; pois o mesmo Pai vos ama; visto que vós me amastes, e crestes que saí de Deus”. (João, 16: 26, 27)
Não havendo pois na revelação divina passagem alguma que atribua à Virgem Maria a função de Medianeira entre ela e seu Filho, mas muitas militando em contrário, eis a razão dos mestres do catolicismo, que ensinam tal doutrina, se valerem tão somente de raciocínios humanos, tradições humanas, decisões de concílios, etc., etc.
Causa horror o pensar no s resultados funestos de uma doutrina que desvia as almas do único Mediador e Salvador para outra pessoa que embora bem-aventurada, não foi feita por Deus Mediadora, e que também ela mesma nunca se intitulou como tal, e que sentir-se-ia horrorizada, se soubesse que se deva a ela a honra que só ao seu bendito Filho – Homem e Deus – Pertence”.
Quanta balbúrdia nesta acumulação de textos que nada provam do que se deve provar, e nada refutam do que se deve ser refutado.
Em tudo isso, qual é a passagem que prova que Maria Santíssima, não é Medianeira das graças?
Nenhuma…
Vê-se até claramente que o nosso amigo batista nem sabe exatamente o que é um Mediador; o que é um Mediador principal, e o que é um Mediador secundário.
Procuremos lançar um raio de luz neste labirinto protestante.
2. O único Medianeiro
Para bem compreender a doutrina Católica, é preciso não considerar cada ponto em particular e separado das outras verdades, mas tomar o conjunto das verdades evangélicas.
Uma verdade ilumina outra e, muitas vezes, o que é difícil de compreender separadamente, torna-se luminoso, quando se lhe aproximam outras verdades, que se completam e indicam o seu sentido exato.
É o mal do protestantismo.
Ele toma um texto, separa-o do que precede e do que segue, e ei-lo a atribuir a tal texto um sentido completamente contrário do que aquele que tinha em vista o autor Sagrado.
Os textos assim citados pelo jornal batista provam admiravelmente essa asserção.
Por exemplo, ele cita:
Eu sou o bom Pastor.
Eu sou o caminho, a verdade e a vida, etc.
Que provam tais textos contra a mediação da Mãe de Deus?
Absolutamente nada.
O bom Pastor é a imagem da bondade do Salvador.
Ele é o caminho, a verdade e a vida. É certo, e claro.
Ninguém duvida disso… porque então provar o que não deve ser provado?
Porque não cita o Batista um texto que diga:
Maria não é Medianeira das graças?
Não cita tal texto, porque não existe.
E existirá um texto contrário?
Perfeitamente! mas para quem sabe ler e interpretar, não só a letra que mata, mas o espírito do texto, que vivifica.
O texto mais comprobativo, com que os protestantes julgam abater a asserção católica, é o de São Paulo.
Só há um Deus, e só há um mediador entre Deus e os homens.
Esta verdade é repetida diversas vezes pelo Apóstolo. (Gal. III, 20 – Hebr. VIII, 6 – IX. 15 – XII. 24) e este Mediador é Jesus Cristo (Tim; II, 5).
Ora, este texto de nenhum modo é aplicável a Maria Santíssima como vou prová-lo aqui.
Nós, Católicos, aceitamos este texto integralmente e em seu sentido claro e positivo.
A Igreja Católica proclama em toda parte que só há um Mediador entre Deus e os homens, e este Mediador é Jesus Cristo, e isto pela razão admiravelmente exposta pelo Apóstolo.
O Cristo nos deu um novo Testamento.
Mas onde há um testamento, é necessário que intervenha a morte do testador; pois o testamento não se confirma, senão quanto aos mortos. (Hebr, IX 16, 17)
Ora, o Cristo ofereceu-se, morreu, derramando o seu sangue divino.
Logo, Ele é Mediador do novo Testamento (Ibid IX. 15)
Até aqui não há discussão: Católicos e protestantes estão de acordo.
Mas os Católicos vão adiante e invocam a Imaculada Mãe de Deus, como Medianeira das graças.
Será possível isso?
Porque não? E os protestantes, refletindo um pouco, serão obrigados a conceder o que ilogicamente combatem.
Maria é Medianeira das graças.
3. Jesus e Maria na mediação
Procuremos compreender bem a diferença infinita entre a mediação de Jesus Cristo e a de Maria Santíssima.
É a confusão desta diferença que exalta nossos amigos protestantes e lhes dita as ridículas objeções que nos apresentam.
Primeiramente, que é um Medianeiro?
É uma pessoa que está no meio, entre duas outras pessoas, para uni-las.
Para isso, duas coisas são necessárias: estar no meio, e ter por ofício unir os dois extremos.
Sempre os extremos se unem no meio. (1)
Alguém pode exercer este ofício de dois modos:
1. Como agente principal e perfeito (principaliter et perfecte).
2. Como encarregado de preparar os caminhos (ministerialiter et dispositive).
Vê-se logo a diferença entre estes dois ofícios.
O primeiro é de ser o meio, o medianeiro por direito, pela sua própria posição.
O segundo é de ser nomeado para realizar, ou preparar uma união.
O primeiro medianeiro é principal.
O segundo medianeiro é secundário.
O primeiro é necessário.
O segundo é útil.
Elucidemos isso com um exemplo popular.
Entramos numa casa de comércio, e aí encontramos o dono da casa e o caxeiro.
O dono é o medianeiro principal, necessário, perfeito, entre o comprador e a mercadoria a comprar.
O caxeiro está igualmente vendendo mercadorias, mas como medianeiro secundário, como encarregado, útil.
Negociando com um deles, estamos satisfeitos, e nem sequer nos lembramos de que o dono é o único mediador de compra, e que o seu caxeiro é um mediador nomeado, encarregado de vender fazendas.
Sentimos ser natura que ao lado do dono haja um ajudante, e compramos das mãos deste ajudante com a mesma confiança que das mãos do dono.
Pois bem, tal é, com toda a imperfeição da comparação, o ofício do medianeiro principal e do secundário.
Jesus Cristo é o único Medianeiro entre Deus e os homens. É certo: Ele é mais que Medianeiro, Ele é o Senhor, é o Mestre, é Deus.
Fazendo-se homem, lhe aprouve nomear a Virgem Santíssima, a sua auxiliar: auxiliar secundária, não necessária, mas sumamente útil.
Porque os protestantes aceitam tal medianeiro perto dos homens e não a aceitam perto de Deus?
A mediação do auxiliar de comércio em nada prejudica, altera ou diminui os direitos e o ofício do dono da casa… porque tal auxiliar, não age por conta própria, mas sim por conta do seu senhor, e segunda as suas ordens.
Assim a Mediação secundária de Maria Santíssima em nada prejudica, altera ou diminui a autoridade de Jesus Cristo, pois ela não age por conta própria, mas de acordo com Jesus, e sob a direção de Jesus.
Jesus Cristo fica bem o único Medianeiro entre Deus e os homens, como o dono da casa comercial fica o único dono dos bens de sua casa.
Maria Santíssima é auxiliar, é encarregada por Jesus Cristo deste ofício, ficando em segundo plano, e agindo em tudo de acordo com o seu divino Filho.
Como poderia pois a sua mediação ser prejudicial á de Jesus Cristo?
É impossível… É até ridículo supô-lo.
Eis o que fazem os protestantes. Não compreendendo nem os termos, nem o ofício, nem a união começam logo a atacar o que não compreendem.
A mediação de Maria Santíssima, ministerialiter et dispositive, é o complemento natural da mediação soberana, principal e perfeita de Jesus Cristo.
Estas duas mediações unem-se para operar a grande reconciliação entre Deus e os homens.
O que acabamos de ver, da união de Maria Santíssima com seu divino Filho, como Medianeira, secundária, de ofício, nos dá a razão porque a Igreja chama-a Medianeira perto do Cristo Mediador. São as palavras de São Bernardo e de sua S. Santidade o Papa Pio IX, na Bulla Ineffabilis.
A Virgem Santíssima, diz este Pontífice, é quem tem mais poder, no mundo inteiro, perto do Unigênito Filho. como Medianeira e Consoladora (2)
Diz-se que ela é: Medianeira, perto do Cristo Mediador – Mediatrix ad Christum Mediatorem, para melhor destacar a sua mediação secundária (ministerialiter et dispositive)
Pode-se dizer que ela é a Medianeira entre Jesus Cristo e os homens, como Jesus Cristo é o mediador entre Deus e os homens.
Estas expressões têm necessariamente a mesma significação, pois Jesus Cristo sendo Deus, desde que Maria é Medianeira entre o Cristo e os homens, ela é necessariamente Medianeira entre Deus e os homens.
O termo: “entre Jesus Cristo e os homens”, exprime melhor a sua mediação ministerial, secundária e afasta a ideia de querermos igualar a mediação da Virgem Santa à mediação de Jesus Cristo.
Jesus Cristo é o medianeiro, p único medianeiro, porque só Ele pela sua natureza divina e humana está no meio entre Deus e os homens. Só Ele junta em sua única pessoa divina os dois extremos: Deus e o homem.
Maria Santíssima é simples criatura, mas uma criatura elevada por Deus à mais sublime honra: à honra de Mãe de Deus, e pela sua materialidade divina, ela fica unida a seu Filho, para a realização da redenção do mundo…
A consideração desta nova obra vai revelar novas verdades, e pôr em nossas mãos novos argumentos, aparentemente desconhecidos pelos protestantes.
4. Maria na obra redentora
Os erros dos protestantes a este respeito provêm de uma lamentável confusão na obra da redenção.
Eles representam a Redenção como sendo obra exclusivamente de Jesus Cristo, como Deus, reduzindo a participação de Maria Santíssima à parte que as outras mães têm no nascimento de seus filhos.
Para eles, Jesus nasceu de Maria Santíssima – Maria, dequanatus est Jesus, qui vocatur Christus (Math. I, 16).
Não negam este ponto fundamental, porque está em plenas letras no Evangelho, falsificando, entretanto, a significação do nome: Cristo – para fazer de Maria Santíssima a mãe de um homem e não Mãe de Deus. Ora, Jesus Cristo é homem, mas nunca foi um homem, faltando-lhe, para isso, a pessoa humana.
Os protestantes pretendem que Maria deu à luz a Cristo, como a mãe de Ruy Barbosa deu à luz este filho, ou como Santa Mônica deu à luz Santo Agostinho, ou como Margarida Zigler deu à luz Martinho Lutero.
Indiretamente, a mãe de Ruy Barbosa teve qualquer influência sobre as letras Brasileiras, como Santa Mônica a tem sobre o tratado da graça, escrito pelo filho, ou como a mãe de Lutero tem indiretamente uma influência sobre a fundação do protestantismo; e pronto: nada mais.
Para eles, Maria Santíssima teria esta mesma influência indireta, remota, sobre a Redenção e nada mais.
Jesus nasceu de Maria. O Evangelho no-la mostra na casa de Santa Isabel, perto do presépio; em Caná, ao pé da cruz; com os Apóstolos no dia de Pentecostes; mas, concluem eles: que relação tem isto com a redenção e com a salvação?
Pobres cegos, não enxergam eles que a Redenção é uma obra toda diferente das obras humanas; é uma obra divina e, como tal, forma uma unidade perfeita em todas as suas partes.
A obra redentora – e este ponto é o eixo sobre o qual giram todas as outras obras divinas – a redenção não é simplesmente a Paixão e Morte do Salvador, como o pensam os protestantes, mas é o conjunto de tudo o que se refere a ela, na preparação, na execução e na aplicação.
A obra redentora, nos desígnios divinos, é uma só: é a nossa salvação por Jesus Cristo.
A Encarnação e os diversos mistérios de Jesus Cristo; são unicamente orientados para a Redenção.
A Redenção é orientada para a nossa salvação.
É uma obra única, constando de duas partes.
Há a Encarnação, a vida e a morte de Jesus, para resgatar-nos, reconciliar-nos com Deus, e nos merecer as graças necessárias, que cada um receberá na hora oportuna, durante a vida. Há depois as graças particulares que nos são preparadas, em vista dos méritos de Jesus Cristo, e que formam como o trama da nossa vida sobrenatural.
Sendo certo que Maria teve a sua parte, ao lado de Jesus, na obra redentora, pelo fato mesmo, ela deve ter parte na obra da nossa salvação e em todas as graças que nos são dadas, em vista do redentor, pois tudo isso é uma única e mesma obra redentora.
Nenhum protestante de boa fé pode negar esta unidade completa da obra divina!
Tudo isso é ligado à maternidade divina.
Na ocasião da Encarnação, que é que o Anjo São Gabriel, em nome de Deus? Negocia com a Virgem de Nazaré?
Que é que ele propõe a Maria?
Será uma coisa particular, pessoal?
Pede o Anjo que Maria consinta em dar à luz o Filho de Deus, ficando este, depois, livre de salvar o mundo como ele entender, tendo sido Maria um mero instrumento cego, uma espécie de máquina automática, que se rejeita depois, como se corta e rejeita uma bananeira que deu cacho?
Tudo isso seria sumamente ridículo e indigno de Deus… E é o contrário que ressalta da simples leitura do Evangelho.
O Anjo não se limita a falar da grandeza pessoa de Jesus, mas o apresenta como Salvador, Messias esperado, Rei da humanidade, Redentor…
Este (Filho: Jesus) será grande, diz o Arcanjo… o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi… reinará eternamente. Será chamado Filho de Deus (Luc. I, 32).
Eis a grandeza pessoal de Jesus.
Na ocasião do nascimento, os Anjos diziam aos Pastores: Nasceu-vos um Salvador, que é o Cristo Senhor (Luc. II, 11).
E São Simeão disse dEle: Meus olhos viram a tua Salvação (Luc. II, 30).
Eis que este menino está posto para ruína e para a ressurreição de muitos em Israel e para ser alvo da contradição (Luc. II, 34).
Sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo (Joan. IV. 42).
Encontramos o Messias, que quer dizer o Cristo (Joan. I, 41).
Eis a missão de Jesus.
E Maria, devendo ser a Mãe de Jesus, o é necessariamente de Jesus inteiro, de Jesus, como pessoa e como enviado de Deus.
O Arcanjo lhe propõe, deste modo, cooperar à Salvação da humanidade, à obra messiânica, ao estabelecimento do reino anunciado, numa palavra: a obra redentora.
E tal é a razão, por que Maria é cheia de graça, e bendita entre todas as mulheres (Luc. I, 28).
Não se pode distinguir em Jesus a pessoa privada, da qual Maria seria a mãe, e a pessoa pública, na obra da qual a sua Mãe teria apenas uma ligação indireta e remota, como pretendem os protestantes.
Pelo fato de sua cooperação à Encarnação, Maria Santíssima cooperou à obra redentora, e isso de um modo próximo e direto.
A Encarnação é a Redenção principiada.
Cooperar à Encarnação é pois cooperar diretamente à Redenção.
E cooperar à Redenção é cooperar à nossa Salvação.
Deste modo nós somos devedores à Maria de Jesus inteiro: E Jesus como resgate e como fonte de todas as graças.
Não é a Encarnação que nos salva, sem dúvida; mas, sim, a morte do Verbo Encarnado.
Porém notemos que o Verbo se encarnou para morrer.
E este Jesus Encarnado para morrer nos é dado por Maria.
Logo, Deus dando-nos Jesus por Maria, nos dá tudo por Maria e esta é verdadeiramente a medianeira entre Deus e os homens, ao lado embora em baixo, de seu Filho Jesus.
5. Maria na obra santificadora
Maria, presente na obra redentora, deve igualmente estar presente na obra santificadora dos homens; pois a segunda obra é a continuação da primeira, e deve como tal obedecer aos mesmos princípios e às mesmas diretivas.
Como acabamos de ver: Maria é indissoluvelmente unida a Jesus, na obra da nossa Redenção.
Ora, a influência de Jesus não pára na hora de sua morte. Sabemos que, no céu, Ele não cessa de oferecer os seus méritos, para obter-nos as graças de santificação e de salvação.
Logo, é preciso admitir a ação de Maria, perto de Jesus, no céu, como ela agia perto dele, na terra.
Se assim não fosse, o termo não corresponderia ao começo, haveria uma espécie de discordância entre as diversas partes do plano divino, haveria uma cisão em sua unidade.
A obra redentora não é uma obra feita, uma vez para sempre, pelo Salvador, ficando ao encargo de Deus o distribuir as graças merecidas pelo sangue divino, enquanto Jesus Cristo ficaria na glória do céu, como indiferente a esta distribuição, e indiferente para as almas que resgatou uma primeira vez.
É outro erro protestante, acerca da Salvação.
A verdade é que Jesus Cristo continua a intervir perto de Deus por nós; é Ele quem faz jorrar e quem esparge as ondas da graça sobre as almas resgatadas pelo seu Sangue.
Meu Pai opera, disse Jesus aos judeus que o perseguiam, e eu opero também (Joan. V. 17).
O Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o poder de julgar (Joan. V, 22).
Tudo o que fizer o Pai, o faz igualmente o Filho (Ibd. 19).
Ora, Jesus não estava só nesta primeira parte da obra: Maria estava com Ele. Erat Mater Jesus ibi (Joan. II, 1).
Se Ele estivesse só na segunda parte, a unidade do plano divino estaria rompida, o que não pode ser.
Logo, é necessário que a intervenção atual de Maria se una à intervenção atual de Jesus. Eles estavam juntos no trabalho; juntos devem estar na glória…
Se o Rei do céu age ainda para nós, a Rainha deve agir junto com Ele.
Uma coisa estranha seria, se o papel de Maria terminasse á porta do céu, o que se ali ela fosse de menor importância do que aqui na terra…
Ela seria uma mãe, que deixa de ser mãe!
Ela seria uma Rainha, sem cetro e sem reino!
Ela, que estava cheia de graça, na terra, não estaria cheia de glória, no céu!
Mas caem por terra todos os raciocínios do bom senso, da ciência e as revelações da fé!
A teologia nos ensina que a glória do céu é a coroação da graça, de tal modo que uma plenitude de graça, na terra, exige uma plenitude de glória no céu.
E Maria, Mãe de Deus na terra, deixaria de o ser no céu?
Neste caso ela teria sido mais na terra do que no céu, e me vez de o céu coroar a sua graça na glória, ele lhe arrancaria da fronte o seu diadema mais glorioso!
Oh! por favor, cale-se pobre protestante! deixe de blasfemar… Uma tal suposição é simplesmente horrível, indigna de Deus e indigna de sua Justiça.
Não, não! nunca uma tal blasfêmia pode ser aceita por um homem de bom senso, por um cristão.
Aliás, o próprio Evangelho nos insinua claramente o contrário, mostrando-nos que Maria Santíssima continua no céu o que ela já fez na terra.
Deus não a utilizou somente na Encarnação e no Calvário. É carregado nos braços de sua Mãe, e como pela sua voz, que Jesus faz sentir as suas primeiras influências, santificando São João Batista.
Ela está ao lado do presépio, para receber e introduzir os primeiros adoradores.
Ela está em Caná, para obter de Jesus o primeiro milagre, que confirmou os seus primeiros discípulos.
Ela está no Cenáculo, o berço da Igreja nascente, como Rainha e Mestra dos Apóstolos.
Vemo-la em todas as fases importantes da vida de Jesus Cristo; nas quais Ele comunica as suas graças e atrai as almas a Deus.
Não é isso um sinal bastante claro dos desígnios de Deus?
A tradição católica, apoiada sobre os fatos evangélicos, nunca hesitou, e nestes fatos ela reconhece os indícios da verdade, para afirmar publicamente das graças, em outros termos, ela aclama a Virgem Santa como Medianeira de todas as graças.
6. Dupla mediação de Maria
Maria é pois verdadeiramente a nossa Medianeira, e isto em dois sentidos.
Num primeiro sentido, para salientar, de um modo geral, que ela está ao lado do Mediador, que é Jesus Cristo, na obra da nossa reconciliação com Deus, de nossa santificação e da nossa salvação.
Num segundo sentido, como Medianeira entre Jesus e nós, para dar-nos Jesus, e com Jesus dar-nos todas as graças da redenção; para conduzir-nos a Jesus, interceder por nós e atrair sobre nós a sua misericórdia e os seus favores.
Tal é o duplo sentido da Mediação da Virgem Santa:
- Uma mediação geral, com Jesus, entre Deus e os homens
- Uma mediação particular, entre Jesus e os homens
Para refutar os erros protestantes a este respeito, repitamos que isso não significa, de modo algum, que nós aceitamos um Mediador, ao lado do Mediador único ou que a mediação de Jesus nos parece insuficiente, ou que atribuímos qualquer coisa a Maria, fora de Jesus.
Nada de tudo isso. Maria está ao lado de Jesus – Mediador, para constituí-lo Mediador perfeito neste sentido que ela ocupa na obra da mediação da vida a parte que Deus lhe outorgou; como Eva estava ao lado de Adão, na mediação da morte.
Em ambos os sentidos aqui indicados o nome de Medianeira inclui para Maria Santíssima, a dupla cooperação à obra redentora, acima exposta: cooperação, pela sua ação, na terra; cooperação pela sua intercessão, no céu.
Estas duas mediações são universais, como é universal a mediação de Jesus, e se estendem a todas as graças que nos são concedidas em vista de Jesus.
Compreende-se logo esta universalidade, lembrando-se da unidade da obra redentora, e da união indissolúvel entre Maria e Jesus no plano da redenção e salvação pelo Filho de Deus.
Quem nos deu Jesus, como autor de todas as graças, no deu, pelo fato, todas as graças que Jesus veio merecer-nos.
Quem teve um tal papel no grande dom de Deus, não pode ficar sem influência atual na distribuição da graça, pois a graça é como a extensão e o prolongamento de Jesus até nós.
Quem, em toda parte, foi medianeira com Jesus, não pode cessar de unir a sua ação ao próprio ato pelo qual Jesus exerce a sua mediação.
De qualquer lado que se contemple a mediação de Jesus Cristo, na terra como no céu, no resgate ou no merecimento, na redenção ou na santificação, em toda parte, encontra-se a mediação de Maria, unida á mediação de Jesus Cristo.
Tal é a bela e consoladora doutrina que nos transmitem os Santos Padres e Doutores da Igreja, e o fazem com uma firmeza, uma convicção que mostram que tal foi sempre a tradição católica, e uma tradição tão universal, que mui raramente foi contestada, senão por hereges.
Numa das orações da festa da medalha milagrosa, a Igreja adora integralmente esta opinião, dizendo: Senhor, Deus onipotente, que quisestes que recebamos todos os bens pela Mãe Imaculada de Vosso Filho, (3) concedei-nos, pelo auxílio de uma mãe tão poderosa, etc.
São conhecidos as belas palavras de São Bernardo, que resumem toda esta doutrina: Deus pôs em Maria a plenitude de todo bem; em consequência não esqueçamos que toda a nossa esperança, de graça, e de salvação, nos vêm dela; e que é como á da super-plenitude deste canal de benção que se derrama sobre nós. (4)
Citemos ainda este belo trecho de São Bernardino de Sena, que resume todo o mecanismo da transmissão da graça:
“Todas as graças transmitidas aos homens neste mundo, lhes chegam por uma tríplice processão: Elas vão do Pai ao Cristo, do Cristo à Virgem Santa, da Virgem Santa a nós.
De fato, desde o momento em que Maria concebeu em seu seio o Filho de Deus, ela goza de uma espécie de jurisdição ou de autoridade sobre todas as processões temporais do Espírito Santo, de modo que nenhuma criatura recebe de Deus graças, senão pela mediação de Maria”.
É o que a piedade cristã exprime neste axioma clássico: “Tudo para Jesus, nada sem Maria”.
7. Conclusão
Grandes e sublimes verdades passaram diante de nosso espírito.
Verdades certas, irrefutáveis, mas que entretanto não constituem dogma de fé, porque a Igreja não as definiu ainda.
Convém notar que uma verdade não é menos certa e menos provada, por não ser ainda declarada dogma de fé, pela autoridade infalível da Igreja.
A Igreja não a definiu ainda, porque não há discussão a dirimir sobre este ponto. Poucos são os inimigos, afora os protestantes, que contestam este título de Maria, como Medianeira de todas as graças.
Os dogmas desenvolvem-se subjetivamente, isto é, pelo conhecimento mais amplo e mais profundo que vamos adquirindo deles, pelo estudo, os ataques e as discussões, embora fiquem imutáveis objetivamente, isto é, tais quais são em si mesmos.
Entre as verdades mais proximamente definíveis, figuram, de certo, a Mediação universal de Maria e a sua gloriosa Assunção.
Estas verdades explicitamente transmitidas pela tradição estão implicitamente contidas no dogma da Imaculada Conceição e da maternidade divina e espiritual de Maria, donde se vão separando, à medida que são estudados, como mais profundidade pelos teólogos.
Terminemos esta Capítulo, resumindo em poucas palavras, o modo pelo qual se fez a mediação da Virgem Santa.
A intervenção atual de Maria, em nosso favor, não tem por efeito produzir a graça, o que só pertence a Deus, mas sim de obtê-la e de contribuir pra isto.
Tal intervenção não se exerce senão na ordem da salvação.
Quando se lhe pede e dela alcança favores temporais, a influência de Maria é sempre de conduzir os homens ao seu fim sobrenatural.
E como exercer esta influência salutar de Maria?
Principalmente, por modo de intercessão, pelas suas preces.
É pelas suas súplicas, sobretudo, que a Virgem Imaculada inclina continuamente o Coração do Filho a aplicar os frutos de seu sangue, e a misericórdia do Pai, em infundir nas almas os dons do Espírito Santo.
E estas súplicas da Mãe de Deus se apoiam sobre um duplo motivo: primeiramente, sobre os merecimentos de seu Filho e, secundariamente, sobre seus próprios merecimentos.
Podemos nos aproximar de Deus com confiança, tendo o Filho por Mediador perto do Pai, e Maria por Medianeira perto do Filho.
O Filho mostra ao Pai as suas chagas e o seu lado aberto.
A Mãe apresenta ao Filho as entranhas que O geraram, o seio que O alimentou – uplica esta que supera as súplicas dos Anjos e dos homens.
A súplica de Maria apoia-se secundariamente sobre seus prórpios merecimentos. Não sobre novos merecimentos que ela adquire no céu, pois os Santos no céu são incapazes de méritos, mas, sim, sobre os merecimentos adquiridos por ela, durante a sua vida terrestre, e que ao deixar este mundo, ela apresentou a Deus.
Tais méritos já receberam uma recompensa, pela sua entrada no céu, porém, das três partes de que é composto o mérito: parte meritória, satisfatória e impetratória, só a parte meritória recebeu esta recompensa, de modo que ela continua a interceder para os homens, pela parte satisfatória e impetratória de seus merecimentos.
Os caracteres distintivos desta intercessão é de ser irresistível ou onipotente, de tal modo que os Santos chamam Maria Omnipotencia supplez, a onipotência suplicante.
Em segundo lugar a mediação de Maria é universal, não conhecendo limites, nem para o tempo, nem para o espaço, nem para o número, nem para a espécie de graças.
Os seus benefícios se estendem a todos, diz a Igreja em uma de suas Antífonas: Sentiant omnes tuum juvamen!
Eis, em síntese, a bela e harmoniosa doutrina da Mediação universal de Maria Santíssima.
Se os amigos protestantes, escutando menos o ódio de sua seita, que o bom senso de sua razão e a narração evangélica, meditassem bem esta doutrina, eles compreenderiam quanto ela se afasta da mesquinha e odienda concepção que eles têm de tal Mediação.
Compreenderiam que os Católicos, longe de contrariar o texto de São Paulo, que proclama que só há um mediador entre Deus e os homens, destacam este texto e põem-no em plena luz, admitindo o único mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, o único redentor da humanidade.
Mas, do mesmo modo que Deus colocou ao lado deste único redentor a Virgem Imaculada, como a auxiliar ministerial desta Redenção, fazendo dela, não uma Redentora, mas uma auxiliar ou Corredentora; assim na obra da santificação das almas Deus colocou a mesma Virgem como auxiliar, ou co-medianeira, entre Deus e os homens, e como medianeira especial entre Jesus Cristo e os homens.
Tal é a doutrina lógica, suave, racional e bíblica, que a Igreja professa, e que é como a base do culto de amor e de confiança, que os seus filhos dedicam à Virgem Santíssima.
Oh! em vez de blasfemardes a bondade de Deus, que nos deu uma intercessora tão poderosa e tão carinhosa, invocai-a, implorai-a, pobres protestantes, para que ela dissipe as trevas de vosso espírito, e faça brilhar diante de vosso coração, este amor divino que Jesus vem trazer ao mundo, mas que Ele comunica pelo intermédio de sua Mãe querida.
A Mulher bendita diante dos ataques protestantes ou Respostas irrefutáveis às objeções protestantes contra o culto da Santíssima Virgem Maria, pelo P. Júlio Maria, Missionário de N. Sra, do Smo. Sacramento, 1936.
(1) Ad mediatoris officium proprio pertinet conjungere et unire eos inter quos est mediator, nam extrma unfuntur in medio. (S. thom. q. 26. a 1)
(2) Beatíssima Virgo est totius terrarum orbis potentissima apud unigenitum Fillium suum Mediatrix et Consolatrix.
(3) Festa da medalha milagrosa – 27 Nove. Postcom.
(4) Altius ergo intueamini, quanto devotionis affectu a nobis eam voluerit honorari, qui totius boni plenitudinem posuit in Maria: ut proinde si quid spei in nobis est, si quid gratiae, se quid salutis, ab ea noverimus rodundare Ser. Aquaeducta n. 6).
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico