Convém gozar da vida, importa passar bem; porque Deus não nos criou senão para nos tornar felizes.
RESPOSTA. – Oh, sim! Deus, em sua bondade, não nos criou senão para nos tornar felizes! Mas a grande questão funda-se em nos não enganarmos acerca da FELICIDADE.
Vós quereis ser feliz. Tendes razão. Mas acautelai-vos para vos não enganardes na escolha dos meios! Tendes na vossa frente muitos caminhos abertos; mas atentai a que um só é o verdadeiro… ai daquele que segue pela falsa estrada!
Este erro é em nossos dias mais fácil do que nunca; porque, a meu ver, jamais o mundo se viu tão inundado de doutrinas mentirosas acerca deste objeto – Homens culpados ou desvairados derramam por toda parte, e pelos mil meios que a imprensa lhes fornece, doutrinas que, lisonjeando todas as paixões, penetram facilmente no espírito das populações.
Buscam eles persuadir-nos de que nós não permanecemos sobre a terra senão para gozar; que as esperanças da vida futura são quimeras; que a felicidade consiste na prosperidade material, que o dinheiro proporciona. – Esta é a doutrina do prazer.
É a doutrina que atualmente procura prevalecer ao Cristianismo e materializar a ventura. No século passado chamava-se a isto Filosofia; em nossos dias denomina-se SOCIALISMO.
Não vos farei a injúria de provar que esta ventura de gozar é aviltadora. Isto salta aos olhos. Ela aniquila tudo o que nos distingue dos brutos, o bem, a virtude, a dedicação, ordem moral. O homem não fica diferindo do seu cão mais que pela epiderme e pela figura; a felicidade é a mesma coisa tanto para um como para outro; satisfação de todos os apetites, o gozo!
Mas aquilo de que se não está suficientemente convencido, e sobre que quero despertar a vossa atenção, é da impossibilidade prática da doutrina socialista, é do absurdo da sua ventura universal.
Eu quisera fazer-vos tocar com o dedo a sua oposição absoluta com a natureza das coisas, com os fatos existentes, que ninguém pode mudar; convencer-vos de que não é mais que um sonho, uma perigosa e ridícula utopia, e que debaixo dos palavrões com que se decora, depara-se com a exclusão de todas as coisas – zero.
Se acaso há um fato verificado, e tão claro como a luz do sol é sem contradição a triste necessidade em que nos vemos neste mundo de sofrer e de morrer; é esta a condição de todos os homens sobre a terra; é a situação em que eu estou, em que vós estais, em que estiveram nossos pais, e em que estarão nossos filhos, de onde nenhum esforço humano nos poderá arrancar.
Não há neste mundo, pergunto eu, não haverá sempre, sempre e sempre, enfermidades, aflições, dores? Não há, e não haverá sempre viúvas e órfãos? Mães chorando inconsoláveis diante dos berços vazios de seus filhos?…
Não há, e não haverá sempre conflitos de caracteres, embates de vontade, decepções profundas?
Não será possível mudar este estado de coisas? Uma organização nova na sociedade, QUALQUER QUE ELA SEJA, evitará acaso que tenhamos doenças, sofrimentos, fluxões de peito, febre, gota e cólera-mórbus? Impedirá que experimentemos a perda daquelas a quem amamos?… Obstará às intempéries tão desagradáveis das estações, ao rigor do frio de inverno, à calma abrasadora de verão? Que tenha orgulho, egoísmo, ira, ódio? Obstará principalmente à MORTE?
Existe tudo isto, ou não existe? E não é igualmente tão certo EXISTIR, como é certo ter de existir sempre? Seria necessário ter perdido o juízo para o negar.
Ora dizei-me agora, na presença deste fato, em que se converte, no meio de tantos males inevitáveis, esse decantado gosto constante, ESSA FELICIDADE TERRESTRE PERFEITA, que nos promete o Socialismo? – A aproximação da doença, do pesar e da morte bastará para a aniquilar!… E estes terríveis inimigos estão sempre à nossa porta.
Portanto, o vosso Comunismo, o vosso Socialismo (chamai-lhe como quiserdes) é um sonho, uma vã utopia, contrária à natureza das coisas.
E, por consequência engana-se, ou me engana, quando me promete o repouso da felicidade sobre a terra, onde esta não pode existir, e quando faz consistir esta mesma felicidade em um estado de gozo permanente, impossível de realizar.
Isto posto, devo procurá-la noutra parte; porquanto, eu bem sei que existe nalguma parte; a sabedoria, a bondade e o poder de Deus me dão disto segura fiança…
Porém onde? – onde o Cristianismo no-la mostra – em germe sobre a terra, em perfeição no Céu.
O Cristianismo está perfeitamente de acordo com o grande fato da nossa condição mortal. Explica-nos o temeroso problema do sofrimento e da felicidade.
Explica-nos o temeroso problema do sofrimento e da felicidade.
Ela toma o homem com todas as suas qualidades, e tal qual é; atende aos fatos essenciais que o Socialismo desconhece (a degeneração original, a condenação à penitência, a Redenção de jesus Cristo, a necessidade de imitar o Salvador para ter parte em sua redenção, a vida eterna que nos está esperando, etc.). Não forma raciocínios aéreos, nem suposições quiméricas, como faz o Socialismo.
O Socialismo não vê em nós senão a casca, esquece o miolo, a alma. – O Cristianismo não olvida a casca, o corpo, mas atenta também no miolo e acha que o miolo vale incomparavelmente mais que a casca. – Ele considera tudo em relação à alma, à eternidade, a Deus.
Mediante uma ação tão suave quanto poderosa, purifica a alma pouco a pouco do seu orgulho, da sua cobiça, de suas concupiscências, de seus excessos, de seu egoísmo, em uma palavra, de todos os seus vícios e penetra desta arte até à raiz mais profunda da maior parte dos males que há pouco mencionamos. E, com efeito, os nossos males quase sempre provém das nossas paixões; eu Cristianismo acalma, contém e doma estas paixões.
Dá ao nosso coração essa alegria, essa paz amena que produz a pureza de consciência.
A fé claramente nos mostra a vereda que conduz à felicidade: a esperança e o amor nos fazem correr por esse caminho, e tornam grato e amável o jugo do dever!
Se o Cristianismo se mostra tão solícito a respeito da alma, já dissemos que também não esquece o corpo. Mais acima tivemos ocasião de ver os cuidados de que este o cerca.
Ocupa-se dele, não como do principal e do senhor; porque isto seria uma desordem, mas como do acessório e do companheiro. Conserva-o pela sobriedade e castidade: santifica-o pelo culto exterior, pela recepção dos Sacramentos, e principalmente pela união com o Corpo Sagrado de Jesus Cristo na Eucaristia…
Recolhe os seus últimos suspiros; acompanha-o decorosamente até à sua derradeira morada; e, ainda ali mesmo, lhe não diz um eterno adeus!… Bem sabe ele que um dia, esse corpo cristão, purificado pelo batismo da morte, surgirá radioso de entre o seu pó, ressuscitará para a glória, será reunido à sua alma, e com ela gozará inefáveis delícias no Paraíso!…
Tal é o Cristianismo.
Ele conhece, promete, e dá com efeito a felicidade.
Dá sobre a terra o que na terra é possível dar-se, e, se não dá tudo, é porque nem tudo deve, nem tudo pode dar-se sobre ela.
Funda as suas promessas nas provas mais irrefragáveis. O Cristão sabe e está bem perto de que, o que ainda não possui, um dia o virá a possuir…
Por consequência, todo o verdadeiro cristão é FELIZ. Comporta às vezes, é verdade, pesares, sofre atribulações… impossível seria que fosse isento delas; mas o seu coração está sempre saciado, sempre tranquilo e contente.
Trata acaso assim o Socialismo os pobres desvairados que acalenta com as suas quimeras? Ele promete o que nenhum poder humano pode dar; promete o impossível… Provas não conta outra além da audaciosa afirmativa de seus caudilhos; mas porventura serão seus caudilhos idôneos para nos inspirar confiança?
“O mundo está feliz, dizem eles, quando tudo estiver mudado” – Sim; mas QUANDO estará tudo mudado? – Se, como julgamos ter já demonstrado, esta mudança é contrária à natureza das coisas, o mundo corre grande risco de não conhecer jamais essa felicidade!
O Socialismo faz como o barbeiro gascão que pôs na tabuleta este dístico:
“Aqui, amanhã, faz-se a barba de graça”.
O amanhã ficava sempre amanhã; e o hoje nunca chegava.
O Socialismo quer a recompensa sem o trabalho; o Cristão que a recompensa depois do trabalho.
Um diz como os maus artistas costumam dizer, o outro fala como os bons costumam falar. Assim, não é de admirar que todo o vadio, todo o preguiçoso abrace de boa vontade as doutrinas do Socialismo, e repulse instintivamente a voz da Religião.
Resguarde-se pois a nossa pátria destas promessas ocas, mas sedutoras, com que os seus inimigos enchem os jornais, os romances e os folhetos.
Rejeite-as; faça justiça, por meio de seu desprezo, aos homens que se não pejam de propor a seus irmãos a ignóbil ventura dos brutos – o gozo!
Ergamos a cabeça! Reanimemos a nossa fé entibiada; sejamos, tornemos a ser cristãos! É somente nisto que reside o remédio dos nossos males. Aprendamos a compreender, como nossos pais, as celestiais lições que o DIVINO MESTRE nos deixou sobre a FELICIDADE;
“BEM-AVENTURADOS, diz Ele: “bem-aventurados os pobres de espírito (isto é, aqueles a quem os bens frágeis da terra não fascinam): porque deles é o Reino do Céu!
“BEM-AVENTURADOS os que são manso e pacíficos; porque serão chamados filhos de Deus!
“BEM-AVENTURADOS os que choram; porque serão consolados!
“BEM-AVENTURADOS os que são puros de coração; porque eles verão a Deus!
Instruamo-nos, pois, penetremo-nos bem dessa Religião Católica em que fomos criados, associemo-la ao nosso espírito, ao nosso coração, aos nossos hábitos, às nossas instituições, às nossas leis!… Desta arte conseguiremos a felicidade POSSÍVEL neste mundo, e a felicidade PERFEITA no outro.
Quem pretende mais, é um insensato que não terá nem uma, nem outra.
Perguntas e Respostas Concisas e Familiares às Objeções Mais Vulgares contra a religião, Monsenhor de Ségur, 1946.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico