Reflexão e Conversão

Nascimento e desenvolvimento progressivo do culto ao Sagrado Coração de Jesus

1) Albores do culto ao sagrado coração na devoção às chagas sacrossantas da paixão

À vossa consideração, veneráveis irmãos, e à do povo cristão quisemos expor em suas linhas gerais a íntima natureza e as perenes riquezas do culto ao coração sacratíssimo de Jesus, atendo-nos à doutrina da revelação divina como à sua fonte primária. Estamos persuadidos de que estas nossas reflexões, ditadas pelo próprio ensinamento do Evangelho, mostraram claramente como, em substância, este culto não é outra coisa senão o culto ao amor divino e humano do Verbo encarnado, e também o culto àquele amor com que o Pai e o Espírito Santo amam os homens pecadores. Porque, como observa o Doutor angélico, a caridade das três Pessoas divinas é o princípio da redenção humana nisto que inundando copiosamente a vontade humana de Jesus Cristo e o seu coração adorável, com a mesma caridade o induziu a derramar o seu sangue para nos resgatar da servidão do pecado:(33) “Com um batismo tenho de ser batizado, e como me sinto oprimido enquanto ele não se cumpre!” (Lc 12,50). 

Aliás, é persuasão nossa que o culto tributado ao amor de Deus e de Jesus Cristo para com o gênero humano, através do símbolo augusto do coração transfixado do Redentor, nunca esteve completamente ausente da piedade dos fiéis, embora a sua manifestação clara e a sua admirável difusão em toda a Igreja se haja realizado em tempos não muito distantes de nós, sobretudo depois que o próprio Senhor revelou este divino mistério a alguns de seus filhos após havê-los cumulado com abundância de dons sobrenaturais, e os elegeu para seus mensageiros e arautos.

De fato, sempre houve almas especialmente consagradas a Deus que, inspirando-se nos exemplos da excelsa mãe de Deus, dos apóstolos e de insignes padres da Igreja, tributaram culto de adoração, de ação de graças e de amor à humanidade santíssima de Cristo, e de modo especial às feridas abertas no seu corpo pelos tormentos da paixão salvadora.

Aliás, como não reconhecer nas próprias palavras: “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20,28), pronunciadas pelo apóstolo Tomé e reveladoras da sua súbita transformação de incrédulo em fiel, uma clara profissão de fé, de adoração e de amor, que da humanidade chagada do Salvador se elevava até a majestade da Pessoa divina?

Mas, ainda que o coração ferido do Redentor tenha sempre levado os homens a venerarem o seu infinito amor a tempos sempre tiveram valor as palavras do profeta Zacarias que o evangelista João aplicou a Jesus crucificado: “Verão a quem traspassaram” (Jo 19,37; cf. Zc 12,10), todavia cumpre reconhecer que só gradualmente esse coração chegou a ser objeto de culto especial, como imagem do amor humano e divino do Verbo encarnado. 

2) Princípio e progresso do culto ao sagrado coração na Idade Média e nos séculos seguintes

Querendo agora indicar somente as etapas gloriosas percorridas por este culto na história da piedade cristã, mister é recordar, antes de tudo, os nomes de alguns daqueles que bem podem ser considerados os porta-estandartes desta devoção, a qual, em forma privada e de modo gradual, foi-se difundindo cada vez mais nos institutos religiosos. Assim, por exemplo, distinguiram-se por haver estabelecido e promovido cada vez mais este culto ao coração sacratíssimo de Jesus: s. Boaventura, s. Alberto Magno, s. Gertrudes, s. Catarina de Sena, o Beato Henrique Suso, s. Pedro Canísio e s. Francisco de Sales. A s. João Eudes deve-se o primeiro ofício litúrgico em honra do sagrado coração de Jesus, cuja festa se celebrou pela primeira vez, com o beneplácito de muitos bispos de França, a 20 de outubro de 1672. Mas entre todos os promotores desta excelsa devoção merece lugar especial s. Margarida Maria Alacoque, que, com a ajuda do seu diretor espiritual, o beato Cláudio de la Colombière, e com o seu ardente zelo, conseguiu, não sem admiração dos féis, que este culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã.(34)

Basta essa evocação daquela época em que se propagou o culto do coração de Jesus para nos convencermos plenamente de que o seu admirável desenvolvimento se deve principalmente ao fato de se achar ele em tudo conforme com a índole da religião cristã, que é religião de amor. Por conseguinte, não se pode dizer nem que este culto deve a sua origem a revelações privadas, nem que apareceu de improviso na Igreja, mas sim que brotou espontaneamente da fé viva, da piedade fervorosa de almas prediletas para com a pessoa adorável do Redentor e para com aquelas suas gloriosas feridas, testemunhos do seu amor imenso que intimamente comovem os corações. Evidente é, portanto, que as revelações com que foi favorecida s. Margarida Maria não acrescentaram nada de novo à doutrina católica. A importância delas consiste em que – ao mostrar o Senhor o seu coração sacratíssimo – de modo extraordinário e singular quis atrair a consideração dos homens para a contemplação e a veneração do amor misericordioso de Deus para com o gênero humano. De fato, mediante manifestação tão excepcional, Jesus Cristo expressamente e repetidas vezes indicou o seu coração como símbolo com que estimular os homens ao conhecimento e à estima do seu amor; e ao mesmo tempo constituiu-o sinal e penhor de misericórdia e de graça para as necessidades da Igreja nos tempos modernos. 

3) Aprovação pontifícia da festa  do coração sacratíssimo de Jesus

Prova evidente de que este culto promana das próprias fontes do dogma católico dá-a o fato de haver a aprovação da festa litúrgica pela Sé Apostólica precedido a aprovação dos escritos de s. Margarida Maria. Na realidade, independentemente de toda revelação privada, e secundando só os desejos dos féis, por decreto de 25 de janeiro de 1765, aprovado pelo nosso predecessor Clemente XIII, a 6 de fevereiro do mesmo ano, a Sagrada Congregação dos Ritos concedeu aos bispos da Polônia e à arquiconfraria romana do sagrado coração de Jesus a faculdade de celebrar a festa litúrgica. Com esse ato, quis a Santa Sé que tomasse novo incremento um culto já em vigor, cujo fim era “reavivar simbolicamente a lembrança do amor divino” (35) que levara o Salvador a fazer-se vítima de expiação pelos pecados dos homens.

A essa primeira aprovação, dada em forma de privilégio e limitadamente, seguiu-se, a distância de quase um século, outra de importância muito maior, e expressa em termos mais solenes. Referimo-nos ao decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 23 de agosto de 1856, anteriormente mencionado, com o qual o nosso predecessor Pio IX, de imortal memória, acolhendo as súplicas dos bispos da França e de quase todo o orbe católico, estendeu a toda a Igreja a festa do coração sacratíssimo de Jesus, e prescreveu a sua celebração litúrgica.(36) Esse fato merece ser recomendado à lembrança perene dos fiéis, pois, como vemos escrito na própria liturgia da festa, “desde então o culto do sacratíssimo coração de Jesus, semelhante a um rio que transborda, superou todos os obstáculos e difundiu-se pelo mundo todo”.

De quanto até agora expusemos, veneráveis irmãos, aparece evidente que é nos textos da Sagrada Escritura, na tradição e na sagrada liturgia que os fiéis hão de encontrar principalmente os mananciais límpidos e profundos do culto ao coração sacratíssimo de Jesus, se desejam penetrar na sua íntima natureza e tirar da sua piedosa meditação alimento e incremento do fervor religioso. Iluminada, e penetrando nela mais intimamente mediante esta meditação assídua, a alma fiel não poderá deixar de chegar àquele doce conhecimento da caridade de Cristo no qual se resume toda a vida cristã, tal como, instruído pela própria experiência, o ensina o Apóstolo: “Por esta causa dobro meus joelhos ante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…, para que, segundo as riquezas de sua glória, vos conceda por meio do seu Espírito serdes fortalecidos em virtude no homem interior, e para que Cristo habite pela fé nos vossos corações, estando vós arraigados e cimentados em caridade; a ~m de que possais conhecer também aquele amor de Cristo que sobrepuja todo conhecimento, para serdes plenamente cumulados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3,14.16-19). Dessa plenitude universal é precisamente imagem esplendida o coração de Jesus Cristo: plenitude da misericórdia própria do Novo Testamento, no qual “Deus nosso Salvador manifestou a sua benignidade e amor para com os homens” (Tt 3,4); pois “Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas sim para que, por meio dele, o mundo se salve” (Jo 3,17).

4) Espiritualidade e excelência do culto ao coração sacratíssimo de Jesus

Desde quando promulgou os primeiros documentos oficiais relativos ao culto do coração sacratíssimo de Jesus, tem sido constante persuasão da Igreja, mestra da verdade para os homens, que os elementos essenciais desse culto, quer dizer, os atos de amor e de reparação tributados ao amor infinito de Deus para com os homens, longe de estarem contaminados de materialismo e de superstição, constituem uma forma de piedade em que se põe plenamente em prática aquela religião espiritual e verdadeira que o próprio Salvador anunciou à samaritana: “Já chega o tempo, e já estamos nele, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4,23-24).

Lícito não é, portanto, afirmar que a contemplação do coração físico de Jesus impede de chegar ao amor íntimo de Deus e retarda o progresso da alma no caminho que leva à posse das mais excelsas virtudes. A Igreja repele completamente esse falso misticismo, como, por boca do nosso predecessor Inocêncio XI, de feliz memória, condenou a doutrina dos que divulgavam que não devem (as almas desta via interior) fazer atos de amor à santíssima Virgem, aos santos ou a humanidade de Cristo, porque, sendo sensíveis estes objetos, o amor que a eles se dirige também há de ser sensível. Nenhuma criatura, nem mesmo a santíssima Virgem e os santos, deve penetrar no nosso coração, porque só Deus quer ocupá-lo e possuí-lo”. (37)Os que assim pensam são, naturalmente, de opinião que o simbolismo do coração de Cristo não se estende a mais do que ao seu amor sensível, e que, por conseguinte, não pode constituir novo fundamento do culto de latria, culto reservado só àquilo que é essencialmente divino. Ora, interpretação semelhante das sagradas imagens, todos vêem que é absolutamente falsa, porque lhes coarcta injustamente o significado. Contrária é a isso a opinião e o ensino dos teólogos católicos, e entre eles s. Tomás assim escreve: “Às imagens tributa-se culto religioso, não consideradas em si mesmas, quer dizer, enquanto realidades, mas sim enquanto imagens que nos levam até Deus encarnado. O movimento da alma para a imagem enquanto imagem não pára nesta, mas tende ao objeto por ela representado. Por conseguinte, do fato de tributar culto religioso às imagens de Cristo não resulta um culto de latria diverso nem uma virtude de religião diferente”.(38) À própria pessoa do Verbo chega, pois, o culto relativo tributado às suas imagens, sejam estas as relíquias da sua acerba paixão, seja a imagem que supera todas em valor expressivo, quer dizer, o coração ferido de Cristo crucificado.

E, assim, do elemento corpóreo, que é o coração de Jesus Cristo, e do seu natural simbolismo, é legítimo e justo que, levados pelas asas da fé, nos elevemos não só à contemplação do seu amor sensível, porém a mais alto, até à consideração e adoração do seu excelentíssimo amor infuso, e, finalmente, num vôo sublime e doce ao mesmo tempo, até à meditação e adoração do amor divino do Verbo encarnado; já que à luz da fé, pela qual cremos que na pessoa de Cristo estão unidas a natureza humana e a natureza divina, podemos conceber os estreitíssimos vínculos que existem entre o amor sensível do coração físico de Jesus e o seu duplo amor espiritual, o humano e o divino. Em realidade, não devem esses amores ser considerados simplesmente como coexistentes na adorável pessoa do Redentor divino, mas também como unidos entre si com vínculo natural, nisto que ao amor divino estão subordinados o humano, o espiritual e o sensível, os quais são uma representação analógica daquele. Com isso não pretendemos que no coração de Jesus se deva ver e adorar a chamada imagem formal, quer dizer, a representação perfeita e absoluta do seu amor divino, não sendo possível, como não é, representar adequadamente por qualquer imagem criada a íntima essência desse amor; mas a alma fiel, venerando o coração de Jesus, adora juntamente com a Igreja o símbolo e como que a marca da caridade divina, caridade que com o coração do Verbo encarnado chegou até a amar o gênero humano contaminado de tantos crimes.

Portanto, neste assunto tão importante como delicado, é necessário ter sempre presente que a verdade do simbolismo natural, que relaciona o coração físico de Jesus com a pessoa do Verbo, repousa toda na verdade primária da união hipostática; quem isto negasse renovaria erros mais de uma vez condenados pela Igreja, por contrários à unidade da pessoa de Cristo em duas naturezas íntegras e distintas.

Essa verdade fundamental permite-nos entender como o coração de Jesus é o coração de uma pessoa divina, quer dizer, do Verbo encarnado, e que, por conseguinte, representa e nos põe ante os olhos todo o amor que ele nos teve e ainda nos tem. E aqui está a razão por que, na prática, o culto ao sagrado coração é considerado como a mais completa profissão da religião cristã. Verdadeiramente, a religião de Jesus Cristo funda-se toda no Homem-Deus mediador; de maneira que não se pode chegar ao coração de Deus senão passando pelo coração de Cristo, conforme o que ele mesmo afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Assim sendo, facilmente deduzimos que, pela própria natureza das coisas, o culto ao sacratíssimo coração de Jesus é o culto ao amor com que Deus nos amou por meio de Jesus Cristo, e, ao mesmo tempo, o exercício do amor que nos leva a Deus e aos outros homens; ou, dito por outra forma, este culto dirige-se ao amor de Deus para conosco, propondo-o como objeto de adoração, de ação de graças e de imitação; e tem por fim a perfeição do nosso amor a Deus e aos homens mediante o cumprimento cada vez mais generoso do mandamento “novo”, que o divino Mestre legou como sagrada herança aos seus apóstolos quando lhes disse: “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei… O meu preceito é que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13,34; 15,12). Esse mandamento, verdadeiramente, é “novo” e “próprio” de Cristo; porque, como diz s. Tomás de Aquino: “Pouca diferença há entre o Antigo e o Novo Testamento; pois, como diz Jeremias: ‘Farei um pacto novo com a casa de Israel’ (Jr 31,31). Porém que este mandamento se praticasse no Antigo Testamento a impulsos de um santo temor e amor, isto pertencia ao Novo Testamento; de sorte que este mandamento existia na antiga lei não como próprio dela, porém como preparação da nova lei”.(39)

Trecho da Carta Encíclica Haurietis Aquas do Sumo Pontífice Papa Pio XII

(33) Cf. Summa theol., III, q. 48, a. 5; ed. Leon., t. XI,1903, p. 467.

(34) Cf. Carta enc. Miserentissimus Redemptor: AAS 20(1928), pp.167-168.

(35) Cf. A. Gardellini, Decreta authentica, 1857, n. 4579, t. III, p.174.

(36) Cf. Decr. S. C. Ritum em N. Nilles, De rationibus festorum Sacratissimi Cordis Iesu et purissimi Cordis Mariae, 5e ed. Innsbruck,1885, t. I, p.167.

(37) Inocêncio XI, Const. Ap. Coelestis Pastor, (19 de novembro de 1687): Bullarium Romanum, Romae 1734, t. VIII, p. 443.

(38) Summa theol., II-II, q. 81, a. 3; ed. Leon., t. IX,1897, p.180.

(39) Comment. in Evang, s. Joannis, c. XIII, lect. VII, 3; ed. Parmae,1860, t. X, p 541.

Fonte: Dominus Est

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