Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
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Traição de Judas - Caravaggio - a tomada de Cristo, por volta de 1602, Galeria Nacional da Irlanda - Public Domain - Wikimedia Commons

O Coração de Jesus e Judas, o traidor

Não há prova mais convincente da bondade do Coração de Jesus, do que as carinhosas atenções que dispensou a Judas, seu traidor. Todo o coração bem formado se indigna só com ouvir pronunciar o nome de Judas Iscariotes.

Todos sabem quão ingrato e obstinado foi. Jesus tudo fizera por ele; concedeu-lhe as mais assinaladas graças, o elevou à sublime dignidade de apóstolo. por três longos anos gozou da companhia de Jesus, experimentou os encantos e a beleza daquele adorável rosto que constitui as delícias dos bem-aventurados; ouviu tantas vezes aquela voz divina que extasia os Anjos; assistiu a gloriosos portentos que faziam pasmar o céu e a terra e não soube corresponder a tantos favores.

Mostra-se indiferente e frio pela glória de seu Mestre. Em vez de amar a Jesus e os eternos bens que promete, Judas ama os bens efêmeros da terra, o lodo. Por amor desses míseros bens, por trinta dinheiros (48 francos), une-se aos inimigos de Jesus, vende-lhes seu Mestre e combina o modo mais prático de lho entregar.

Que delito! Que ingratidão de Judas! Que dor para o Coração de Jesus que tudo vê, que tudo conhece!

Contudo, Jesus continua a prodigalizar benefícios a esse discípulo ingrato e lhe dá ainda provas do mais generoso amor. Embora já conheça seu sacrílego intento. Jesus não o repele, recebe-o com os outros apóstolos na última ceia, quer que ouça suas últimas e comovedoras palavras. Lava-lhe humildemente os pés, para não descobrir aos companheiros e poupar-lhe assim a desonra e a vergonha de desvendar-lhe o plano de traição. Oferece-lhe como alimento e bebida seu sacratíssimo Corpo e Sangue.

Oh! quem não admira essa fineza e imensa bondade do Coração de Jesus?

Mais. Pelas palavras do divino Mestre, soube que iria naquela mesma noite rezar no monte das Oliveiras. Por isso, terminada a ceia, sabe apressado do cenáculo antes dos demais e vai comunicá-lo aos inimigos de Jesus.

O pérfido, para melhor levar a efeito seu atentado, e para que não encontrassem dificuldades pede-lhes um bando de soldados e um grupo de sicários e ele mesmo se oferece para os chefiar. Apenas obteve o que pedia, disse a seus dignos companheiros: – “Jesus lá estará com seus apóstolos; visto que a noite está muito escura, poderíeis confundi-los. Para que tal não aconteça eu vos darei o sinal. Aquele a quem eu beijar, é esse. Prende-o e vigiai-o com cuidado.”

Que perfídia!

Não seria esse motivo bastante para Jesus o detestar e odiar?

Não, porque o Coração de Jesus é fonte inesgotável de bondade e não há delito que a possa exaurir.

Observai se não é verdade o que digo.

Enquanto tramavam essas insídias, Jesus chegara com os apóstolos ao lugar de sua oração.

Era pela meia noite quando aparece com fachos e lanternas o criminoso bando conduzido por Judas. Chegados que foram junto de Jesus, o discípulo traidor avança, aproxima-se do Mestre e lhe diz: – Eu te saúdo, Mestre, e sacrilegamente o beija. O Cordeiro Imaculado não recusa aquele ósculo. Querendo salvar aquele pérfido, mostra-se amoroso para com ele, mesmo nesse ato desumano e benignamente lhe diz: – Meu amigo, a que vieste? Com um beijo tu me atraiçoas? (1)

Mas como, Jesus?! Ainda lhe chamais amigo? Tanta bondade Vossa eu admiro, mas não compreendo… É que o bom Jesus ao abraçar o cruel discípulo, queria estreitá-lo ao peito, fazer-lhe uma doce violência, abrigá-lo em seu amoroso Coração, livrá-lo da morte, salvá-lo.

E porque nesse último abraço, não compreendeu Judas pelas amorosas palpitações do Coração de Jesus, o grandíssimo amor que ainda nutria para com ele? Porque, depois de seu delito, desesperou de alcançar perdão do misericordioso Coração de Jesus? Por grande que fosse seu pecado, se ele, genuflexo aos pés de Jesus, lhe tivesse implorado perdão, imediatamente o teria alcançado. E Jesus exultaria de júbilo em lhe estender a mão para tirá-lo do horrendo abismo. Ter-lhe-ia suavizado as lágrimas, e morreria contente por lhe ter assegurado a salvação.

Mas infelizmente, Judas não se quis persuadir de que o Coração de Jesus é o mais belo, o melhor, o mais generoso e benigno dos corações e, desesperado de alcançar misericórdia, deu-lhe um desgosto maior do que sua traição.

Não, querido Jesus, conosco não se dará o mesmo. Por grandes que sejam os nossos pecados, não nos esqueceremos nunca de que a sua malícia jamais chegará a ser tão grande como Vossa infinita bondade. Nós não Vos atraiçoaremos jamais e nunca desconfiaremos de Vosso perdão pelas culpas passadas.

O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.

(1) math. XXVI.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico