Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

Que se entende pela expressão “Coração de Jesus”

O homem consta de duas partes, que são alma e corpo. Enquanto estas partes estiverem unidas, estarão em íntima relação entre si, ajudando-se reciprocamente nas funções e atos que lhes são próprios. O corpo recebe da alma o movimento e a vida, e é, por sua vez, em suas várias partes, órgão e instrumento da alma no exercício de suas faculdades.

Ora, uma das partes mais essenciais e nobres do corpo, um órgão que se acha em mais íntima relação com a alma, é justamente o coração. O coração é que, juntamente com o sangue, leva a vida a todos os membros do corpo. É ele que recebe com mais prontidão as emoções e mandos da alma, transmitindo-lhe também mais vivamente as impressões recebidas pelos sentidos. Um amor veemente nos inflama o coração até sensivelmente. Um temor inesperado no-lo aperta. A alegria o expande, uma tristeza o abate. E assim todos os afetos que imperam na alma acham prontamente eco no coração.

Observai: ao ouvir uma notícia boa ou má, vosso ouvido a comunica logo à alma e o coração, no mesmo instante, sofre-lhe o reflexo, pois bate com mais força, palpita aceleradamente, e não raras vezes desfalece causando perda dos sentidos. Os sofrimentos, as dores, as aflições, as perdas, enfim os afetos de qualquer espécie, alegram ou angustiam principalmente o coração, que é a sede principal, o ponto de partida de todos os afetos da alma, a qual deseja, ama, goza e sofre por meio do coração. Do coração é que partem os pensamentos, mas o ato de os produzir e conservar na mente depende da vontade com a qual o coração tem estreitas relações. De corde éxeun cogitationes. (1)

Por causa dessa relação e íntima comunicação que há entre a alma e o coração, é que se toma muitas vezes o coração para indicar o homem todo com seus atos, a alma com suas potências e especialmente para indicar a vontade e o amor. De aqui se pode entender o que pede Nosso Senhor quando diz na sagrada escritura: – Meu filho, dá-me teu coração. (2)

Com essas palavras Ele nos pede a oferta de todo o nosso ser. É como se dissesse: Filho dá-me tudo o que tens e tudo o que és. Dá-me tua alma pensando, querendo e amando segundo a minha lei, dá-me teu corpo empregando-o em meu serviço.

Justamente isso ensinou a Santíssima Virgem, quando em uma admirável visão disse à Bem-aventurada Catarina de Racconigi: Darás a Jesus teu coração todas as vezes que prontamente observares seus mandamentos e suportares os sofrimentos por seu amor. Por isso é que as expressões: Coração forte, coração terno; coração amoroso, etc., não significam somente um coração material ornado desses dotes, mas significam o homem todo inteiro, toda a sua pessoa dotada de fortaleza, ternura e amor.

Dito isso, que significa Coração de Jesus?

Significa seu coração material como centro dos mais nobres afetos, como instrumento habilíssimo, de que se serve sua bela alma no exercício de suas faculdades de querer, amar, operar e sofrer por nós.

Significa sua alma com as operações que lhe são próprias, isto é, com seus sentimentos, afetos, dores e virtudes e principalmente o amor imenso que nos dispensa seu Coração Divino.

Mas o que de modo especial se deve notar é que, visto como o corpo e alma de Jesus estiveram e estão ainda inseparavelmente unidos com a segunda Pessoa divina, isto é, com o Verbo ou Filho de Deus, assim o Coração de Jesus é o próprio Filho de Deus feito homem, mortal um dia nesta terra, ora imortal e glorioso no céu e na Santíssima Eucaristia.

Por isso é que não se considera nunca o Coração de Jesus separado, mas sempre unido à Divindade e como tal, digno de uma verdadeira adoração. Mais: visto que, dizendo-se coração de pai, coração de mãe, se exprime o auge, a quinta essência da bondade e do amor, assim o Coração de Jesus é o que de mais belo e de mais amável houve e haverá jamais na terra e no céu. Enfim, o Coração de Jesus é o mais amoroso dos pais, o amigo mais fiel o melhor dos benfeitores, o mais rico dos tesouros, a mais doce alegria, a mais suave das delícias.

O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.

(1) – Math. XV, 19.

(2) Prov. XXIII, 26.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico