Se pessoas há que não merecem nossos afetos e solicitudes são precisamente as que nos desprezaram e ultrajaram e se mostram ainda inimigas nossas. Com muita razão tais pessoas foram comparadas por São Bernardo a um vento quente que seca a fonte de toda a bondade e de toda a misericórdia. (1) E quem são essas pessoas senão os pecadores obstinados? Vêde, pois, que fonte de bondade e amor não é o Coração de Jesus!
Dessa fonte, desse manancial de amor não cessou nunca de brotar e correr para eles a límpida água das mais escolhidas graças.
Pecadores obstinados eram por certo os escribas e fariseus. Obstinados eram também, em grande parte, os habitantes de Jerusalém. Todos esses ouviam a palavra de Jesus, admiravam sua grande sabedoria, reconheciam que tinha razão. Cegos, porém, pela soberba e pela inveja, não queriam de maneira alguma aceitar seus ensinamentos e até envidavam todos os esforços para lhe opor resistências. Apesar de tão insensato procedimento, Jesus os trata sempre com suma bondade. Apesar de sua má vontade, Jesus para levá-los a melhores sentimentos, iluminá-los e conduzi-los pela senda da salvação, vai muitas vezes ao Templo sagrado, afim de fazê-los ouvir sua afetuosa palavra e muitas vezes até opera portentosos milagres. Para vantagem espiritual deles realiza nas portas da metrópole o maio dos prodígios ressuscitando um morto. Para os fazer compreender quanto os amava ainda, apesar de sua ingratidão e para mostrar seu vivo desejo de os proteger, defender e salvar, Jesus usa da comparação mai carinhosa que imagina se possa: não hesitou em se comparar a uma galinha que cria seus pintainhos. – Jerusalém, Jerusalém; exclama Ele depois de ter falado por longo tempo aos obstinados escribas e fariseus, quantas vezes procurei eu reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintainhos sob as asas e tu não quiseste. Com muita razão Jesus se compara com uma galinha, pois que tratou sempre até aos pecadores mais endurecidos como a galinha, costuma tratar seus pintainhos.
Com efeito, ela os ama, os protege nos perigos, cobre-os com as asas, reserva para eles o alimento que mais lhes convém e quando os encontra, logo os chama com solicitude; afadiga-se e se enfraquece por amor deles, perde muitas vezes a voz e parece que nunca se acha tão contente como quando os vê a todos ao derredor de si e os cobre com as asas para os aquecer. Ora, tudo isso Jesus procurou fazer sempre até com seus mais obstinados inimigos. Ele os chama com as mais carinhosas palavras, procura salvá-los com fadigas e suores e lhes oferece o mais suave dos alimentos: sua celeste doutrina. Ó Jesus, fazei-nos também ouvir Vossa amorosa palavra! Estendei sobre nós Vossas asas divinas e estreitai-nos ao Vosso dulcíssimo Coração.
Outra prova de entranhado amor deu-a o Coração de Jesus para com os pecadores obstinados, digna de ser mencionada.
Seis dias antes de sua morte esse amoroso Senhor entrava em Jerusalém como um rei em triunfo, acompanhado pelos discípulos e por uma multidão imensa, que aí afluía para a próxima solenidade de Páscoa.
Quem estendia as próprias vestes pelas ruas por onde devia passar; quem colhia ramos de árvores para atapetar os caminhos; pelos ares ressoavam cordialíssimos hosanas ao Filho de Davi.
Com ser alvo dessas manifestações e desses transportes de alegria, Jesus chora.
Sim, o divino triunfador mistura com a alegria do povo seus suspiros e banha de lágrimas os ramos que cobriam as ruas por onde passava. Mas qual a razão dessas lágrimas? É que Jesus amava a cidade de Jerusalém, amava seus habitantes como parte escolhida do rebanho que o Pai lhe confiara. Desejava que o reconhecessem como Messias, como Pastor de suas almas. Desejava ardentemente que eles abraçassem a verdadeira religião e que, abandonando o pecado, vivessem a vida da alma, entrassem no grêmio da Igreja, continuassem a ser abençoados pelo céu, numa palavra, desejava salvá-los.
Mas, apesar de ter pregado e trabalhado tanto em prol dessa infeliz cidade, não conseguira seu amoroso intento, pois que seus habitantes na maioria continuavam obstinados no pecado. Sabia até que dentre poucos dias esses filhos ingratos, no auge de seus delitos, haveriam de cometer o maior dos crimes, dando a morte ao seu Messias, seu rei e seu Deus.
Tamanha obstinação e tão enormes pecados pediam a Deus vingança e o último delito deveria obrigar a divina justiça a derramar sobre os deicidas o cálice dos mais tremendos castigos.
E Jesus no dia de seu triunfo, ao entrar em Jerusalém via na sua mente divina todas as desgraças que sobre ela haviam de pesar: via que ela, a rainha das cidades, seria dentro em pouco um acervo de ruínas, o sepulcro de seus desditosos habitantes.
À vista de tantos males o bom Jesus se enternece até às lágrimas e exclama: – “Ó Jerusalém, Jerusalém, se ao menos nesse dia que é ainda dia de graças, tu conhecesses o que te poderia dar a salvação e a paz! Tudo isso, porém, está oculto a teus olhos. Virá um dia em que teus inimigos te hão de rodear de trincheiras, te circundarão e te apertarão de todos os lados. Eles te lançarão por terra, não deixarão em ti pedra sobre pedra e em tuas ruínas sepultarão teus filhos. Tudo isso te acontecerá porque não quiseste aproveitar o tempo em que foste visitada.” (2)
Ora, todas essas lágrimas e lamentos não provam que o Coração de Jesus é todo bondade mesmo para com seus mais acérrimos inimigos? Se assim não fosse, para que lamentar, para que chorar seus futuros castigos, aliás tão merecidos?
– Ó Coração de Jesus, sêde generoso também para comigo. Desde já Vos prometo deixar minha obstinação no mal e não ser causa de Vossas lágrimas, mas pelo contrário, de consolação para Vós com um vida santa e fervorosa.
O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.
(1) Serm. 51 in Cant.
(2) Luc. XIX.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico