Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
O Coração de Jesus e os enfermos

O Coração de Jesus e os enfermos

Tudo o que até aqui dissemos do Coração de Jesus não nos pode deixar nenhuma dúvida sobre sua imensa bondade. É bom, contudo, aprofundar-nos sempre mais nesse infinito oceano para sempre descobrir novas riquezas de seu amor. Consideremos, pois, a bondade do Coração de Jesus para com os enfermos, necessitados e aflitos.

Oitocentos anos antes de sua vinda, já o profeta Isaias anunciara que na sua excelsa bondade o Messias tomaria sobre si os infortúnios dos homens. Os santos Evangelhos referindo-se a esse divino oráculo, demonstraram que se verificou perfeitamente em Jesus. De fato, Ele não somente se ofereceu para sofrer por nós toda a sorte de tribulação, afim de satisfazer por nossos pecados e livrar-nos das enfermidades e misérias da alma, mas, por uma superabundância de misericórdia e de amor, quis ainda aliviar as enfermidades do corpo, todas as vezes que isso não redundasse em detrimento da alma.

Com efeito, as páginas do Evangelho estão repletas de toda a espécie de curas de enfermidades que tornavam penosíssima a vida de suas pobres vítimas. Ora é um paralítico a quem ordena se levante e caminhe; ora é um cego a quem restitui a vista; aqui, um surdo que recupera a audição; alí, um mudo a quem solta a língua.

Entre tantos pedidos de cura que lhe faziam, não se encontra em todo o Evangelho um exemplo sequer de um doente que tenha recorrido a Ele ou que tenha sido recomendado por outrem e não fosse atendido.

Tão persuadido estava o povo da bondade do Coração de Jesus, que todos os que tinham doentes, os recomendavam a Ele e lh’os conduziam das mais remotas regiões. Às vezes os doentes eram em tão grande número que enchiam não só as casas onde se achava Jesus, mas até os caminhos e lugares adjacentes de tal maneira que se formava a seu derredor um vasto hospital (1).

Vendo então o bom Jesus, tantos sofrimentos e tantos infelizes, aproximava-se e, qual médico amoroso, dirige a cada um deles afetuosas palavras, e os cura a todos; ora com uma palavra, ora com sua bênção, ora tocando-os; em seguida os despedia e eles se iam com o sorriso nos lábios, entoando hinos de louvor e com a alma radiante de alegria.

De fatos como esses, poder-se-iam escrever volumes. Mas como não é nosso intento escrever uma vida completa do divino Salvador, bastará fazer menção de alguns somente, nos quais mais se manifesta a bondade do divino Mestre. Por isso acenarei apenas a algumas curas que operou Jesus sem que lh’o pedissem, mas levado unicamente por um impulso de seu amorosíssimo Coração.

No segundo ano de sua vida pública, Jesus, da Judeia onde se achava, se encaminha para Jerusalém, para assistir a uma festa que aí se celebrava no mês de março. Nessa ocasião Ele opera um portentoso milagre em que resplandece juntamente com o seu poder uma bondade sem limites. Cumpre saber que havia em Jerusalém nesse tempo uma piscina ou pequeno lago formado pelas águas de uma fonte chamada Siloé. Denominavam-na piscina probática, palavra grega que significa pastoril, porque aí se lavavam as ovelhas que de manhã e á noite se deviam sacrificar no templo de Deus. Um fato prodigioso acontecia cada ano naquele pequeno lago. Em determinado tempo descia aí um anjo e agitava as águas e então o enfermo que por primeiro se atirasse dentro ficava perfeitamente curado. Ora, aí jazia há trinta e oito anos em um leito um pobre homem, vítima de uma obstinada paralisia. Jesus fôra visitar aquele lugar e conhecendo o infeliz estado desse paralítico aproxima-se e lhe diz: – Queres sarar? – O pobrezinho que outa coisa não desejava, achou inútil responder afirmativamente a essa pergunta e passou logo a lhe expor a dificuldade de sua cura dizendo: – Senhor, minha enfermidade torna-me tão imóvel e tolhido dos membros que me impede de usar o único remédio eficaz que seria lançar-me nessas águas. Faze-lo por mim mesmo não posso e não encontro uma alma caridosa que me queira conduzir e mergulhar no lago no momento propício. Quando se agitam as águas, eu, a custo vou-me arrastando até as margens, mais ei que outros se atiram por primeiro e me privam desse benefício. Por isso há já trinta e oito anos que me acho no mísero estado em que me vedes.

Esse homem que de há muito lá estava afastado do mundo, não conhecia a Jesus. Nem sequer ouvira falar dos milagres operados por Ele. Não conhecendo, pois, outro meio de se curar, senão o de se atirar na piscina, não insiste em pedir-lhe a cura, como certamente faria se o conhecesse.

O bom Jesus, porém, cheio de compaixão por aquele pobre doente, não se faz de rogado, mas escutando somente o que lhe sugeria o Coração, com voz de quem manda à natureza diz: – Levanta-te, toma teu leito e caminha. E no mesmo instante o paralítico sente nova vida em todos os membros; está são, e vigoroso. Toma o leito e parte alegremente (2).

Num sábado, dia de festa para os Hebreus, vindo Jesus à sinagoga de Cafarnaum, encontrou-se com uma senhora infeliz. Sofria há dezoito anos uma doença misteriosa; ficara tão abatida com o longo penar que seu corpo se encurvou de forma que nem sequer podia olhar para o alto. Apesar dos sofrimentos ela, quando podia, ia aos sábados ouvir a palavra divina na sinagoga e fazer públicas orações. Vê-la e sentir compaixão foi o mesmo para o bom Jesus. Por isso, sem que lh’o rogasse e antes mesmo que a doente pensasse, em faze-lo, Jesus chama-a, põe-lhe a mão na cabeça e lhe diz: – Estás livre de tua enfermidade. No mesmo instante pareceu-lhe que lhe tiraram dos ombros um grande peso. Ergueu-se e contemplou o céu com indizível alegria (3).

A mesma compaixão e bondade Jesus manifestou certa vez com um cego de nascimento, portanto, humanamente incurável. Jesus, apenas o viu, teve piedade e o quis logo consolar com seu divino poder. Que faz então? Amassa um pouco de terra com sua saliva e em seguida lh’a espalma nos olhos dizendo: Vai e lava-te nas águas de Siloé. O cego vai, lava-se e logo começa a enxergar perfeitamente (4).

A misericórdia e bondade que Jesus mostrara para com os enfermos nos dias de sua vida mortal, mostra ainda hoje na sua vida imortal e gloriosa. Com efeito, não têm número as curas até mesmo instantâneas e miraculosas que alcançaram seus devotos.

Sãos e doentes depositemos nele toda a nossa confiança e experimentaremos também nós os consoladores efeitos da devoção a seu amoroso Coração.

O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.

(1) Marc. 1, e Luc. IV.

(2) S. João V.

(3) Luc. XIII.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico