Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

O Coração de Jesus e os jovens ingratos

Quantos jovens ingratos correspondem a Jesus com a mais negra ingratidão! Jesus, mais do que um Pai afetuosíssimo, deu-lhes as maiores provas de entranhado amor.

Com paterna providência os fez nascer de pais cristãos; conservou-os em vida antes de receberem o batismo, impedindo que uma morte prematura os privasse para sempre do paraíso. E quem sobretudo pode admirar suficientemente o amor terníssimo de Jesus em não permitir que se perdessem, deixando-os naquele mísero estado? Jesus os adornou ainda com a cândida veste da inocência, tornando-os belos como anjos do céu.

Quando crescidos, nutriu-os com o leite de sua divina palavra, em seguida com mais amor que uma mãe os alimentou com suas carnes divinas no dia da primeira Comunhão. Tratando-os como filhos queridos, deu-lhes carinhosos amplexos, fê-los experimentar doçuras inexplicáveis, pronto a prodigalizar-se até o dia feliz em que no céu os saciará na torrente de todas as delícias.

Oh! quem poderia enumerar todas as demonstrações de amor que Jesus deu a esses filhos?

Mas infelizmente, no momento mais belo, no verdor dos anos, quando esse amorosíssimo Pai esperava ver correspondido seu ardente amor, quando desejava possuir esses corações juvenis, eles o abandonaram, fugiram da Igreja, abandonaram os sacramentos, uniram-se com seus inimigos para ofendê-lo e blasfemá-lo… Aborrecendo as suaves consolações da graça, entregaram-se aos desregrados apetites de paixões brutais. Por tantas ingratidões e por tão doloroso abandono, o Coração de Jesus não pode deixar de lamentar-se e exclamar: – “Pasmai, ó céus, e vós, portas eternas, ficai profundamente desoladas: eu nutri, acariciei e exaltei estes filhos e eles, como dolorosa recompensa, me desprezaram” (1).

Apesar disso, este Coração os ama ainda, chora-lhes a fuga e quando esses ingratos, depois de terem abusado de seus belos amos, depois de terem servido ao demônio e alimentado indignas paixões, depois de se terem maculado com todas as torpezas, sinceramente arrependidos voltam a Ele; o bom Jesus não só não os rejeita, mas os acolhe benigno, dá-lhes o ósculo da paz, reveste-os de sua graça, restitui-lhes os bens perdidos, e os recebe de novo em sua mesa para prelibarem as mais puras alegrias. Ele quer convencer-nos de que é grande, imensa sua bondade para conosco e afim de que não duvidássemos, contou Ele mesmo a tocante parábola do filho pródigo, na qual comparando o jovem transviado com um filo ingrato e comparando-se a si próprio com um pai ingratamente abandonado, nos descreve com divina eloquência, os anseios de seu amoroso Coração e suas solicitudes em chamar ao bom caminho o jovem ingrato, a alegria inefável, as suavíssimas lágrimas e seu grande jubilo em podê-lo abraçar arrependido, como que ressuscitado da morte para a vida.

Ouvi, ó jovens, a divina parábola. É o Coração de Jesus quem fala. Vêde como é todo bondade esse amabilíssimo Coração.

Um pai, assim narra Jesus, tinha dois filhos a quem amava ternamente, nada poupando para fazê-los felizes.

O mais moço, porém, movido por um desenfreado desejo de independência e de liberdade mal entendida, concebeu a resolução de subtrair-se à obediência e vigilância do pai. Certo dia, apresenta-se a ele, em tom arrogante assim lhe fala: Pai, dai-me a parte da herança que me pertence.

Esse pedido, arrogante e áspero, foi como um golpe de espada para o coração daquele pai amoroso. Não julgando ter dado ao filho motivo para tão estranho pedido, pede-lhe, suplica-lhe que desista de seu intento, mas… esforços inúteis! Vendo que não conseguia reduzi-lo a melhores sentimentos, deu-lhe seu quinhão, pedindo-lhe ao menos não se afastasse do lar paterno.

O ingrato jovem, porém, de posse de seus bens, volta as costas ao desditoso pai e unindo-se a falsos amigos, parte para longínquas plagas. Ali entregando-se aos vícios, esbanja logo toda a fortuna. Agora sem dinheiro, abandonado pelos companheiros de seus desvarios e com a carestia que se fazia sentir naquela região, está para morrer de miséria e de fome.

Não sabendo como ganhar a vida, foi constrangido a se empregar com um senhor cruel e avaro, que o manda pastorear animais imundos, negando-lhe até o necessário para saciar a fome. E o miserável falto de tudo, até do alimento, deseja alimentar-se das bolotas de carvalho que comiam os porcos, mas também isso lhe era vedado. Ao ver-se em tão deplorável estado, sentido que se leh consumimam as entranhas, entrou em si e exclamou: – Oh! em casa de meu pai quantos servos têm pão em abundância e eu, seu filho, morro de fome. Ah! levantar-me-ei, irei ter com meu pai e lhe pedirei perdão. – Disse e logo deixou aquele emprego indigno, e pôs-se a caminho para a casa paterna, desfigurando e esquálido. O pai, entretanto, aflito pelo afastamento do filho desnaturado, sempre à sua espera, vivia suspirando pelo momento feliz em que novamente o pudesse ver e abraçar. Eis que um dia divisa ao longe o filho que se aproxima. Comovido a essa vista, o coração começa a bater-lhe fortemente. Desce de seus aposentos e corre ao encontro do filho. Abraça-o com ternura, aperta-o ao coração e carinhosamente lhe imprime na fronte o ósculo do perdão.

O filho arrependido prostra-se a seus pés dizendo: – Pai, eu vos ofendi gravemente: não sou mais digno de que me chameis vosso filho, considerai-me apenas como vosso servo.

Mas o que, soerguendo-o, responde-lhe com novo amplexo, aperta-o amorosamente ao coração, deixando cair sobre ele copiosas lágrimas. Depois de dar largas a seus afetos, chama os servos e lhes diz: – Trazei-lhe logo a veste mais bela, colocai-lhe o anel no dedo e as sandálias nos pés; matai o melhor vitelo, chamai parentes e amigos, aparelhai a música e façamos grande festa, porque este meu dileto filho estava morto e ressuscitou, estava perdido e foi encontrado (2).

Até aqui o divino Mestre.

Julgo conveniente repetir que essa parábola não é minha nem de nenhum homem; foi ideada e narrada pelo próprio Jesus, para nos mostrar a benignidade com que acolhe os jovens transviados que arrependidos voltam a Ele. Depois de tão comovente narrativa, pode-se acaso duvidar apenas de que o Coração de Jesus seja todo bondade até para com os filhos ingratos? caríssimos jovens, não queirais nunca desgostar esse amorosíssimo Coração e se o abandonastes e ainda vos achais longe dEle, voltai logo, que Ele suspira por vós e com carinho vos aguarda.

O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.

(1) Jerem. 2.

(2) Luc. XV.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico