O divino Redentor, para melhor dar-nos a conhecer a bondade imensa de seu amabilíssimo Coração para com as almas ainda mesmo pecadoras, comparou-se um dia com um zeloso pastor.
“Eu sou o bom pastor, disse Ele; conheço minhas ovelhas, amo-as e as conduzo ao pasto, defendo-as contra os lobos vorazes, e por elas dou minha vida: Ego sum pastor bonus. E acrescenta: Dessas ovelhas, algumas não estão ainda no meu aprisco, outras dele se afastaram, e andam errantes por penhascos e precipícios; perderam o caminho e se acham em perigo de serem devoradas por lobos famintos. O meu Coração não pode vê-las em tão mísero estado. Quero reconduzi-las a meu dileto redil.” (1)
Para isso percorre cidades e vilas e a todos faz ouvir sua voz carinhosa; acolhe com bondade indizível os maiores pecadores, entretem-se com eles e afim de podê-los arrastar mais eficazmente ao bem e alimentá-los melhor com sua divina palavra, vai até a suas casas para comer e beber com eles. Diz sempre: Os sãos não necessitam de médico, mas sim os doentes; eu vim para procurar as ovelhas desgarradas que estão no caminho da perdição. (2)
Certa vez, os fariseus soberbos começaram a murmurar dEle, porque dispensava aos maus tanto carinho, mas Jesus fechou-lhes a boca com outra parábola:
“Um pastor levara para o pasto cem ovelhas. Ao reconduzi-las para o redil percebe que havia apenas noventa e nove. Ficou com isso sumamente aflito e não podendo resignar-se a perder uma ovelha deixa as noventa e nove no curral e percorrendo montes e vales não descansa enquanto não a encontra. Achando-a, seu coração se enche de alegria; não maltrata a pobre ovelha, antes, para poupar-lhe o cansaço do caminho, põe-na aos ombros e a reconduz ao aprisco. Chegando em casa chama os vizinhos e amigos e lhes diz:Com que dor havia perdido esta ovelha, mas alegrai-vos comigo porque novamente a encontrei”.
Concluindo Jesus diz àqueles que murmuravam: “Quem de vós tendo perdido uma ovelha não faria o mesmo? Se assim é, porque ousais censurar-me, por ir em busca de almas infelizes, que perderam o caminho do céu e correm incertas e receosas pelos tortuosos caminhos da perdição, na iminência de ser de um momento a outro devoradas pelo lobo infernal? Aprendei, pois, a apreciar as almas e a usar de misericórdia para com elas” (3).
Um dia o divino Pastor em companhia de seus apóstolos dirigia-se da Judéia para a Galiléia, passando pela região dos Samaritanos. Ele que nada fazia ao acaso, mas tinha em todas as suas ações um fim nobilíssimo, apressava os passos e parecia que desejava muito adiantar sua jornada, como se em determinada hora devesse ter um colóquio com alguém. Depois de andar a pé várias horas, chega pelo meio dia ás portas da cidade de Sichem e como se fôra esse o termo de sua fadigosa jornada, senta-se no parapeito de um poço.
Seus olhos pareciam brilhar de insólita alegria e um vivo raio de celestial bondade transpirava-lhe do rosto divino.
Em que pensa Jesus? Que medita Ele?
Ele pensa e medita na conversão de uma alma, vítima do pecado; ali está à espera de uma infeliz mulher, que, qual ovelha tresmalhada, anda errando longe de Deus, nas garras do inimigo infernal. Jesus sabe que dentro em pouco ela deve chegar aí para tirar água e como bom Pastor, a espera sequioso afim de reconduzi-la ao aprisco. Na sua inefável bondade, dispõe que os apóstolos aí não estejam naquele momento, afim de curar a ovelha ferida sem fazê-la corar e sem detrimento de seu bom nome. A pobre mulher chega, com efeito, aproxima-se do poço e ao desconhecido não lhe diz palavra. Mas se ela não pensa em Jesus, Jesus que bem a conhece, se interessa por ela. Enchera o jarro e já se dispunha a partir, quando Jesus, por primeiro, lhe dirige a palavra. Com muita paciência e com as mais afetuosas palavras, faz entrar em si aquela alma transviada, fá-la arrepender-se de seus pecados, numa palavra, converte-a, salva-a.
Com esse triunfo Jesus alegra-se tanto que esquecendo até suas fadigas, quando os discípulos o convidam a tomar algum alimento, recusa dizendo: “Meu alimento é muito melhor que o vosso. meu alimento é agradar a meu Pai, fazer sua vontade e salvar almas” (4).
Naquele instante, eis que toda a cidade, homens e mulheres, saem de casa e em massa se dirigem ao Mestre.
Ante esse espetáculo, exulta o Coração de Jesus e preferindo a fadiga ao repouso permanece dois dias entre aquele povo para instruí-lo, para reconduzi-lo do erro e do pecado à senda da verdade e da virtude, manifestando deste modo que era o verdadeiro Salvador, o bom Pastor das almas.
Ó Coração de Jesus, Pastor cheio de zelo e de amor, continuai a defender, socorrer e pastorear as ovelhas de Vosso redil, mas não Vos esqueçais daquelas que ainda não pertencem ao Vosso divino rebanho, ou que dele se afastaram. Idem em sua procura, chamai-os ao Vosso Coração, salvai essas pobres ovelhas.
O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.
(1) S. João X.
(2) Math. IX.
(3) Math. XVIII, e Luc. XV.
(4) S. João IV.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico