Se com tanta bondade e carinho, ia o Coração de Jesus em busca de ovelhas que nem sequer nEle pensavam, quem poderá avaliar o amor com que acolhia aquelas que iam ter com Ele arrependidas de suas culpas? Temos um exemplo no fato seguinte.
No tempo em que Jesus cumpria sua missão divina, viviam entre os Hebreus um irmão e duas irmãs, Lázaro, Marta e Maria Madalena. tendo perdido os pais dividiram os próprios bens. Lázaro e Marta receberam como herança uma residência em Betânia, perto de Jerusalém; a Maria coube um castelo que se chamava Magdalo, donde lhe veio o sobrenome de Madalena. Por contar ainda poucos anos, Maria continuou a morar com seu irmão e com a irmã maior que lhe faziam as vezes de pai e de mãe.
A incauta jovem, porém, não tardou em aborrecer a vida recolhida que levavam em Betânia. De natural vivo e alegre e de boa aparência, seu coração já começava a aspirar às vaidades e ilusões e já lhe parecia intolerável a convivência com pessoas de vida exemplar. Toma portanto a resolução de afastar-se dos irmãos e parte para o castelo de Magdalo, a sua herança. Aí, entregue a si mesma, na flor dos anos, Madalena bem depressa esqueceu as carinhosas exortações, os belos exemplos de virtude que recebera de seus extremosos pais, nos anos da meninice. Abandonando as práticas de piedade essa donzela não pensava senão em gozar os bens terrenos. o luxo, as conversações e os ornatos, eram o único objeto de suas preocupações e vãos pensamentos.
Esse seu modo de viver já escandalizava os habitantes da Galileia. Designavam-na geralmente com o nome de pecadora. O próprio Evangelho diz que havia nela sete demônios, isto é, que cometera muitas culpas. Quem terá compaixão dessa ovelha transviada?
O Coração de Jesus será seu Salvador, seu refúgio.
Pregava Jesus um dia na Galileia, quando essa senhora de Magdalo, levada pela grande fama do novo profeta, quis ouvi-lo. Para ela esse foi um pensamento verdadeiramente feliz. As palavras que brotavam de seus lábios divinos repassadas de tanta eficácia sobre a vaidade das honras e dos prazeres terrenos; o ouvir falar da grande bondade e misericórdia de Deus e principalmente este suavíssimo convite: – Vinde a mim todos, pecadores e pecadoras, e eu vos farei experimentar a paz suave que em vão buscais nas vaidades do mundo; enfim, essas e outras expressões semelhantes gravaram-se profundamente na alma dessa pecadora. Ela arrepende-se vivamente de seus pecados. E não podendo conter os afetos do coração, começa a derramar torrentes de lágrimas que lhe rolam dos olhos como de uma fonte perene. Parte logo para casa, depõe os ornamentos de luxo, desalinha os cabelos e tomando de um vaso de alabastro cheio de unguento, volta em procura de Jesus. Informada de que se achava em Naim em casa de um fariseu de nome Simão, em companhia de ilustres personagens, sem nenhum respeito humano para lá se encaminha.
Entra na sala do convívio, lança-se aos pés de Jesus e com a alma transida de dor, banha-Lhe os pés com afetuosos lágrimas e os enxuga com os próprios cabelos; em seguida os unge com precioso bálsamo e os beija com todo o amor.
Mas como? Jesus permite que essa pecadora use de tais modos para com Ele? E por que lhe não lança em rosto seus pecados e lhe não ordena que se afaste dEle? E não lhe priíbe tocá-lo… É que o Coração de Jesus é coração de pastor amoroso que ao ver voltar ao redil uma ovelha desgarrada, experimenta um prazer indizível. Madalena já o conhece.
Ao aspecto meigo do Mestre divino, às doces palavras que lhe brotaram dos lábios ela percebera que em seu Coração se aninhava uma bondade infinita e que, embora culpada, nada tinha que temer em tratá-lo desse modo. E realmente não se enganara, porque o bom Jesus não somente a acolhe com benignidade e lhe perdoa os pecados, mas naquele mesmo lugar, na presença de tão insignes pessoas, toma a defesa de Madalena contra o fariseu soberbo que murmurava dela; demonstra ser ela melhor do que ele, porque contrita e cheia de amor (1).
E não parou aí a bondade de Jesus para com a penitente Madalena. Continuou tratando-a como se nunca houvera pecado e dispensando-lhe todo o afeto como se tivesse sempre vivido inocente. Aceitou coma grado os serviços que lhe prestara, permitiu-lhe que o seguisse com outras piedosas mulheres, e que provesse às suas necessidades no Colégio Apostólico. Morto Lázaro, Jesus parte para Betânia afim de levar-lhe um consolo e ante as suas súplicas e lágrimas, opera o mais portentoso dos milagres, chamando à vida o irmão que há quatro dias jazia no sepulcro. nem sequer depois da ressurreição diminui sua caridade para com ela, pois lhe aparece de uma maneira toda singular, incumbindo-a de levar a preciosa nova aos apóstolos. Não acabaríamos tão depressa se quiséssemos enumerar as provas de benevolência que lhe deu o divino Mestre.
Ora tão grande amor para com uma alma outrora culpada de tantos pecados, não é talvez a prova mais evidente de que o Coração de Jesus é o mais compassivo dos corações? Ó Jesus, meu querido Pastor, conservai-me no aprisco seguro de Vosso Coração e se por desventura minha daí me afastar, reconduzi-me a Vós antes que me perca em algum abismo, antes que eu seja vítima de meus ferozes inimigos.
O Jardim dos Eleitos, P. João Bonetti, Salesiano, Traduzido do italiano, Edição de 1887.
(1) Luc. VII.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico
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