LIBERALISMO É PECADO
D. Félix Sardà y Salvany
29.QUE CONDUTA DEVE OBSERVAR O BOM CATÓLICO COM TAIS MINISTROS DE DEUS CONTAMINADOS DE
LIBERALISMO?
Está bem, dirá alguém ao chegar a este ponto; tudo isto é facílimo de compreender e basta haver medianamente folheado a história para tê-lo averiguado. Mas o delicado e espinhoso é expor qual deva ser a conduta que com tais ministros da Igreja extraviados deve observar o fiel secular, santamente zeloso da pureza da fé, assim como dos legítimos foros da Autoridade.
É indispensável estabelecer aqui várias distinções e classificações e responder particularmente a cada uma delas.
1º – Pode dar-se o caso de um ministro da Igreja publicamente condenado por ela como liberal. Neste caso bastará recordar que deixa de ser católico (enquanto a merecer tal considerações) todo fiel eclesiástico ou secular, a quem a Igreja separou do seu seio, enquanto por uma verdadeira retratação e formal arrependimento não for outra vez admitido à comunhão dos fiéis. Quando isto suceda com um ministro da Igreja, esse tal é lobo e não pastor, nem sequer ovelha. Convém evita-lo, e sobretudo rogar por ele.
2º – Pode dar-se o caso de um ministro da Igreja, caído na heresia, porém sem haver sido ainda oficialmente declarado culpável pela mesma Igreja. Neste caso é preciso andar com mais circunspecção. Um ministro da Igreja caído em erro contra a fé, não pode ser oficialmente desautorizado senão por quem tenha sobre ele a jurisdição hierárquica. Pode, não obstante, no terreno da polêmica meramente científica, ser combatido por seus erros convencido deles, deixando sempre a última palavra, isto é, a decisão da polêmica à autoridade, única infalível, do Mestre universal. A grande regra, estamos em dizer a única regra em tudo, é a prática constante da Igreja de Deus, segundo aquele, dito de um Santo Padre: Quod semper, quid ubique, quod abomnibus. Pois bem; assim se procedeu sempre na Igreja de Deus. Os particulares perceberam num eclesiástico doutrinas opostas às que comumente se ensinaram como as únicas sãs, deram a voz de alarme sobre elas, lançaram-se a combate-las no livro, no folheto, de viva voz, e pediram desta forma ao magistério infalível de Roma a palavra decisiva. São os latidos do cão que advertem o pastor. Não houve heresia no catolicismo que não começasse a ser confundida e desmascarada por esta forma.
3º- Pode dar-se o caso de que o infeliz extraviado seja um ministro da Igreja a quem devamos estar particularmente subordinados. É preciso então proceder com mais cautela e maior discrição. É preciso respeitar sempre nele a autoridade de Deus, até que a Igreja o declare deposto dela. Se o erro é duvidoso, é preciso chamar sobre ele a atenção dos seus superiores imediatos, para que lhe peçam sobre o caso explicações claras. Se o erro é evidente, nem por isso é lícito constituir-se em imediata rebeldia; é preciso contentar-se com a resistência passiva àquela autoridade no que evidentemente pareça em contradição com as doutrinas reconhecidas como sãs na Igreja. Deve-se-lhe porém guardar todo o respeito exterior, obedecer-lhe no que não pareça doutrina condenada ou danosa, resistir-lhe pacífica e respeitosamente no que se afaste da comum sentença católica.
4º – Pode dar-se o caso (e é o mais geral) de que o extravio de um ministro da Igreja não verse sobre pontos concretos de doutrina católica, mas apenas sobre certas apreciações de fatos ou de pessoas ligadas mais ou menos com ela. Neste caso aconselha a prudência cristã que se olhe de prevenção esse tal sacerdote afetado de Liberalismo, preferindo aos seus os conselhos de quem não tenha tais mesclas, e recordando a este respeito a máxima do Salvador: Um pouco de fermento faz fermentar toda a massa. Por conseguinte uma prudente desconfiança é neste caso a regra de maior segurança; e neste ponto, como em tudo, pedir muita luz a Deus, e conselho às pessoas dignas e íntegras, procedendo sempre com grande receio a respeito de quem não julga muito retamente ou não fale muito claro com referência aos erros da atualidade.
E eis o que ùnicamente podemos dizer sobre este ponto, cheio de infinitas dificuldades, e impossível de resolver em tese geral.
Não esqueçamos uma observação que derrama torrentes de luz. Mais se conhece o homem por suas afeições pessoais, do que por suas palavras e escritos. Sacerdote amigo de liberais, que mendiga seus favores e louvores e ordinariamente favorecido por eles, traz consigo regularmente muito suspeita recomendação de ortodoxia doutrinal.
Reparem nossos amigos neste fenômeno, e verão quão segura norma e quão atinado lhes dá.
O Liberalismo é Pecado – Pe. Félix Sardá y Salvany, 1949.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico