Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Oração diante da imagem de Maria Santíssima
Arthur Midy - (French 1887-1944) - La Prieuse à Saint-Fiacre

O pecado, e o modo de o evitar

Não basta, porém, só adornar o corpo, para receber o Santíssimo Sacramento, Jesus Cristo vivo, no interior do nosso coração; é preciso limpá-lo também de toda a mácula, de todo o pecado, de tudo quanto possa manchar ou deslustrar os adornos espirituais que os exercícios da vossa devoção vos fizeram adquirir.

É claro que Jesus Cristo da melhor vontade se conserva dentro em vós, e aí se ostenta como no templo da sua glória, se o vosso coração for puro, se odiardes o pecado com todas as vossas forças, e se amardes a Deus do íntimo do vosso peito, como a vosso Criador, e Redentor e vosso Pai Celeste que veio morrer afrontosamente, para vos dar a salvação.

Por isso deveis obter primeiramente a sua graça, não só com as orações que atrás ficam transcritas, mas também obedecendo-lhe, seguindo os seus mandamentos, e tratando de corrigir todos os vossos defeitos.

Bem vedes que, se alguém vos mandar fazer uma coisa que não seja da vossa vontade, só a fazeis contrariados, e que parece que alguém vos está dizendo ao ouvido: – Não faças isso; não faças isso. Ora quem pode ser, senão o demônio, o eterno inimigo das nossas almas?

E podereis vós resistir ao demônio, que é muito mais forte de que vós? Por certo que não. Como haveis, pois, de repeli-lo, obedecendo à pessoa que vos manda?

Só pedindo o auxílio de Deus, e esse auxílio que Deus vos presta, essa força que Ele vos dá para resistir ao inimigo da nossa salvação, é o que se chama a sua graça.

Por isso a graça pertence a Deus; só Ele a pode dar, e é necessário pedir-lh’a, para poderdes resistir às tentações e afastar para longe as maquinações do inimigo. Por esse motivo vos deixo já uma oração que se recita de manhã, ao meio dia e à noite, para pedir a Jesus Cristo o auxílio da sua divina graça.

Imploremos a Deus as graças que nos são necessárias:

Meu Deus, Vós conheceis a minha fraqueza. nada posso sem o socorro da Vossa graça. Não m’a recuseis, ó meu Deus! Proporcionais-m’a segundo as minhas precisões. Dai-me a força necessária para evitar todo o mal que me proibis, para praticar todo o bem que de mim esperais, e para sofrer pacientemente todos os trabalhos que for da Vossa vontade enviar-me.

É claro, pois, que, orando sempre, e conservando as graças adquiridas, dentro em pouco tereis a força suficiente para resistir à tentação do mal, e seguir o caminho do bem, e da virtude. Acompanha-vos sempre o anjo bom, e o anjo mau. O anjo mau fala-vos ao ouvido, e instiga-vos à tentação; e o anjo bom, mostra-vos o céu, e diz-vos que oreis e sofrais, para merecerdes a glória. Mas quem ora com devoção, sempre consegue afugentar a tentação do pecado.

O que é o pecado

E sabeis o que é o pecado? É a transgressão da lei divina, é toda a ação contrária à lei de Deus, é tudo quanto pode manchar e contaminar a alma. Por isso tudo quanto se faz voluntariamente contra os mandamentos da lei de Deus, é um pecado. E como Jesus Cristo ordenou que a Igreja também tivesse mandamentos, quando disse: Quem vos escuta, a mim escuta e quem vos despreza a mim despreza, por isso tudo quanto se faz voluntariamente contra os mandamentos da Santa Madre Igreja, é também um pecado.

De diferentes modos se podem cometer pecados: por pensamentos, desejos, palavras, ações, omissão e malvadez.

Se vós estiverdes orando, e se durante a oração vos preocupardes com quem sai ou entra na igreja, com a roupa que traz o vosso vizinho, ou com outra coisa semelhante, cometeis um pecado por pensamentos. Se, por exemplo, virdes um livro muito bonito nas mãos d’outra pessoa, e lh’o desejardes tirar, cometeis outro pecado por desejos. Se acusardes, por exemplo, uma pessoa d’uma ação que não praticou; se disserdes mal d’uma pessoa, sem que ela o mereça, cometeis um pecado, por palavras. Se, tendo desejado possuir um objeto que vos não pertencia, o roubásseis a final, cometeis um pecado por ação. Se, em vez de fazerdes a vossa obrigação, vos entretiverdes a ler romances, cometeis um pecado por omissão.

Se uma pessoa vos fizer alguma ofensa, e vos lhe derdes uma bofetada, por exemplo, cometeis um pecado muito menor, do que se fosseis esbofetear uma pessoa que nenhum mal vos tivesse feito, e maior pecado seria, se essa ação fosse feita contra uma pessoa que em vez de vos ter feito mal, vos tivesse feito bem. Nesse caso cometereis além d’uma ingratidão, um pecado por malvadez.

Espécies de pecados

Ha duas espécies de pecados: o pecado mortal, e o pecado venial.

Cometeis pecado mortal, quando desobedeceis a Deus em coisas mais consideráveis. Já sabeis, pela doutrina, quais são os pecados mortais. E chamam-se mortais, porque são tão graves, e é tamanha a sua malícia, que dão a morte à alma, privando-a da presença de Jesus, durante a eternidade.

Pecado venial é uma desobediência a Deus, menos grave; e a esses perdoa Deus mais facilmente, porque sendo Ele eminentemente justo, desculpa essas pequenas faltas à fragilidade da nossa carne.

Se, por exemplo, tirardes uma estampa a um vosso companheiro; se a rir disserdes que ele fez uma falta, cometeis um pecado venial. Mas, se desejardes a morte a um companheiro, por vos ter feito algum mal, se tiverdes ódio a alguém, se cometerdes pecados contra a pureza, cometeis um pecado mortal.

Ora já vedes, que quem comete um pecado mortal, tendo por conseguinte desobedecido ao bom Deus, em coisa grave, sabendo perfeitamente que lhe desobedecia, é um objeto de horror para o bom Deus.

O anjo bom avisa sempre, e esse aviso é o que se chama a voz da consciência, que vos brada: «Não cometais essa ação; não digais semelhantes palavras, porque Deus não quer.» Nunca vos recordais de terdes ouvido esta voz no íntimo do vosso coração? E que haveis vós respondido? «Antes quero contentar as minhas paixões do que obedecer a Deus.»

Logo vós preferistes o demônio que vos inspirava esses desejos, e vos aconselhava o mal a Jesus Cristo, ao Deus que vos criou e que morreu por vós, para vos salvar, e que vos aconselhava o bem.

E não julgueis que podeis encobrir o vosso pensamento, porque a Deus nada escapa; presencia tudo, vê tudo, sabe tudo.

E se vós morrêsseis nesse estado, tendo feito uma grave ofensa ao bom Deus, e ,sendo conhecedores disso? Julgaríeis que Deus vos admitiria no Céu, juntamente com os santos tão puros, tão submissos, tão piedosos? Por certo que não. Ora dizei-me: Deus seria justo, se acolhesse no seu etéreo seio, nesse lugar de ternas delícias o menino que o ofendeu, sabendo que o ofendia, em companhia daqueles que nunca lhe desobedeceram, que sempre repeliram as tentações do demônio, ou que sinceramente pediram perdão dos seus pecados? Não. Essa criança má e culpada, se não se arrepender, será castigada, e se morrer, sem ter confessado o seu pecado, (podendo-o ter feito), ou pelo menos sem ter um arrependimento bem sincero, por causa da bondade divina ultrajada, será condenada ao inferno por toda a eternidade.

O pecado venial não é motivo para condenação eterna, por ser de menos importância, mas também ofende a Deus, que nos ama ternamente, e que está pronto a perdoar os nossos pecados, desde que sinceramente nos arrependamos de os ter cometido.

O vosso pai, meus meninos, ficaria contente, se lhe constasse que, escarnecíeis dos vossos companheiros, que lhe mentíeis, ou que o enganáveis? Por certo que não ficava. E todavia bem vedes que o vosso Pai Celestial que tanto vos ama, não pode ficar contente convosco, faltando aos seus mandamentos, ainda que venialmente. E nesse caso não pode conceder a esse menino as mesmas graças que concede a outro que cumpre sempre respeitosamente a sua lei.

E isso ainda não é tudo. Quem começa por cometer pecados veniais, quase sempre acaba, cometendo pecados mortais. E, na ignorância do mundo pode acontecer que, julgando uma criança que apenas comete pecados veniais, cometa, sem o saber, verdadeiros pecados mortais, e seja réu das penas do inferno.

Mas ainda mesmo que só cometa pecados veniais, se morrer, sem ser absolvido desse pecado, irá essa criança depurar-se no fogo do purgatório, onde terão fim os sofrimentos, é verdade, mas que serão extremamente dolorosos.

Por isso tornai muito cuidado, meus meninos, sobretudo nesta ocasião em que se aproxima a vossa primeira comunhão; em não cometer esses pequenos pecados de vaidade, de mentira, de falta de modéstia, de irreverências para com a Igreja, e de palavras ofensivas, pecados que vulgarmente cometeis, e que desagradam a Deus.

E todavia é fácil habituarmo-nos a perder o sestro do pecado, tomando por castigo adotar a virtude contrária, e segui-la insistente e afincadamente. E quando o não podermos fazer, ir pedir perdão à pessoa que tivermos ofendido, e confessar a nossa falta a um sacerdote, com o coração contrito e humilhado, afim de obter dele a absolvição do nosso pecado.

Vou mostrar-vos alguns exemplos, para vos ensinar a corrigir os vossos maus costumes.

Um menino tinha por costume adormecer, e não estudar as suas lições, e por isso era sempre mau estudante. Aconselhado, porém, por um amigo de seu pai, impôs a si próprio o castigo de estudar mais que a lição marcada. No princípio, custou-lhe, porque estava afeito à sua calacice, mas por fim acostumou-se, e dentro em pouco era o melhor estudante da sua escola.

Havia outro menino que era muito mau. Batia em todas as crianças, apedrejava os cães e gatos, tirava os olhos às galinhas, etc. Um dia foi repreendido pelo professor, que soube fazer-lhe ver a injustiça do seu procedimento. Este menino caiu em si, e disse sinceramente convertido: «As más paixões nunca mais terão poder em mim. Invocarei o Senhor, e com a sua graça dominai-as-ei.» E assim o fez. O seu professor antipatizava com ele. Só pressentia que alguém se ria, mandava logo pô-lo de joelhos; e ele, sem protestar obedecia. Se desaparecia um Iivro, ele é que era o culpado, e era logo castigado. E ele submetia-se. E sempre oferecia a Deus estes sacrifícios da sua vontade. Mas em breve o professor notou a mudança extraordinária que se havia operado nesta criança, e mostrou-a por modelo a toda a aula. E os pais desse menino sentiram-se satisfeitos, porque Deus havia feito do filho a sua alegria e a sua edificação. Fez a sua primeira comunhão como um santo, e conservou-se sempre o que até aí havia sido, isto é, um homem cheio de força e de fervor.

Outro menino era excessivamente guloso. Um dia, tomando o fresco da tarde à varanda, que deitava sobre o quintal, tirou um figo duma figueira, que do quintal visinho caía sobre a sua varanda. Achou-o bom, e comeu mais. Dentro em pouco tinha quase os figos todos no estômago. Apenas se sentiu cheio, foi para dentro e deitou-se. Ora a dona da figueira vendo desaparecidos os figos que tanto estimava, ficou em extremo zangada, e acusou dessa falta a um seu afilhado, que por caridade com ela vivia. E apesar de todos os protestos do inocente rapaz, expulsou-o de sua casa. Isto foi notório, e todos censuravam a ingratidão do rapaz. O pai e a mãe desse pequeno glutão também diziam mal do pobre rapaz, que, se mais recursos, estava exposto a morrer de fome. Tocado pelo arrependimento o culpado acusou-se ao pai, declarando que havia sido ele quem comera os figos da vizinha. o pai indigna-se como era de crer, por ele ter sido o causador de dois males.

Ser o ladrão dum objeto que lhe não pertencia, e ser o causador do mal que fora feito a um inocente. Manda chamar a vizinha, conta-lhe o sucedido, e obriga o filho a pedir-lhe perdão. A vizinha perdoa, atenta à verdadeira contrição que reconhece no culpado, e manda chamar o afilhado injustamente castigado, a quem também o pequeno guloso pediu perdão.

O pai castigou o delinquente a comer um mês na cozinha com os criados, e não poder comer fruta; mas tanto se convenceu o pobre arrependido do mal que fizera, que não só se submeteu, sem murmurar, a esse castigo, mas ofereceu-se espontaneamente a não tocar num só fruto, durante um ano inteiro, ao que seu pai anuiu.

Aqui tendes, meus meninos, como se resgatam os erros cometidos.

Diziam os antigos que querer é poder. Desde que um menino dotado de razão, se convença de que ofendeu o bom Deus, tão bom, tão amável, e tão digno de ser amado, e queira obter a sua graça, além de se arrepender sinceramente do seu pecado, deve, por meio da virtude oposta, dedicar-se seriamente a nunca mais cometer o seu pecado predileto.

Um menino deve, pois, amar o seu Deus, a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, a sua pátria, e os seus pais, mestres, superiores e benfeitores, a quem em tudo deve também obedecer. Deve também amar o seu próximo, como a si próprio. Deve evitar juízos temerários, calúnias e contendas. Deve igualmente evitar o roubo, o orgulho e a vaidade. Em compensação deve possuir a humildade, a doçura, a modéstia, a dignidade e a pureza. Além disso deve ter coragem, nobreza de sentimentos e perseverança ·no trabalho e na virtude. Deve possuir um coração reto, amar a franqueza e a simplicidade, odiando tudo quanto seja mentira, duplicidade, lisonjas e complacências culpáveis. A temperança e a sobriedade são virtudes capitais contra a gula e a gulodice, que como se sabe são dois pecados mortais.

Aqui tendes, pois, o que seja o pecado, os males a que ele dá lugar, e a maneira de o evitardes.

Aprendei portanto a ser virtuoso, pois que isso é fácil, sobretudo se vós, por meio da oração e da meditação, conseguirdes obter a graça de Deus, para vos alumiar na senda da virtude.

Livro de Ouro dos Meninos e Meninas que se preparam para a Primeira Comunhão, por MGR. A. D. de Souza, 1897

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico