Reflexão e Conversão

Quarto Domingo depois da Páscoa – Pe. Júlio Maria, S.D.N.

Quarto Domingo depois da Páscoa (Jo. 16, 5-14)

Naquele tempo, disse jesus aos seus discípulos:

  1. Eu vou para Aquele que me enviou, e nenhum de vós me perguntais: para onde vais?
  2. E porque vos falei deste modo, a tristeza vos encheu o coração.
  3. Contudo, eu vos digo a verdade: é conveniente que eu vá; porque, se não for, não virá a vós o consolador; mas se eu for, vo-lo enviarei.
  4. E quando ele vier, arguirá o mundo do pecado, da justiça e do juízo.
  5. Do pecado, porque não creram em mim.
  6. Da justiça, porque vou para junto de meu Pai, e já não me vereis.
  7. Do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.
  8. Ainda tenho muitas coisas que dizer-vos; mas não o podeis suportar agora.
  9. Quando, porém, vier aquele Espírito da Verdade, há de ensinar-vos toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir,
  10. Ele me glorificará, porque tomará do que é meu, e vo-lo anunciará.

ESCRITURA E TRADIÇÃO

A Igreja tem o dever de ensinar-nos a verdade, como diz o salvador: Quando vier aquele espírito de Verdade (que Ele comunicou á sua Igreja, no dia de Pentecostes) há de ensinar-vos toda a verdade.

Esta verdade foi ensinada aos apóstolos, que a transmitiram à posteridade.

Ora, esta transmissão se faz de dois modos: pela Sagrada escritura e pela Tradição.

A Sagrada Escritura é a palavra de Deus escrita, porém, conforme o testemunho de são João, como tudo o que disse e fez Jesus não foi escrito, há uma parte desta verdade que foi pregada pelos Apóstolos, recolhida verbalmente pelos primeiros cristãos, e escrita, em seguida, pelos primeiros doutores da Igreja; esta parte oral chama-se Tradição.

Examinemos hoje esta dupla fonte de verdade:

  1. A SAGRADA ESCRITURA, ou a verdade escrita.
  2. A TRADIÇÃO APOSTÓLICA, ou verdade falada.

I. A SAGRADA ESCRITURA

A Bíblia é a palavra de Deus, escrita sob a inspiração divina, por homens que se chama autores sacros ou inspirados.

O mais antigo é Moisés; o mais recente é o Apóstolo São João.

São em número de setenta e dois os livros sacros. São completamente diferentes, quanto às datas, aos autores, ao gênero, à língua, à extensão, e até ao fim; embora se possam reduzir os diversos fins a dois principais; quarenta e cinco têm por fim preparar a missão de Jesus Cristo.

Foram escritos na antiga aliança de Deus com os homens, formando o que nós chamamos o Antigo Testamento.

Os outros vinte e sete livros têm por fim dar aos homens a doutrina de Jesus Cristo, formando em seu conjunto o Novo Testamento.

A autoridade de todos estes livros é igual, pois todos eles contêm a palavra de Deus.

A sua importância para nós é, entretanto, muito diferente.

Sendo cristãos, encontramos no evangelho ensinamentos muito mais práticos para nós, do que os do Gênese, do Êxodo, do Deuteronômio, ou qualquer outro livro do Antigo Testamento.

A Bíblia inteira é palavra de Deus; e a Igreja Católica a estuda integralmente, para dela tirar as verdades que deve ensinar.

Os protestantes adotam também a Bíblia, porém escolhem e adotam apenas os textos que lhes dão no gosto… O resto para eles não serve, nem tem valor, ou dão-lhe o sentido que eles querem.

II. A TRADIÇÃO

A palavra divina não está inteiramente na Bíblia; e, limitando-nos à expressão de Jesus Cristo, ela não se encontra inteira nos Evangelhos.

São João nos diz ao terminar o seu Evangelho: Muitas outras coisas há que fez Jesus: as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever. (Jo. 21, 25).

Eis-nos, pois, em frente de dois fatos certos:

O primeiro é que o Evangelho não contém todas as palavras de Jesus.

O segundo é que mesmo se tivéssemos no Evangelho todas as palavras de jesus, não teríamos por isso tudo o que ele nos quis ensinar, pois no mesmo Evangelho ouvimos o Salvador dizer a seus Apóstolos: Ainda tenho muitas coisas que dizer-vos; mas não o podeis suportar agora.

Logo, existe uma outra fonte de verdade, além do Evangelho, donde devemos receber os ensinamentos de Jesus, e os que o Espírito Santo revelou aos Apóstolos.

É a Tradição, ou simplesmente: a transmissão oral.

Para compreender bem o que é a Tradição, é o bastante lembrar-nos como fizeram os Apóstolos para transmitirem ao mundo a palavra de Deus da qual eram depositários.

Não começaram a escrever; poucos entre eles o fizeram, e isso muito tardio; falaram, pregaram.

Aqueles que ouviram a palavra de Deus, no ensino dos apóstolos e primeiros sucessores, transmitiram-na a outros; e é deste modo, de transmissão em transmissão, que chegou até nós, escrita particularmente pelos santos padres, na liturgia, nas decisões dos Papas e nos Concílios.

III. CONCLUSÃO

Eis como nós conhecemos perfeitamente certas verdades que estão apenas implicitamente contidas na Bíblia.

Sabemos, por exemplo, que o sábado judaico foi substituído pelo Domingo, e isso no tempo dos Apóstolos, em lembrança da ressurreição de Jesus Cristo e de Pentecostes.

Conhecemos a Imaculada Conceição de Maria Santíssima, a sua apresentação ao templo, a sua ressurreição e assunção, a sua mediação universal, etc.; umas tantas verdades implicitamente contidas no Evangelho, embora não claramente expressas.

É a Tradição que nos transmitiu estas verdades.

Quando a Igreja quer definir um dogma, ela verifica primeiro a sua presença na Sagrada Escritura e na Tradição; e só depois, assistida e preservada do erro, pelo Espírito Santo, ela inscreve esta verdade no catálogo das verdades que todo cristão deve crer, para poder salvar-se.

Comentário Dogmático, Padre Júlio Maria, S.D.N., 1958.

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