Santo Afonso Maria de Ligório – Doutor da Igreja, Bispo de Santa Águeda e Fundador da Congregação do SS. Redentor († 1787)
Marianella, colocada nos arrebaldes poéticos de Nápoles, chamava-se a vila da histórica família De Ligório. Foi lá que pela manhã de 27 de Setembro de 1696 nascia Afonso. Sobre seu berço já cintilavam os esplendores de uma nobre linhagem e do renome paterno.
D. José, o pai do santo, pertencia à nobreza, tendo nome e escudo de fidalgo. Era preposto do rei Carlos, VI, comandando os navios reais. Mas sobretudo era homem profundamente crente. Desposou a D. Anna Cavalieri, não menos religiosa nem menos nobre que ele. Era D. Anna irmã do bispo de Tróia e pertencia à nobre família dos Cavalieri.
Até a palavra profética de um santo – S. Francisco de Jerônimo – veio por em fulgores o berço de nosso santo. “Esta criança – disse Jerônimo, tomando o menino que lhe apresentavam os pais – esta criança, não morrerá antes de 90 anos/ será bispo e realizará maravilhas na Igreja de Deus”.
Do pai receberá Afonso uma vontade férrea, uma inteligência viva e perspicaz, enquanto a influência materna lhe punha no coração uma ternura irresistível. E cedo começou sua carreira de santo e de sábio. Mocinho ainda já frequentava as associações religiosas, fugia dos companheiros briguentos e amigos de palavras pesadas. Naturalmente não eram pequenas as esperanças que sobre ele nutria D. José de Ligório. Com efeito o destinou aos estudos das artes liberais, das ciências exatas, das disciplinas jurídicas.
Foram rápidos os progressos de Afonso na jurisprudência. Com 16 anos e poucos meses doutorou em ambos os direitos. Com espanto geral começou a colher louros e triunfos no foro. Imagine-se quantos planos e quantos castelos de grandeza fazia sobre o filho o envaidecido pai!
Mas no coração de Afonso já havia a graça divina aberto profundos sulcos e inspirado outras rotas de grandeza. Era ele fervoroso sócio da Congregação dos Jovens Fidalgos e Doutores. O sacrário o atraia como um imã. A Maria Santíssima entregara o santo a guarda do lírio de sua pureza. Todos os anos fazia os exercícios espirituais.
Entretanto D. José já andava à procura de uma noiva para o filho. Achou-a na pessoa de Thereza, uma sua sobrinha, filha do príncipe de Presiccio. Aconteceu porém que esta sobrinha, em lhe nascendo um irmãozinho, já não ia ficar a única herdeira dos bens paternos. E isso fez esfriar os entusiasmos de D. José. Thereza compreendeu o jogo e, ao ser novamente procurada pelo tio por ocasião da morte do recém-nascido irmãozinho, desiludiu-o e foi tomar o véu no convento das Sacramentinas.
Afonso por sua vez sempre se mostrara esquivo a tais projetos do pai. Além da piedade, da ciência, cultivava também a música. Ia às Óperas, mas fechava-se no galarim para nada ver e apenas ouvir a música dos célebres maestros.
A Providência tinha outras intenções com Afonso e ia intervir no desenrolar das coisas. Em 1723 o Duque de Orsini entregava a Afonso uma causa de suma importância. Tratava-se nada menos de um feudo no valor de 600.000 ducados. Meticulosamente nosso advogado estudou o processo, reviu os autos, conferiu documentos. Fez uma brilhantíssima defesa no foro. A vitória estava mas que chamou a atenção para uma pequena negação que lhe passara despercebida. “Enganei-me – exclamou o santo”. Coberto de vexame retirou-se do foro, exclamando: “Ó mundo falaz agora eu te conheço! Adeus tribunais!” Chegando em casa, fechou-se Afonso no quarto por muitos dias, entregue à meditação e à tristeza.
Estavam cortadas as amarras e o navio ia singrar por mares novos e menos procelosos. Nosso advogado começou com uma vida entregue às obras de caridade, à oração. Foi quando trabalhava no hospital dos Incuráveis que ouviu por duas vezes o chamado misterioso: “Afonso, deixa o mundo!” A 23 de Outubro de 1723 vestia o talar do clérigo. A 21 de Dezembro de 1723 foi ordenado sacerdote. Tudo isso porém lhe custou renhidas lutas com o pai, o qual não podia se conformar com a escolha feita pelo filho. Mais tarde era com pavor que Afonso recordava dessas horas de combate. Agora foi rápida a carreira de Afonso. Do altar foi para o púlpito, tornando-se popular como pregador e estimado como verdadeiro apóstolo. Procurava de preferência os pobres Lazzaroni e a menina abandonada pelas ruas de Nápoles. Muito se mortificava D. José em vendo o filho metido no meio do povinho, desprezível a seus olhos de fidalgo. Nosso santo não se esmorecia contudo. Passou a morar no Hospício dos Padres Chineses e pensou seriamente em ir para as missões pagãs.
Mas o homem se agita e Deus o conduz. Adoentado, foi Afonso enviado a Scala para repousar. Aconteceu que lá havia um convento de Irmãs e entre estas destacava-se por sua virtude a Irmã Maria Celeste Crostarosa. A 3 de Outubro de 1731 revelava-lhe a Irmã a visão que tivera: Afonso esta designado por Deus para fundar uma nova Congregação. Começou então o duelo entre Deus e a humildade do santo. A luta foi um verdadeiro martírio para Afonso. A santa irmã chegou mesmo a intimá-lo: “D. Afonso, Deus não o quer em Nápoles; chama-o para fundar um novo Instituto”.
Resolvido a isso, depois de haver orientado com Falcóia, seu confessor e mais tarde bispo, teve o santo de enfrentar tremenda oposição do pai. Este recriminava ao filho dureza de coração por querer abandoná-lo para meter-se na aventura de fundar um novo Instituto.
Mas a graça venceu, e a 9 de Novembro de 1732 fundava Afonso, em Scala, a Congregação dos Padres Redentoristas, que no começo tinha o nome de Instituto do SS. Salvador. Seus primeiros companheiros eram todos sacerdotes e logo começaram a dedicar-se à pregação. Não tardou a aparecer a desunião nas idéias. Queriam uns que o Instituto, além da pregação, se dedicasse também ao ensino. Afonso bateu-se pela exclusividade da pregação aos pobres, às regiões d gente abandonada, na forma de missões e retiros. Venceu seu ponto de vista. Em 1749 o Papa Bento XIV aprovava as Regras do Instituto, que tinha por fim a imitação de Jesus Cristo e a pregação de missões e retiros à classe mais abandonada, de preferência.
À frente de seus súditos percorre Afonso cidades e vias do sul da Itália, convertendo pecadores, reformando costumes, santificando as famílias. Era um facho ardente que deixava em chamas de amor divino os lugares por onde passava. Mais do que sua palavra pregavam os seus exemplos de virtude, de penitência, de caridade e de santa inocência. As cidades disputavam Afonso como pregador. Um dia soube Afonso que o queriam nomear arcebispo de Palermo. Pediu orações para que se evitasse “o grande escândalo” de sua nomeação. (Os redentoristas se obrigam a renunciar à toda dignidade eclesiástica). Mas em 1762 o Papa Clemente XIII impunha-lhe a mitra de Santa Águeda dos Godos. “Vontade do Papa é vontade de Deus”, disse o santo e curvou a fronte.
Durante 13 anos pastoreou sua diocese, reformou-lhe o clero, os costumes, as igrejas. Outra tornou-se avida religiosas nos mosteiros e conventos. E os diocesanos pasmaram, viram que tinham um santo por bispo, quando veio a fome assolar a diocese. Afonso vendeu até as alfaias, os móveis de seu pobre palácio, seu anel de bispo, para acudir aos necessitados.
Em 1775, a pedido seu, livrou-o do bispado o Papa Pio VI. O santo patriarca voltou pobre para seu convento e aí a mão de Deus o experimentou e lhe burilou lindas facetas de virtude. Afonso, acabrunhado por sofrimentos físicos, teve o desgosto de ver a cissão no seu Instituo e, por mal-entendidos, foi até excluído da Congregação que fundara. Com heróica paciência a tudo se sujeitou nosso santo. Velho e doente, animava a Clemente XIV para resistir aos que queriam suprimir a Companhia de Jesus. E numa prodigiosa bilocação foi assistir o referido Papa na hora de sua agonia.
Finalmente, após longo martírio no corpo e na alma, roído por dores e securas espirituais, morria calmamente no Senhor a 1 de Agosto de 1787, na idade de 91 anos. Em 1816 foi declarado beato, sendo canonizado em 1839 por Gregório XVI, honra que Pio VIII lhe quisera prestar já em 1830, não o podendo, por causa da revolução.
Afonso foi escritor incansável. Deixou para os sacerdotes a sua célebre Teologia Moral; para os religiosos, a Verdadeira Esposa de Cristo; para o povo cristão, livros cheios de verdadeira e ungida piedade, tais como as Meditações sobre a Paixão do Salvador, Glórias de Maria, Visitas ao SS. Sacramento, Tratado sobre a Oração. Foi historiador, foi apologeta, foi pregador, foi poeta e foi músico. De tudo deixou valiosas lembranças ao povo cristão. Chegam a 90 suas obras publicadas e a 1913 os manuscritos que deixou. Por isso deu-lhe a Igreja em 1871 o título de Doutor zelosíssimo. As obras de Afonso têm a perenidade das fontes e das árvores seculares. Foram traduzidas em mais de 64 línguas os livros “Visitas ao Santíssimo Sacramento” e “Glórias de Maria Santíssima”.
REFLEXÕES
Afonso fez o voto de não perder uma parcela de tempo. Só assim se explica o muito que trabalhou, que rezou e que escreveu. E tantos são os cristãos que perdem o tempo em pecados, em deveres mal cumpridos, em devoções praticadas só por motivos humanos!
Afonso santificou-se com a devoção à Santa Infância, à Paixão de Jesus Cristo, ao Santíssimo Sacramento, e à Mãe e Deus. É com empenho e carinho de santo que as recomenda a todos os fiéis. É o verdadeiro santo de Nossa Senhora e do Santíssimo Sacramento. – Não pense o leitor que em outras devoções, que não estas, encontrará a força e a graça para salvar sua alma e santificar-se.
Afonso foi sobretudo o homem da oração. Na sua frase, perde-se quem não reza e salva-se quem não cessa de rezar.
Cuide-se o leitor, portanto, de fazer pouco da oração ou de reduzi-la ao mínimo possível na sua vida. Do contrário corre sério risco de perder sua alma e sua glória.
Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume II, 1935.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico