Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Philippe de Champaigne, O Bom Pastor, 1883, foto domínio público

Segundo Domingo depois da Páscoa – Pe. Júlio Maria, S.D.N.

Segundo Domingo depois da Páscoa (Jo. 10, 11-16)

Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus:

  1. Eu sou o bom Pastor. O bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas.
  2. O mercenário, porém, e o que não é pastor, e a quem não pertencem as ovelhas, vê chegar o lobo e foge; e o lobo rouba e dispersa as ovelhas.
  3. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas.
  4. Mas eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas. e minhas ovelhas me conhecem.
  5. Assim como meu Pai; dou a vida pelas minhas ovelhas.
  6. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; é necessário que as conduza também; e escutarão a minha voz, e haverá um só aprisco e um só pastor.

A IGREJA

O Evangelho do Bom Pastor é o Evangelho da Igreja, da sua unidade, da sua união com Jesus Cristo.

O rebanho são os fiéis de todos os tempos.

O bom pastor é Jesus Cristo e o seu sucessor no governo da Igreja.

Este rebanho sendo uma sociedade divino-humana, deve ter, como aliás toda sociedade humana, tem:

  1. Uma CONSTITUIÇÃO;
  2. Um GOVERNO

I. CONSTITUIÇÃO DA IGREJA

A Igreja Católica, fundada por Jesus Cristo, é uma sociedade, ao mesmo tempo exterior, interior e viva.

É uma sociedade exterior, possuindo o que é essencial a toda sociedade: um chefe, com autoridade absoluta; membros, com dever de obedecer; leis, que orientam os membros e os chefes; finalidade ou ideal que pretende realizar e meios para alcançar o seu fim.

Faltando um destes requisitos, uma sociedade é necessariamente incompleta, truncada, deficiente.

É uma sociedade interior, possuindo elementos que unem as almas, isto é: a graça, produzindo a santidade, e os meios de comunicar esta graça, como são os sacramentos.

Sendo uma sociedade divino-humana, ela deve ser necessariamente interior, o que a distingue das sociedades puramente humanas.

Mas, além de interior, deve ser também exterior, pois, se a Igreja é divina em seu fundador, em seu fim e em seus meios, ela é humana na pessoa de seus componentes.

É uma sociedade viva, por isso possui um corpo e uma alma, como todo ser vivo.

Sem corpo, ela não seria deste mundo.

Se alma, ela não seria do céu.

E a Igreja verdadeira deve ser do céu e da terra, divina e humana.

O corpo é visível aos sentidos. Este corpo são os membros que são todos os fiéis; e a cabeça é o Cristo, representado na terra pelo Santo Padre, o Papa, Sucessor de São Pedro.

A alma é invisível, sendo ela que dá vida ao corpo.

A alma da Igreja é a graça santificante. Toda pessoa, vivendo na graça de Deus, mesmo se fosse exteriormente separada do corpo da Igreja, pertence à sua alma.

Os pecadores, embora separados da alma da Igreja, pela privação da graça, continuam a pertencer a seu corpo.

II. O GOVERNO DA IGREJA

A natureza deste corpo está em relação com a sua missão e o seu fim. A sua missão é conservar o depósito das verdades reveladas.

O seu fim é conduzir as almas do céu.

Para isso a Igreja deve:

a) Ensinar as verdades;
b) Administrar os sacramentos;
c) Provar a sua conservação.

Daí o tríplice poder que recebeu de Jesus Cristo: de ensinar, de administrar, governar.

Base deste governo. Esta base é o princípio da autoridade necessária a toda sociedade, para poder existir, e mais necessária ainda à Igreja, porque na parte doutrinal, há dogmas incompreensíveis à simples razão; e na parte moral, há práticas puras e austeras a observar.

Ora, sem uma autoridade que mande em nome de Deus, o orgulho se revoltaria contra estes dogmas e as paixões se revoltariam contra esta moral.

É, pois, mister uma autoridade que diga: crede e praticai: Isto está errado! Isto não é permitido. Non, licet!

Sem este princípio de autoridade absoluta, a inteligência não aceitaria a verdade, em toda a sua extensão.

O coração não amaria a verdade, com todo o seu heroísmo.

A vontade não faria o bem com toda a sua força.

III. CONCLUSÃO

De uma tal constituição e de um tal governo resulta o poder da Igreja.

A Igreja tem um poder divino… É o primeiro poder deste mundo.

Eis porque os protestantes orgulhosos, os algozes do povo, os déspotas não suportam o poder da Igreja Católica. Eles sentem que acima de si está este poder divino… e que no meio dos desvarios que praticarem, esta Igreja lhes bradará: Non licet.

A Igreja venceu o que nunca o homem, ou sociedade ou exército souberam vencer:

Venceu o tempo, o espaço e o próprio homem.

Venceu o tempo:

O tempo, que destrói tudo, fortalece a Igreja.

Para a Igreja não há tempo: ela atravessa o tempo, abençoando os berços e os túmulos. Ela é eterna.

O seu berço é Deus… o seu túmulo é ainda Deus!

Venceu o espaço:

Todas as instituições têm as suas fronteiras; a Igreja não as tem. Saiu de Belém, dum presépio, foi confirmada no Calvário, encheu-se do Espírito Santo, no Cenáculo, e daí invadiu o mundo, o espaço.

Venceu o homem:

Toma o selvagem, o pagão, o índio, o libertino, o gozador, e os prostra de joelhos, banhados em lágrimas, aos pés do crucificado.

Toma as sociedades, as nações, os poderes, os dominadores do mundo, as leis humanas, as civilizações falsas, as instituições humanas, e os faz inclinarem-se diante de seu chefe e de seu trono.

Venceu o homem: renovando-o, arrancando-o do vício, elevando-o acima da lama, e mostrando-lhe o céu.

Eis a Igreja de Jesus Cristo: a sua missão… a sua ação, a sua santidade, o seu poder divino; amemo-la, defendamo-la, como filhos amorosos e dedicados.

Nascidos em seus braços, saibamos morrer em seu seio.

Comentário Dogmático, Padre Júlio Maria, S.D.N., 1958.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico