A Igreja comemora hoje a festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dos Evangelistas, é São Mateus que refere mais por minúcias esse fato admirável da vida de Nosso Senhor. Os Santos Padres ocupam-se muito do mistério da Transfiguração de Nosso Senhor, principalmente S. Crisóstomo, que escreveu coisas admiráveis sobre o mesmo assunto. O que se segue, são pensamentos daquele Santo Padre, como os propôs aos ouvintes, explicando o Evangelho do dia de hoje.
Nosso Senhor, tendo falado muitas vezes da sua Paixão e Morte, profetizara aos Apóstolos perseguição e morte cruel; tendo-lhes dado mandamentos positivos e severos, quis mostrar-lhes a magnificência e glória com que voltará no fim do mundo, provar e revelar-lhes, já nesta vida, sua majestade, para animá-los e confortá-los, nas tristezas presentes e futuras.
S. Mateus escreve, contando o fato da Transfiguração: “Seis dias depois, Jesus tomou a Pedro, a Tiago e a João”. Um outro Evangelista diz: “Oito dias depois”. Não há contradição entre os dois, porque este conta o dia em Jesus discursou perante os Apóstolos e o dia em que subiu ao monte Tabor, quando S. Mateus conta apenas os dias que estão entre estes dois fatos. Reparamos também a modéstia de São Mateus, que menciona os Apóstolos que, mais do que ele, foram honrados por Nosso Senhor. Nesse ponto segue o exemplo de S. João, que minuciosamente refere os elogios com que jesus distinguiu a Pedro.
Jesus tomou os chefes dos Apóstolos e levou-os a um monte, a sós. E transfigurou-se diante deles. Resplandeceu=lhe o rosto como o sol e os vestidos tornaram-se-lhe brancos como a neve. Porque motivo Nosso Senhor levou só estes três Apóstolos? Porque ocupavam um lugar saliente entre os demais. Pedro salientava-se pelo amor a Jesus; João era o mais querido de Nosso Senhor e Tiago, por causa da resposta que juntamente com o irmão dera ao divino Mestre: “Nós beberemos o cálice”. E não só por causa desta resposta, como também em virtude das suas obras, que provaram a verdade daquela asserção. Era tão odiado pelos judeus, que Herodes, para ser-lhes agradável, o mandou matar. Porque razão disse Nosso Senhor aos Apóstolos: “Em verdade vos digo: alguns de vós aqui presentes não verão a morte, enquanto não tiverem visto o Filho do Homem em sua glória?” (Math. 16, 28). Com certeza para lhes estimular a curiosidade de ver aquela visão, da qual lhes falava e enchê-los do desejo de ver o Mestre rodeado de glória divina.
“E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com Ele”. Porque apareceram essas figuras do Antigo Testamento? Há diversos motivos que explicam esta circunstância. O primeiro é este: Porque o povo dizia que Jesus era Elias, Jeremias ou um dos profetas do Antigo Testamento, ficar-lhes-ia patente a grande diferença que existia, entre o servo e o Senhor, e que bem merecido fora o elogio que coube a S. Pedro, por ter chamado Filho de Deus a Nosso Senhor. Segundo motivo: Repetidas vezes inimigos de Nosso Senhor o acusavam de blasfêmia, da pretensão de dizer-se Filho de Deus. “Este homem, que não observa o sábado, não pode ser de Deus”. (Jo. 9, 16). E mais: “Não te apedrejamos por causa da blasfêmia e porque disseste que és Filho de Deus, quando não passas de simples homem”. (Jo. 10, 33). Estas acusações eram frequentes e como provinham da inveja, quis Nosso Senhor mostrar que não transgredira a lei e nenhuma blasfêmia proferira, dizendo-se Filho de Deus. Para este fim, Jesus fez aparecer dois profetas de maior destaque. De moisés era a lei, e não era admissível que justamente Moisés distinguisse com sua presença o transgressor da mesma, que era jesus Cristo, na opinião dos judeus. Elias, o grande zelador da honra de Deus, por seu turno nunca teria honrado com sua presença a jesus Cristo, se este de fato não fosse o Filho de Deus. Um terceiro motivo seria este: Aparece um profeta que morreu e um outro que não sofreu a morte. Esta circunstância devia fazer compreender aos discípulos que seu Mestre é o Senhor da vida e da morte e seu reino é no céu e na terra. Um quarto motivo o próprio Evangelista menciona: Para mostrar a glória da cruz e para animar os pobres apóstolos, na triste previsão de sofrimentos. Os dois profetas falaram da glória, que na cruz seria manifesta, em Jerusalém: (Luc. 9, 31), isto é, da sua Paixão e Morte.
Se Nosso Senhor levou consigo estes três Apóstolos, foi também porque deles havia de exigir uma virtude mais apurada que dos outros. “Quem quer seguir-me, tome sua cruz e siga-me”. Os dois profetas do Antigo Testamento era homens que, pela lei de Deus e pelo bem do povo, estavam sempre prontos a deixar a vida. Ambos, Elias e Moisés, usaram da máxima franqueza na presença de tiranos, este diante de Pharaó, aquele diante de Achab; ambos se empenharam em favor de homens rudes e ingratos, ambos foram quase vítimas da malícia daqueles, a que mais benefícios dispensaram, ambos trabalharam para exterminar a idolatria entre o povo. Tanto um como o outro era defeituosos: moisés era gago e Elias ignorante; ambos desprezavam a riqueza. Moisés e Elias eram pobres e viviam num tempo, em que os grandes servidores de Deus não possuíam o dom de fazer grandes milagres. É verdade que Moisés dividiu as águas do mar; Pedro, porém, andou sobre as ondas, expulsou maus espíritos, curou muitos doentes e transformou a face da terra. É verdade que Elias ressuscitou um morto; os Apóstolos, porém chamaram muitos mortos à vida, no tempo em que não tinham ainda recebido o Espírito Santo. Jesus Cristo faz aparecer estes dois Profetas, para apresenta-los aos discípulos, como modelos de firmeza e constância; como Moisés, devem ser manso e humildes; iguais a Elias, deviam ser zelosos e incansáveis; como ambos, prudentes e circunspectos. Elias passou fome durante três anos, por amor do povo. Moisés disse a Deus: “Perdoai-lhes os pecados e exonerai-me ou se assim não quiserdes, extingui meu nome do vosso livro”. (Mos. 32, 33). Tudo isso Jesus faz lembrar aos Apóstolos, mostrando-lhes, em misteriosa visão, a glória de Elias e Moisés.
Propondo-lhes Elias e Moisés como modelos, a imitação dos mesmos ainda não é o ideal, que Jesus Cristo quer ver nos Apóstolos. Quando estes disseram: “Senhor, se assim quiserdes, chamaremos fogo do céu, que destrua esta cidade”, sem dúvida assim falaram lembrando-se de Elias, que de tal forma procedeu. Jesus, porém, respondeu-lhes: “Não sabeis de que espírito sois”. (Luc. 9, 55). Queria assim ensinar-lhes, que é melhor sofrer uma injustiça, quando se perceberam graças maiores. Não quer isto dizer que Elias não fosse santo e perfeito. Elias vivera num outro tempo, em que a humanidade atrasada ainda na cultura, carecia de meios educativos mais fortes. Moisés era santo e perfeito. No entanto, aos Apóstolos disse Nosso Senhor: “Se vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus”. (Math. 5, 20). O campo de ação dos Apóstolos não devia ser o Egito, a terra de Moisés, mas o mundo inteiro; não era ao Pharaó que haviam de contradizer, mas aceitar a luta com o demônio, o tirano da maldade, vencê-lo e desarmá-lo.
E não o conseguiram dividindo as águas do mar. A tarefa era, armando-se do ramo de Jessé, dividir as águas furiosas do oceano da impiedade. Reparemos bem quantas coisas não amedrontaram os Apóstolos: a morte, privações e mil martírios não menos os intimidaram, que aos judeus o Mar Vermelho e as hostes de Pharaó; mas Jesus, seu Mestre, levou-os a tal grau de perfeição, que não hesitaram em aceitar tudo.
Para torna-los capazes de uma missão tão difícil, apresentou-lhes o dois grandes heróis do Antigo Testamento.
“Senhor, bom é estarmos aqui”, disse S. Pedro a Jesus. Ouvindo as referências à Paixão e Morte do querido Mestre, o coração encheu-se-lhe de temor; mas, desta vez, faltando-lhe a coragem de dizer: “longe de ti sejam essas coisas”, formulou os receios nas palavras já mencionadas. O monte onde se achavam, bem longe de Jerusalém, já era a seu ver uma garantia; fazendo ainda três tendas para lá morar, dispensava perfeitamente a viagem a Jerusalém e removia o perigo do Mestre cair nas mãos dos inimigos. “Bem é estarmos aqui”, com Elias, que chamou fogo sobre a montanha; com Moisés, que falou com Deus no cimo do monte – ninguém sabe que aqui estamos. Quem não descobre nessas palavras a profunda e sincera amizade de S. Pedro ao Mestre? Os Evangelistas, referindo-se às palavras de S. Pedro, dizem: não sabia o que falava, pois tão assustado se achava. (Marc. 9, 5 e Luc. 9, 33).
Falando ainda, eis que uma nuvem os envolveu. Não era noite, era dia claro. A luz, o esplendor assombravam-os e atônitos, caíram de rosto por terra. Qual foi a atitude de Cristo? Nem Ele, nem Elias, nem Moisés, disseram coisa alguma. Mas da nuvem saiu a voz d’Aquele que é eterno, d’Aquele que é a verdade. Porque da nuvem? Porque Deus sempre fala da nuvem. “Rodeado está de nuvens e trevas”. (Ps. 96,2). “O Filho do Homem vem entre as nuvens”. (Dan. 7, 13). Saindo a voz da nuvem, não lhes restava dúvida que era a voz de Deus.
E eis que uma voz do meio da nuvem disse: “Este é o meu Filho muito amado, em quem me agradei; ouvi-lo”. No monte Sinai era uma nuvem negra e escura que cobria o monte. No Sinai Deus publicou ameaças contra o povo. Aqui se via uma nuvem branca e lúcida. Pedro tinha falado em três tendas. Deus, porém, mostrou uma única tenda, não feita por mão do homem; daí a circunstância da aparição de uma luz claríssima e a audição de uma voz. Para não deixar dúvida sobre a pessoa em questão, Elias e Moisés desapareceram e a voz disse: “Este é meu Filho muito amado”. Se é Ele o amado, o medo de Pedro é infundado. Embora já devesse estar convencido da divindade do mestre, embora não tivesse dúvidas da sua futura ressurreição, a fé de Pedro ainda é vacilante. Ouvindo agora a voz confirmante do Eterno Pai, deviam desaparecer-lhe os temores, todas as dúvidas. Se Ele é Filho muito amado, o Pai não o abandonará. É seu amado, não só por ser seu Filho, mas também por Lhe ser igual. “Nele achei meu agrado”, quer dizer, pois: Ele é meu agrado, minha alegria, porque, como Filho, é igual ao pai, é regido pela mesma vontade, é um com Ele eternamente. Ouvi-o.
REFLEXÕES
Felizes os Apóstolos, que foram achados dignos de ver o Divino Mestre com tanta glória e magnificência. Se quisermos, poderemos também ver o mesmo Jesus, não como os Apóstolos no monte Tabor, mas numa glória incomparavelmente maior – naquele dia em que virá com toda a glória e majestade, rodeado dos Anjos e Santos do céu. Todos os homens hão de ver como Ele virá sobre as nuvens. Julgando a todos, dirá aos que se lhe acharem à direita: “Vinde, benditos de meu Pai, pois eu estava faminto e vós me destes de comer”. (Math. 25, 34). E a outros dirá: “Muito bem, servo fiel e bom; pois que foste fiel em pouco, confiar-te-ei maiores bens; entra no gozo do contentamento do teu Senhor!” (Math. 25, 23). A outros, porém dirá: “Afastai-vos de mim, malditos e ide para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e seus anjos”. E ainda: “Servo mau e preguiçoso!” (Math. 25). E serão entregues aos algozes e, atados as mãos e os pés, atirados às trevas exteriores. Os justos, porém, fulgirão como o sol., ou mais do que ele. Aquele dia será o horror para os maus. Não carece de documentos, de provas, de testemunhas: o eterno e justo Juiz supre tudo isso. Ele é acusador, testemunha e lançador da sentença. Tudo sabe, nada lhe é incógnito. Naquele dia não haverá ricos e pobres, fracos e poderosos, protegidos e protetores – persistirão somente os fatos em toda a nudez, em toda a realidade. Todas as máscaras hão de cair, e a verdade aparecerá em toda a clareza. Afastemos de nós as vestes imundas do pecado, armemo-nos com as armas da luz, pratiquemos o bem e a glória de Deus nos revestirá.
Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume II, 1935.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico