Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Gerard van Honthorst, Adoração dos Pastores, cerca de 1622, Museu do Estado da Pomerânia, Public Domain - Wikimedia Commons

Belém

E o Verbo encarnou, e habitou entre nós (Joan I, 14).

Para não errarmos na questão da escolha do estado que devemos abraçar, é necessário colocarmo-nos naquela santa indiferença que não deseja antecipar-se à vontade de Deus, e que está na resolução de a acatar, logo que ela seja manifesta.

Para a alcançar não há meio mais eficaz do que a consideração atenta do exemplo de Jesus. O seu parecer acerca das coisas deste mundo e a sua submissão absoluta à vontade do Pai celeste, devem ser o nosso norte no negócio decisivo da eleição.

Em Belém começa Jesus a ensinar-nos a sua doutrina, não com palavras, mas com obras.

E o Verbo fez-se carne, o Filho de Deus fez-se homem e habitou entre nós.

O Deus infinito revestiu-se da natureza humana, tornou-se semelhante a nós em tudo, assumindo todas as fraquezas e misérias do homem.

E não contente com isso, fez-se menino, pobre e sujeito ao sofrimento.

Escolheu para mãe uma mulher pobre, que, apesar de todo o seu amor e solicitude apenas encontrou uns pobres paninhos para envolver o Filho recém-nascido, e uma pouca de palha dura para o reclinar.

O tempo, o lugar e todas as outras circunstâncias da entrada de JEsus no mundo, só a tornaram mais acerba e dolorosa.

A insensibilidade dos homens, a rudeza da estação, o estábulo inóspito, o duro presépio, a solidão, a companhia de animais, tudo isto encerra dores, privações e humilhações, que só um amor sem limites pode escolher e sofrer.

Oh humilhação, enobrecida pela eleição que o Salvador dela fez!

Oh pobreza, enriquecida pelo sacrifício que um Deus fez de si mesmo!

Oh aflições convertidas em suavidade pela preferência que delas fez Jesus sobre todas as alegrias da terra.

Assim confundis, Senhor a minha falta de generosidade! bem quisera eu servir-Vos, mas sem sacrifícios e rodeado de honras, de prosperidade e de bem-estar! Quisera fazer a Vossa vontade, mas no meio das comodidades, honras e prazeres!

Donzela cristã, aproxima-te do presépio e contempla nele a Jesus.

Na tua frente tens obras, que não somente palavras.

São obras da sabedoria eterna, que não se pode enganar.

Obras do amor eterno que quer operar a tua salvação e curar a tua inclinação febril para o gozo dos sentidos.

Obras da santidade eterna, que dão ao Pai celeste a honra que Lhe roubou a tríplice idolatria do espírito, da carne e da matéria.

Assim procede Jesus e por meu amor. E eu, que fiz até agora, que farei por Ele para o futuro? Oh presépio, cátedra da verdade! Aqui reconheço que a minha única lei deve ser a vontade de Deus; reconheço que esta vontade santíssima quando me pede e ordena o sacrifício, procura a minha verdadeira felicidade, e reconheço que só no sacrifício se encontra a felicidade duradoura.

Senhor Jesus, ajudai-me a vencer o receio natural que sinto às dores, privações e humilhações, e disponde o meu coração para aceitar ainda as coisas mais repugnantes e difíceis à natureza, quando o serviço de Deus o pedir ou quando convier à consecução do meu último fim.

A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico