Vigésimo Terceiro Domingo depois de Pentecostes (Mat. 9, 18-26)
18. Naquele tempo, estando Jesus falando ao povo, eis que veio um príncipe da (sinagoga) aproximou-se d’Ele e o adorava, dizendo: Senhor, morreu agora minha filha: mas vem, põe a tua mão sobre ela e viverá.
19. E Jesus, levantando-se, o seguiu com seus discípulos.
20. E eis que uma mulher, que havia dize anos padecia um fluxo de sangue, se chegou por detrás d’Ele e tocou a fímbria do seu vestido.
21. Porque dizia dentro de si: Ainda que eu toque somente o seu vestido serei curada.
22. E voltando-se Jesus, e vendo-a, disse: Tem confiança, filha, a tua fé te sarou. E ficou sã a mulher desde aquela hora.
23. E tendo Jesus chegado à casa daquele príncipe (da sinagoga) e tendo visto os tocadores de flauta e uma multidão de gente que fazia muito barulho, disse:
24. Retirai-vos, porque a menina não está morta, mas dorme. E eles o escarneciam.
25. E tendo-se feito sair a gente, Ele entrou e tomou-a pela mão. E a menina levantou-se.
26. E divulgou-se a fama (deste milagre) por toda aquela terra.
A IMORTALIDADE DA ALMA
Escolhamos: tal vida, tal morte. Talis vita, mors ita.
Esta menina não está morta, mas dorme, diz Jesus da filha de Jairo.
Sobre três ressurreições que o Evangelho narra, há duas em que Nosso Senhor chama a morte: um sono.
O nosso amigo Lázaro dorme, dizia Ele, e percebendo que os Apóstolos tomaram a frase no sentido literal, Ele lhes diz abertamente: Lázaro está morto.
Jesus, chamando à morte um sono, quer fazer entender que a morte é transitória e que a vida volta aos mortos.
A vida volta, porque a alma é imortal.
Meditemos um instante a imortalidade da alma, mostrando que é exigida:
1. Pela SABEDORIA de Deus.
2. Pela VERACIDADE de Deus.
I. PELA SABEDORIA DE DEUS
A alma, pela sua natureza, é imperecível. De fato: que é a morte?
É a separação do corpo e da alma.
Ora, para poder separar-se é preciso serem dois, no mínimo.
A alma e o corpo podem separar-se, porque constituem dois elementos distintos, embora substancialmente unidos.
O próprio corpo pode ser dividido, separado em partes, porque é constituído de vários elementos, e tais elementos podem decompor-se.
Assim não acontece com a alma: ela é espiritual, simples, não podendo decompor-se em partes. Logo, para ela, não há morte, e não havendo morte, ela é imortal.
Por seu poder absoluto, Deus poderia aniquilar a alma, porém, por seu poder constituído, não o deve fazer.
A razão é que a sabedoria divina requer que o destino dos seres seja proporcionado à sua excelência.
Ora, sabemos quanto a alma, pela sua natureza, está acima do corpo. O corpo não perecendo, subsistindo sempre todos os seus elementos, mesmo depois da decomposição do total, sabedoria divina proíbe a destruição da alma. De outro lado, Deus quer que os seres sejam dirigidos conforme à sua natureza.
Tendo, pois, Deus feito a alma imortal, a sua sabedoria exige que se conserve esta imortalidade.
II. PELA VERACIDADE DE DEUS
Nossa alma é ainda imortal, porque Deus é verdadeiro.
Podemos distinguir em nós duas inclinações distintas, mas conexas: Nós sentimos a necessidade do infinito e temos o instinto deste infinito.
O homem aspira a uma felicidade perfeita, e a quer sem limites e sem fim, porque, sem isso, tal felicidade não seria perfeita e sentimos em nós um como instinto que alcançaremos tal destino sem fim.
Vemos o corpo desaparecer na podridão. A alma nos deixa sem nos dizer para onde segue; aparentemente a morte acaba com tudo, e, entretanto, no fundo da alma nós protestamos, nós reagimos contra estas aparências e, apesar de tudo e contra tudo, a humanidade proclama a imortalidade, de todos os modos.
O home diz instintivamente: dedico-te um amor eterno.
Ele cerca de respeito e veneração os restos mortais dos antepassados.
Nas horas de saudade, o homem fala com os seus desaparecidos, como se estivessem presentes.
Sentimos a necessidade de orar por eles e de implorá-los, além do túmulo.
Ora, este desejo do infinito, quem o pôs em nós, senão o Infinito vivo?
Este instinto que se encontra em todos os homens, quem o gravou em nossa alma, senão Deus?
Ora, Deus, que não ilude nem o instinto de um animal pequeno, por pequeno que seja, como poderia iludir o nosso?
Não, não: Deus é verdadeiro. Logo, somos imortais
CONCLUSÃO
Há um terceiro argumento em favor da imortalidade da alma: A justiça de Deus exige que o mal seja punido e o bem recompensado.
Ora, onde se fará tal distribuição da justiça?
A justiça perfeita não existe na terra; e muitas vezes a perfeita injustiça domina neste mundo.
É a objeção que se faz às vezes contra a Providência Divina.
Tal objeção seria fundada, se não existisse uma vida futura.
Havendo, porém, uma vida futura, tudo muda; a justiça, um instante violada, reaparecerá em todo o seu esplendor.
Não nos admiremos, quando na terra, vemos o bem oprimido pelo mal.
Devemos ver neste fenômeno uma prova da imortalidade da alma, e proclamar com mais fé e confiança o que diz o Credo católico:
Creio na vida eterna – creio na alma imortal – creio na justiça de Deus, não podendo acreditar na justiça dos homens.
Comentário Dogmático, Padre Júlio Maria, S.D.N., 1958.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico