Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
A church interior with women at the confessional, by Ludwig Passini - 1863

A Confissão

1. Os frutos da confissão

A oração, quer vocal, quer mental, deriva toda sua eficácia das disposições e da aplicação do que ora. No seu imenso amor para conosco, Deus pôs ao nosso alcance outros meios fáceis e poderosos: os sacramentos, que, por si, têm uma eficácia própria. Sobre a alma que se preparou para recebê-los com atos de fé e de amor, atraem uma graça muito mais abundante do que a que conseguiria fazendo os mesmos atos com a mesma perfeição, fora do sacramento. Entretanto, se os sacramentos têm, em si mesmos, uma virtude toda divina e produzem grande cópia de graças, esta virtude varia conforme as disposições dos fiéis que os recebem. Quanto mais perfeitas, tanto mais abundante a graça, e as diferenças, entre umas e outras pessoas que recebem o mesmo sacramento, são muito maiores do que geralmente se supõe.

O sacramento de penitência é um dos meios mais poderosos de santificação de que nos devemos aproveitar. É rigorosamente necessário para os pecados mortais tão somente; e, nos primeiros séculos da Igreja, os cristãos não recorriam a este sacramento senão quando se julgavam culpados de faltas graves. Mais tarde e de­vemos considerar esta mudança como um benefício inapreciável do Senhor, os monges primeiro as almas cristãs, em geral, depois, recorreram ao sacramento de penitência para alcançar o perdão de suas faltas veniais e confessaram-se frequentemente.

Imensas são as vantagens da confissão. O sacramento de penitência é chamado, pelo Concílio de Trento, “remedium vitae” remédio de vida. Se os pecados veniais não dão a morte à alma, enfraquecem-na: são como uma doença da alma contra a qual é oportuno ter um remédio eficaz. Estes pecados são de três espécies: os pecados veniais plenamente deliberados, os semi deliberados e os de pura fragilidade. Os primeiros, cometidos deliberadamente, após madura reflexão, tornam a alma mais culpada, e expõem-na a cometê-los de novo. Os segundos são os que se cometem com menos reflexão, com certa surpresa, com alguma sedução, mas aos quais a vontade não deixa de aderir com certa complacência. Cumpre classificar, nesta categoria, as faltas rápidas, cometidas sem deliberação, mas que se repetem a miúdo e contra as quais a alma não se acautela com sérios esforços, e também os desfalecimentos que se verificam em combates em que a alma se empenha com demasiada moleza, sem se decidir a ganhar uma vitória completa. Enfim, os pecados de pura fragilidade são os que escapam à fraqueza humana. É evidente que a vontade tem neles alguma parte, embora pequena; porque, do contrário, seriam imperfeições e não pecados. Ela fraqueja, pois, por um breve instante e logo renega sua fraqueza e renova suas boas resoluções. As culpas desta natureza pouco danificam a nossa beleza espiritual porque são prontamente reparadas; entretanto, sendo submetidas à santa influência do sacramento da penitência, a pureza da alma toma-se mais completa, mais brilhante.

Os dois primeiros gêneros de pecados são verdadeiras doenças que debilitam a alma cristã e, mormente os plenamente deliberados, constituem um obstáculo ao seu progresso na piedade. “Não deixes o pecado envelhecer em ti” dizia o Senhor a Santa Gertrudes; o pecado que não é logo renegado, é semelhante ao veneno que se não vomita e age lentamente sobre o organismo.

Para estes males da alma a confissão bem feita é um remédio eficaz; tanto pelas virtudes que faz praticar, como pela graça do sacramento que se acrescenta aos merecimentos do penitente, multiplica a eficácia de seus atos de virtude e livra-o do veneno do pecado.

As virtudes praticadas em confissão são, sobretudo, a humildade e a contrição. Qual o ato de humildade mais sincero do que a declaração das faltas cometidas? Qual o melhor antídoto para o orgulho, principio de todo o pecado? Por isso, a heresia e o cisma, frutos lídimos do orgulho, ou suprimem a confissão como os protestantes, ou reduzem-na, às mais das vezes, a declarações insignificantes como os cismáticos orientais. Pela confissão, as faltas de orgulho têm já um começo de reparação, e quem se humilhou profunda e amorosamente, torna-se mais humilde e precave-se contra as recaídas.

A contrição é a retratação do pecado, a mudança da alma que renega o mal que procurara e volta para o bem a que renunciara. Por ela o culpado volta-se para Deus se, por uma falta mortal, d’Ele se houvesse desviado. Se, observando para com Deus os deveres essenciais de submissão, d’Ele se houvesse somente afastado por faltas veniais, pela, contrição aproxima-se d’Ele e atira-se amorosamente nos Seus braços. Deste modo o mal é rejeitado e a ferida aberta na alma pelo pecado aí encontra a sua cura.

Mas o sangue de Jesus misticamente derramado sobre a alma que recebe a absolvição, assemelha-se a um bálsamo, salutar que, juntando sua força à das virtudes praticadas na confissão, favorece consideravelmente a cura da alma e ajuda-a a recuperar as forças que havia perdido. “Pela confissão, diz são Francisco de Sales, não só recebeis a absolvição dos pecados veniais, mas também uma grande força para evitá-los no futuro, uma luz viva para claramente discerni-los e uma graça abundante para reparar todas as perdas que eles vos haviam causado”. (1)

Os efeitos da confissão são sempre proporcionais ao valor das disposições com que se recebe o sacramento. Entre cem pessoas que se confessam, cada uma recebe uma medida de graças que difere da das demais noventa e nove; porque, entre os atos de cada uma delas, o olhar de Deus percebe diferenças que, cá na terra, ninguém sequer suspeita. Inumeráveis são os graus que pode ter a humildade em profundeza e a contrição em intensidade; e, por outro lado, o amor que acompanha estas virtudes, dá-lhes um valor proporcionado à sua própria pureza, firmeza e força e com a influência que o dito amor exerce sobre estas mesmas virtudes. É preciso aplicar estes mesmos princípios à satisfação sacramental, cujo valor também se mede pelo fervor, pela generosidade com que se cumpre.

Para conseguir estas disposições perfeitas que asseguram tanto fruto ao sacramento da penitência, faz-se mister cuidadosa preparação. Muito louvável é o proceder dos que costumam recomendar o êxito de sua confissão aos seus celestes protetores, a seu anjo custódio e a Maria Santíssima. Mas é do Coração amantfssimo de Jesus, principalmente, que se devem implorar as santas disposições, os sentimentos de humildade e de amorosa contrição que podem tomar o sacramento da penitência admiravelmente eficaz.

2. Preparação para a confissão

Para preparar-se dignamente à confissão requerem-se duas coisas: procurar suas faltas e excitar-se à contrição.

Mais adiante, trataremos do exame de consciência de cada dia. O que precede a confissão, obedece às mesmas regras; exige tanto mais cuidado quanto mais numerosas forem as faltas em que o penitente cair. Quem tem uma lista de seus pecados habituais e marca diariamente suas infrações, nenhuma dificuldade terá para se conhecer, e, nisso, achará nova coragem para a luta, novo motivo para sérios esforços em prol da sua reforma. “Quanto às almas espirituais, diz Santo Affonso, que se confessam com frequência e cuidam em se preservar dos pecados veniais deliberados, o exame não reclama muito tempo.” (2) Santa Margarida Maria preparava um dia com muita ansiedade sua confissão anual; tranquilizou-a o divino Mestre: “Porque te apoquentas? Faze o que podes, suprirei ao que faltar. Nada peço tanto, neste sacramento, como um coração contrito e humilhado que, sinceramente resolvido a não mais me desagradar, se acusa sem disfarce; perdôo sem tardança e daí resulta uma perfeita emenda” (3)

Às faltas cometidas desde a última confissão, convém acrescentar a acusação de alguma falta da vida passada; e, se tivermos dúvida sobre aquela, mais necessária ainda se torna esta medida. Além de ser uma prática de humildade salutaríssima, a lembrança destas faltas mais graves aumenta a contrição e, assim, incrementa a graça sacramental, sempre proporcional à contrição que se experimentar. Além disso a aplicação dos merecimentos de Jesus Cristo aos pecados já perdoados, diminui a pena temporal que, quase sempre, fica devida depois da absolvição. Tal acusação, de ordinário, se faz em termos gerais, por exemplo: “Acuso-me de todas as faltas que, na minha vida passada, cometi contra tal virtude.” É conveniente variar esta acusação geral, não só para fugir da rotina como também, para aplicar sucessivamente às diversas espé­cies de pecados cometidos no passado o benefício da absolvição.

Para excitar em seu coração sentimentos vívidos de contrição, é utilíssimo recorrer à lembrança dos novíssimos. Cada falta cometida constitui uma dívida para com a divina justiça; e, antes de entrar no céu, teremos de pagar, diz Jesus, tudo até o último ceitil. Mas o pensamento da bondade de Deus, de Seus imensos benefícios, dos padecimentos de Jesus é ainda mais salutar e gera uma contrição cheia de amor, cujos efeitos são muito mais preciosos.

A confissão propriamente dita, deve ser feita com grande espírito de fé. O confessor representa Jesus; o penitente deve lembrar-se disto e mostrar-se humilde, respeitoso, dócil.

Acabada a confissão, uma ação de graças breve, mas fervorosa, deve manifestar a gratidão do penitente pelo grande beneficio que acaba de receber de Deus. O sangue de Jesus lavou sua alma, purificou-a, adornou-a, enriqueceu-a. Que negra ingratidão não apreciar tal favor e não dar por Ele graças ao Senhor!

Claro está que, feita nestas disposições, a confissão é um poderoso meio de santificação. Saindo do santo tribunal mais pura, a alma conseguirá graças mais abun­dantes; pois Deus, a quem tanto desagradam as manchas do pecado, reserva as graças mais preciosas às almas puras. Além disso estará mais ao abrigo de novas quedas, conforme a palavra do Senhor a Santa Verônica Juliani: “Farás pro­gressos na perfeição em proporção com os frutos que tirares deste sacramento.” (4)

Por todas estas razões, os Santos todos têm demonstrado a maior estima pela confissão. São Luiz, bispo de Tolosa, São Pedro Claver, Santa Flora, São Leonardo de Porto Maurício, o venerável Antônio Bermejo, etc., confessavam-se cada dia. Cumpre receber amiudadas vezes o sacramento da penitência; contudo, como o número de confessores é diminuto, comparado com a multidão dos fiéis, é preciso regrar a frequência das confissões de acordo com os avisos do confessor.

Manual de Espiritualidade, cap. XXV, por A. Saudreau, Cônego honorário de Angers. Primeiro Capelão da Casa Madre do Bom Pastor, 1937.

(1) Vida devota.II, 19.
(2) Vol. XI, cap. 18, § 1.
(3) Autobiographia, Ed. Monsor Gruthey, p. 77.
(4) Cf. Divinas palavras, XXIV, 1.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico