A HUMILDADE
Ó Jesus, que tanto Vos humilhastes por nós, ensinai-me a praticar a verdadeira humildade.
1 – A caridade é a essência da perfeição cristã, porque só a caridade tem o poder de unir o homem a Deus, seu último fim. Mas da nossa parte – pobres, miseráveis criaturas que Deus quer elevar até à união com Ele – a caridade será verdadeiramente o último fundamento da vida espiritual? Não, existe qualquer coisa de mais profundo ainda, que é, por assim dizer, o fundamento da caridade: a humildade. A humildade está para a caridade como os alicerces para o edifício. Cavar os alicerces de uma casa não é ainda construir a casa, e, no entanto, é um trabalho preliminar, indispensável: a condição sine qua non. Quanto mais profundos e bem traçados forem os alicerces, tanto mais o edifício poderá subir em altura e mais garantias dará de solidez. Só um tolo “edifica a sua casa sobre areia” com a inevitável consequência de a ver bem depressa ruir; o homem sábio constrói “a casa sobre rocha” (Mt. 7, 24-26) e então, apesar das ameaças das águas e dos ventos, a casa não cai, porque os seus alicerces estão solidamente construídos.
A humildade é a rocha sólida e firme sobre a qual toda a alma cristã deve levantar o edifício da sua vida espiritual: “Se querei que o vosso edifício se eleve sobre um bom alicerce – ensina Sta Teresa de Jesus às suas filhas – procurai ser as últimas em tudo [ou seja, exercitai-vos muito na humildade] e vireis assim a pôr pedras tão fortes que impedirão que o vosso Castelo desabe” (cfr. M. VII, 4, 8).
A humildade cava os alicerces da caridade, isto é, esvazia a alma do orgulho, da soberba, do amor desordenado de si mesma e da própria excelência, para dar lugar ao amor de Deus e do próximo. Quanto mais a humildade desembaraça a alma das vãs e orgulhosas pretensões do eu, tanto mais lugar dá a Deus. “E quando [o homem espiritual] ficará feita a união espiritual entre a alma e Deus” (J.C. S. II, 7, 11).
2 – A alma que deseja chegar às sublimes alturas da união com Deus, deve procurar o caminho duma profunda humildade, pois, como ensina o divino Mestre, só “quem se humilha será exaltado” (Lc. 18, 14).
Quanto mais alto é o ideal de santidade a que aspiras, quanto mais elevada é a meta para a qual te diriges, tanto mais deves descer, ou melhor, escavar em ti mesmo o fértil abismo da humildade. “Abyssus abyssus invocat” (Sal. 41, 8); o abismo da humildade chama o abismo da misericórdia infinita, das graças e dons divinos; com efeito, “Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes” (I Ped. 5, 5). Humilha-te, portanto, sob a poderosa mão de Deus, reconhece sinceramente o teu nada, toma consciência da tua miséria e, se queres gloriar-te, gloria-te somente – como S. Paulo – das tuas enfermidades, pois só na tua fraqueza, humildemente reconhecida, opera e triunfa a graça e a virtude divina (cfr. II Cor. 12, 9). Se pertences ao número daquelas almas boas, sinceramente desejosas de progredir no caminho da perfeição, mas que confiam demasiado nas suas próprias forças e iniciativas pessoais, podes aplicar a ti com muito proveito, o precioso aviso que Sta Teresa do Menino Jesus dava a uma noviça: “Segundo vejo, vai errada no caminho, e nunca poderá chegar ao termo da viagem pois quer subir ao cimo de um monte e Deus quer vê-la descer… O próprio Jesus Se encarregará de encher a sua alma consoante a vá esvaziando das suas imperfeições (CL.).
O ideal sublime da união com Deus ultrapassa totalmente a nossa capacidade de criaturas fracas. Se podemos aspirar a ele, não é porque contemos lá chegar com os nossos esforços e iniciativas, mas porque confiamos em que o próprio Deus, segundo a Sua promessa, virá buscar-nos pela mão. Mas Deus não toma pela mão a alma soberba; inclina-Se apenas para os humildes, e quanto mais humilde encontra uma alma, tanto mais a eleva para Si. A humildade cava na alma a capacidade para receber a abundância dos dons divinos.
Colóquio – “Ó meu Deus, Vós fizestes-me compreender até que ponto devo descer para que o meu coração, pobre de forças e rico de miséria, Vos possa servir de morada: devo fazer-me pobre a ponto de não ter onde repousar a cabeça. O meu coração não está inteiramente vazio de mim mesma e por isso me ordenais que desça. Sim, quero descer muito fundo, para que Vós possais reclinar no meu coração a Vossa cabeça divina e para que Vos sintais amado e compreendido! Ó doce Hóspede divino, Vós conheceis a minha miséria e por isso vindes a mim com a intenção de encontrar uma tenda vazia, um coração inteiramente vazio de si. Não me pedis outra coisa” (cfr. T.M.J. Cart. 116 e 144).
Ó Senhor, ajudai-me a escavar na minha pobre alma esse abismo de humildade que atrai o abismo da Vossa misericórdia infinita. Ajudai-me a descer enquanto o meu orgulho gosta de subir. Ajudai-me a reconhecer, a confessar humildemente o meu nada e a minha fraqueza, enquanto o meu orgulho tanto gosta de me fazer passar por melhor do que sou. Ajudai-me a gloriar-me das minhas enfermidades, enquanto o meu orgulho tende continuamente a gloriar-se daquilo que não é meu, mas puro dom Vosso. Meu Deus, como é verdade que a graça percorre um caminho oposto ao da natureza! Dai-me forças para empreender com coragem este caminho, para ir contra a corrente lamacenta e traiçoeira do meu orgulho. Como poderei fazê-lo se Vós não me ajudardes? Mas eu confio em Vós, ó Senhor, pois sei que estais sempre pronto a socorrer o fraco que a Vós recorre e em Vós confia; que se a minha soberba é grande, a Vossa misericórdia é infinita e a Vossa onipotência invencível; que, se “alguém está sem vigor e necessita de amparo, com falta de forças e abundância de miséria, não só pondes os Vossos olhos sobre ele, mas o levantais da sua abjeção e miséria e exaltais a sua cabeça” (cfr. Ecli. 11, 12 e 13).
Ó Senhor, quem estará mais “cheio de miséria” do que eu, que ainda não venci o meu orgulho? E então, quem precisará mais do que eu do Vosso socorro?
Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico