Parece que ao Espírito Santo apraz fazer nascer, de quando em quando, apóstolos do têmpera de São João Evangelista, isto é, discipulos particularmente amáveis e bem amados. Quem não reconhecerá em um destes São Francisco de Sales? Uma vez que o Evangelho nomeia a mãe dos filhos de Zebedeu, seja-nos permitido honrar também a mãe de São Francisco de Sales. Durante três séculos, o santo bispo de Genebra não cessa de edificar a Igreja e o mundo católico, por tudo o que fez, pelas suas virtudes, por seus escritos, por sua vida inteira. Ele abre a milhares de almas o caminho do céu; esclarece-as, dirige-as, consola-as e mostra-lhes a piedade sob os aspectos mais atraentes. Quantas vezes, ao lermos a sua história, temos dito com a mulher do Evangelho: “Feliz mãe que deu à luz um tal filho! Feliz o seio que o alimentou!”
Ainda mesmo que a biografia nos fornecesse poucas informações sobre os pais de São Francisco de Sales, bastaria, para lhes avaliarmos o mérito, a excelente educação que eles deram a seus filhos. Graças à ordem inteligente que reinava nesta família abençoada, todas as aptidões e virtudes nela se desenvolveram com admirável perfeição. Mas é principalmente à mãe de nosso santo que se devem atribuir as qualidades brandas e generosas que distinguiram eminentemente a sua nobre posteridade. Segundo as indicações que os contemporâneos nos deixaram, podemos afirmar que esta bem-aventurada mãe reproduzia em si todos os traços com que os livros sagrados nos pintam a mulher forte. Era uma alma pura, amável e terna e ao mesmo tempo corajosa e firme. Havia tido treze filhos, cinco dos quais deixaram este mundo em tenra idade, na inocência batismal. Francisco era o mais velho deles. Bem antes de nascer, sua mãe, prostrada diante do altar do Santo Sudário, em Annecy, oferecia-o ao Senhor, prometendo solenemente educá-lo para Deus. Esta oblação foi posteriormente renovada muitas vezes; e o amor divino de tal modo se misturava com a ternura maternal de que ela era objeto, que o nome de Deus e o de sua mãe foram as primeiras palavras que o infante balbuciou.
Há muito íntima afinidade entre o sentimento religioso e o sentimento fiial: são como dois troncos que se enlaçam para crescerem juntos. A feliz mãe sentiu que o seu filho era cheio de celeste graça desde o berço e via sempre nele a sua mais doce consolação.
A mãe de São Francisco de Sales era, porém, de uma rara modéstia em tratando de seu filho amado. Seguiu nisto o exemplo da Mãe de Jesus: guardava tudo no seu coração. Habituada a expandir no seio de Deus tanto as suas alegrias como as suas tristezas, ela era calma, discreta, de um caráter sempre igual, tranquila e afável. A sua docilidade, sustida por uma inflexível paciência, tinha um magno encanto que cativava todas as simpatias.
Estes traços não são os que vemos em São Francisco de Sales? A mãe tinha confiado a um digno sacerdote a instrução religiosa dos filhos; mas ajudava-os em seus estudos e assistia às lições, de modo que estas, assim repassadas da suavidade maternal, mais fundo lhes calavam no ânimo. As impressões da infância são indeléveis e salvaguardam todos os futuros desenvolvimentos.
Francisco de Sales, quando menino, era disposto ao arrebatamento e às impaciências. Sua mãe, desde o princípio, combateu-lhe estas más disposições, ensinando-lhe a praticar a renúncia e o sacrifício, a contentar-se com pouco e a suportar com toda a calma e sem queixumes as contrariedades e os sofrimentos.
Afastou, outrosim, dos seus hábitos as satisfações da vaidade e as tendências a gostos ociosos, fazendo por este meio desenvolver-se uma forte e máscula energia em um coração naturalmente bom e sensível.
Em todas as fases da sua vida recebeu São Francisco de Sales a benéfica influência de sua mãe. Em toda a parte e sempre, nas escolas públicas de Paris e de Pádua, como nas mais seletas sociedades que frequentou, a lembrança materna foi como a lúcida e fovente estrela que lhe preservou a piedade e lhe protegeu os costumes. Tinha vinte anos apenas e tomava assento já no ilustre conselho da Saboia. É possível que nessa época a mãe de São Francisco de Sales, como a mãe de Zebedeu, tivesse desejado grandes coisas na terra para seu filho. Mas, ao saber da vocação deste, a fé elevou imediatamente os seus pensamentos acima das brilhantes pespectivas do mundo. Ela compreendia que a maior ventura do homem é responder ao apello do Altíssimo e estar em perfeita harmonia com o céu. Compenetrada desta verdade, deu provas do mais puro desinteresse do seu amor e fez que o esposo participasse do mesmo sentimento.
O heroísmo desta mãe se manifestou claramente em outra ocasião: quando perdeu a filha mais moça, cuja educação havia sido confiada à santa viúva de Chantal. De uma carta de São Francisco de Sales consta como ela suportou tão dolorosa perda. “Minha mãe, diz ele, esgotou o cálice da amargura com uma constância verdadeiramente cristã e a sua virtude excedeu muito ao que eu esperava. Ao saber que a sua querida filha era morta, verteu por alguns instantes abundantes lágrimas e depois, enxugando-as, nada mais disse do que isto: Seja feita a vontade de Deus. Nem uma palavra ou gesto de impaciência; mil graças a Deus somente e inteira resignação à sua vontade. Nunca vi dor mais tranquila e mais serena; e, todavia, ela amava tanto esta filha!
São Francisco de Sales tornou-se o diretor espiritual e o confessor de todos os membros da sua familia.
Nesta qualidade, foi ele, um dia, chamado a toda a pressa para assistir à mãe já moribunda. Nada mais tocante do que esta última cena! A mãe, tomando a mão de seu filho, beijou-a respeitosamente e disse-lhe: “Eu te devo, como a meu próprio pai, este testemunho de veneração e de estima”.
Depois, estendendo os braços, atraiu a si o filho e abraçou-o ternamente, dizendo: “Eu te devo esta prova de ternura, como meu filho que és”. Recebida a extrema-unção, ela viveu ainda dois dias, multiplicando sem nenhuma pausa os atos de fé, de esperança, de caridade e de contrição que o bom filho lhe sugeria e, no momento em que rendia a Deus a sua bela alma, pairava em seu semblante um sorriso de felicidade como um doce reflexo do céu. A oração fúnebre desta mãe cristã se encerra toda nestas singelas palavras de São Francisco de Sales: “Aprouve a Deus retirar deste miserável mundo esta boa e amada mãe para a colocar junto a si no seu paraíso, pois que era uma das mais belas e das mais inocentes almas que tem havido”.
Novo Manual das Mães Cristãs pelo Revmo. P. Theodoro Ratisbona, 1938.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico