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A Mãe de São Carlos Borromeu

A Mãe de São Carlos Borromeu: Margarida de Medicis

Margarida de Medicis, mulher do conde Gilberto Borromeu, era uma dessas peregrinas almas que santificam as famílias cristãs. Ela pôde assistir ainda em vida à realização das promessas que a Escritura faz aos pais fieis e piedosos. Esposa e mãe, conservou sempre no governo da sua casa a integridade e a serenidade da consciência. Foi como a mulher diligente dos Provérbios: “Levanta-se cedo e provê às necessidades da casa e dos servos. Não teme o frio e a neve para os seus, que a todos deu boa roupa. Olha por tudo na casa; não apaga de noite a sua lâmpada, e não fica nunca inerte a comer o pão da preguiça. Consola os aflitos e socorre os necessitados. Também, todos a abençoam; seus filhos a proclamam bem-aventurada e o esposo a declara superior em virtudes às próprias filhas. Enganosas são as graças físicas e vã é a formosura; mas a mulher que teme o Senhor, esta será louvada”.

Aristóteles, o mais profundo dos filósofos pagãos, disse que a mãe é como a metade de seus filhos. Parece-nos, porém, que poderia dizer que a mãe é a totalidade dos que ela cria e educa para o céu, pois os filhos são o que a educação os fez e a educação pertence sobretudo à mãe. Margarida tinha dois filhos e quatro filhas; e todos reproduziram as suas raras qualidades, uns no cumprimento dos seus deveres sociais, outros no estado religioso.

Isabel, sua filha mais velha, não sofreu por parte dos pais nenhuma oposição à sua vocação monástica; escolheu por isso a herança do Senhor, tendo nos lábios as harmoniosas palavras do salmista: “Um dia em vossa casa, ó meu Deus, vale mais para mim do que muitos anos nos palácios dos pecadores”. Carlos, o segundo filho de Margarida, tornou-se santo e sua história é bastante popular. Entre as virtudes que distinguiam a mãe desta ilustre família, são particularmente admiráveis a humildade que ela conservava em face das prerrogativas do seu nascimento e a perfeita abnegação que mostrou sempre no desempenho dos seus deveres. A primeira destas virtudes é como o receptáculo das águas vivas da graça; ela atrai os olhares do Altíssimo, mantém inalteráveis os méritos e dons de Deus e o seu maior elogio saiu da boca da santa Virgem: “Respexit humilitatem ancillre sure”. Mas se a humildade faz brilhar a vida cristã aos olhos do Senhor, aos olhos dos homens a oculta, de maneira que muitos nomes, que esplendem à luz divina, ficam de todo obscuros na terra. Foi isto o que se deu com a mulher que deixou à Igreja e ao mundo um precioso legado e da qual a história registra, entretanto, poucos traços salientes. Nada mais simples e mais suave do que a vida da mãe de São Carlos. Recolhida habitualmente em si mesma, no asilo de sua alma, que era como um plácido céu, pois que aí Jesus Cristo habitava sempre, ela obedecia com amor aos ditames do Evangelho, conformando com a vontade de Deus todos os seus pensamentos, palavras e obras. Ocupava dignamente o seu lugar na família e na sociedade, sem pactuar jamais com as paixões mundanas, como respeitava as conveniências sociais, sem transigir com os bons princípios. Cheia de atenções para com os pobres, gostava de os servir com suas próprias mãos e restringia quanto era possível as suas despesas particulares para ter meios de multiplicar, segundo os impulsos generosos do seu coração, os atos de caridade. Neste ponto ela rivalizava com seu esposo, cujas esmolas eram às vezes tão consideráveis que o censuravam por malbaratar assim os bens de seus filhos. É bem conhecida a resposta que ele dava a semelhante censura: “Se eu me arruinar cuidando dos filhos de Deus, Deus cuidará dos meus”. Que exemplo e que edificação para os filhos há na contemplação da sublime generosidade e grandeza do coração de seus pais!

O que caracterizava, porém, de modo mais eminente a mãe do ilustre arcebispo de Milão era a abnegação constantemente patenteada em suas relações sociais.

Ao vê-la ocupada nos modestos afazeres de sua casa, prestimosa para todos e a todos necessária, ninguém poderia reconhecer nela a irmã de um Soberano Pontífice.

Esquecendo-se de si mesma, esquivava-se, entretanto, às atenções dos outros.

A abnegação é o quanto basta para o louvor da mulher. Este sentimento era desconhecido antes do cristianismo. Jesus Cristo é que o manifestou aos homens, quando disse aos que desejavam ser seus discípulos: “Quem quiser ser comigo, abnegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e me siga!”

Nesta senda real é que a mãe de São Carlos Borromeu caminhava com incomparável energia. À medida que se desligava do amor de si mesma, ia-se dilatando no amor de Deus e tanto mais se dedicava aos interesses alheios, quanto mais se esquecia dos seus próprios interesses. A verdadeira caridade não se desenvolve senão sobre as ruínas do egoísmo; e, vivificada pelo espírito de Jesus Cristo, faz milagres. A abnegação é também uma condição de íntima paz, porquanto o que ordinariamente perturba as leis da harmonia é a obstinação da vontade que não se prende senão aos instintos e o amor próprio que só procura a todo o preço o seu triunfo.

Daí provêm os choques e os conflitos que lançam frequentemente a discórdia nas famílias. O meio de extirpar pela raiz esta causa de tantas aflições e de tantos males é a generosa renunciação a si próprio.

A piedosa mãe de São Carlos conheceu este segredo evangélico e ensinou-o a seus filhos por magnânimos exemplos. Ela implorava ardentemente pelos seus, mas às suas orações juntava sempre a oferta de si mesma, afim de imitar o Bom Pastor que dá a vida pelo seu rebanho. Não é necessário, mas é curioso ver como esta virtude perfeita passou do coração da mãe para o coração do filho. Quem não conhece a dedicação heróica de São Carlos Borromeu? Quando a peste grassava em Milão, era visto, de corda ao pescoço, com um crucifixo nas mãos, oferecendo a sua vida em expiação dos pecados do seu povo. Investido pelo papa Pio IV nas mais insignes dignidades eclesiásticas e tornando-se o herdeiro dos bens da sua família por morte de seu irmão, ele renunciou tão completamente a tudo o que possuía, que andou a pedir esmola de porta em porta afim de fazer brotar por toda a parte as fontes da caridade que pareciam estancadas.

Prestemos homenagem aos pais dos grandes homens! Reconheçamos que é principalmente a piedade da mãe cristã que forma os santos. Ela é que invoca e faz descer do alto as bênçãos que nobilitam as raças e consolidam a prosperidade.

Novo Manual das Mães Cristãs pelo Revmo. P. Theodoro Ratisbona, 1938.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico