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A Mãe de São Luís: Branca de Castella
A Mãe de São Luís: Branca de Castella - Fonte da imagem: https://ipec.pt/

A Mãe de São Luís: Branca de Castella

Branca, filha do rei de Castela, Afonso IX, e de Leonor de Inglaterra, nasceu em Burgos, em 1185.

Nada é mais edificante do que o coração desta rainha, que reuniu em si, num maravilhoso acordo, as qualidades de um homem de Estado e as mais ternas solicitudes da mãe cristã. Prudente e bem avisada nos conselhos, paciente e circunspecta no governo do reino, pronta na ação e intrépida nas horas do perigo, ela resolvia as mais difíceis complicações ao mesmo tempo que destruía as maquinações dos partidos, tanto por meios brandos como por grandes golpes de inflexível justiça. Ao seu gênio ativo aliava ela uma perfeita compreensão dos deveres maternais; e, no lar da família, como sobre o trono, era cristã antes de tudo. É este misto de santidade, de majestade e de brandura de alma que em subido grau se vê também no rei seu filho. Na verdade, São Luís não era mais do que a imagem de sua mãe. A França tinha sido providencialmente confiada à guarda de Branca. A história nos oferece, aliás, várias provas da intervenção extraordinária de Deus, pela vocação de uma mulher, na política das nações. Mais de uma vez, pondo de lado o homem presunçoso e soberbo, a mão divina se tem servido dos mais fracos instrumentos para manifestar o seu poder; mistério este que assombra e confunde o orgulho do século. Verificam-se, nesses casos excepcionais, os proféticos acentos do salmista: “As nações se levantam em tumulto; os povos formam desígnios insensatos; os reis e os príncipes conspiram juntos contra o Senhor. Quebremos estes laços, dizem eles, e sacudamos este jugo! mas – acrescenta o profeta – Aquele que reina no céu deles se rirá e os votará ao desprezo”; e dando uma força invencível à tímida humildade, curvará os grandes da terra sob o cetro de um frágil caniço. Branca, segundo o testemunho dos historiadores, dirigia com uma habilidade admirável a nau do Estado por entre escolhos e escarcéus, sem cessar um só dia de preencher os deveres da maternidade que se não esquecem jamais. Digna mãe e digna rainha, ela não procurava a sua própria glória em nenhuma destas dignidades. “É a vós, Senhor, e não a nós – dizia ela com o salmista – que deve remontar toda a história e toda a honra”.

A religião era ao mesmo tempo o princípio da sua política real e da vigilância materna. Desdenhando os prestígios de um falso esplendor, ela não acreditava que, para o desempenho da sua dupla missão, se pudesse ir buscar a outra fonte, senão em Deus mesmo, a força, o ascendente e a luz indispensável. Soberana, ela fazia descer aos povos o reino de Deus; e mãe, levantava até Deus os seus próprios filhos.

Inquire-se com surpresa como no meio das agitações da sua regência, viúva e bem jovem ainda, pôde ela manter-se sempre firme e dominar as mais críticas situações. Os principais senhores, seus feudatários, que desmembravam a França, haviam formado contra a regente, por instigação do duque da Bretanha, uma aliança ameaçadora. Branca entabulou negociações com o imperador Frederico II e com a Inglaterra, afim de evitar quaisquer dificuldades exteriores, e, no interior, granjeando pela justiça da sua pessoa poderosas simpatias, frustrou completamente os planos dos ambiciosos.

São Luís, Rei da França
El Greco : São Luís, Rei da França, 1592, Museu do Louvre, Domínio Público, Wikimedia Commons

Mais tarde, quando o duque da Bretanha se entrincheirou na fortaleza de Bellesme e aí lhe opôs terrível resistência, a regente, como uma heroína, corre ao assalto da praça e excita os soldados pela sua bravura, participa dos seus perigos e dos seus trabalhos e consegue derribar o soberbo e arrogante inimigo, ao qual depois magnanimamente perdoa; e, enfim, calma na vitória, restabelece a boa ordem nos seus Estados, impõe respeito aos vassalos turbulentos e coroa a sua obra, sujeitando a rica Provença ao cetro francês. É assim que ela secunda o plano providencial que tendia a fundir gradualmente em uma grande unidade os elementos de semelhantes antagônicos do território, conforme a política seguida sempre pelos reis da terceira dinastia. Branca de Castella teve onze filhos, alguns dos quais já não existiam quando ela perdeu Luís VIII, seu marido, príncipe digno de mais longa vida e recomendável tanto pela sua piedade como pelo seu valor.

A real viúva não se descuidou jamais da educação dos filhos que lhe restavam. Para estes não ambicionava ela, como já dissemos, as passageiras alegrias deste mundo, mas a imortal bem-aventurança.

Sabe-se com que desinteresse favoreceu a vocação religiosa de sua filha Isabel, mimosa flor nascida à sombra do régio solio que, retraindo-se toda no meio das mundanas pompas, só se foi abrir fragrante no retirado claustro para inebriar de perfume evangélico o célebre mosteiro de Longchamps. Entre os filhos que cresceram sob a sua direção sobressai o vulto de São Luís. O brilho deste príncipe ofusca de algum modo o mérito de seus irmãos – um dos quais, Carlos de Anjou, subiu ao trono da Sicília, e dois outros, o conde de Artois e Afonso de Poitiers, sucumbiram com a coroa do martírio nas batalhas da Terra Santa. Todos tinham sido nutridos, desde os mais verdes anos, com os princípios da religião cristã, e tinham todos sugado, com o leite materno, as másculas virtudes que fazem os grandes homens; pois que o homem é sempre grande quando é cristão, e, desapegando-se das coisas fugitivas, eleva as suas aspirações acima deste mundo e vive para a celestial pátria.

Então, sim, o homem é generoso, porque não está sujeito aos interesses terrenos, é livre porque não arrasta a cadeia das paixões, e é invencível porque não teme a morte. E é a religião, a religião unicamente, que lhe dá esta verdadeira grandeza.

O pensamento cristão dominava todos os atos da regente. Quando ela quis oferecer ao jovem rei uma esposa digna dele, transmitiu ao seu ministro, o arcebispo de Sens, a recomendação terminante “de não fazer para o seu filho o pedido formal da mão de Margarida, senão depois de se haver certificado da solidez de princípios da jovem princesa, da pureza de seus costumes, da bondade da sua índole e da constância da sua religião”. Zelosa da felicidade de seu filho, ela se preocupava menos com as vantagens que a riqueza proporciona do que com a honra e as bênçãos que procedem da virtude. É sabido que essa rainha costumava dizer a seus filhos: “Eu prefiro ver-vos mortos a ver-vos em pecado mortal“.

São Luís, o primogênito de Branca, podia ter gozado sobre o trono das magnificências da sua côrte; mas teve sempre outros gostos e outros pensamentos mais honrosos e elevados. Sua abnegação pessoal, fruto do sentimento religioso, lhe fazia antepor a causa de Deus e os interesses do seu reino a todos os gozos da terra.

Não estava terminada ainda a obra das cruzadas, e contudo havia produzido já, apesar dos seus revezes, grandes e memoráveis resultados. Além dos golpes mortais que vibraram no islamismo, os cruzados contribuíram para a formação da unidade política da Europa e colocaram os países cristãos na vanguarda da civilização. Foi a esta grandiosa obra que São Luís consagrou a melhor parte de sua vida. Inspirado só pelo céu, ele chegou a reunir, para as duas últimas expedições guerreiras contra os infiéis, novos batalhões sagrados e obedeceu em tudo ao mesmo impulso religioso que um século antes tinha levado São Bernardo a pregar a segunda cruzada.

Todavia, a heróica resolução do jovem rei foi para sua boa mãe um motivo de profundos desgostos. Travou-se em tais circunstâncias, no coração de São Luís, um duro combate entre a graça divina e a natureza terrena, entre a prudência humana e as inspirações celestes. O Espírito de Deus triunfou, e a mãe resignou-se ao sacrifício do que ela tinha de mais caro neste mundo. Ela própria não tardou a oferecer-se em holocausto; Branca morreu, e uma santa morte coroou a sua santa vida.

São Luís, ao receber a dolorosa notícia do seu passamento, exclamou soluçando: “Ah! como eu estremecia esta mãe! Eu a amava acima de todas as criaturas!” As mães cristãs compreenderão, pelo estudo deste excelente modelo, que as mais altas posições sociais não são capazes de abalar as solicitudes naturais da maternidade e que, confiada por Deus a elas a salvação de seus filhos, a sua imprescritível missão não pode ser outra senão educá-los cristãmente.

A história de São Luís, oferece uma prova a mais de que é pelos seus filhos que as mães serão honradas na terra e glorificadas no céu.

Novo Manual das Mães Cristãs pelo Revmo. P. Theodoro Ratisbona, 1938.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico