Parece inútil exortar os filhos da Igreja a consagrarem um culto filial a Maria, pois este culto é como que inato no espírito cristão. Por isso, na Escritura santa, não seria menos supérfluo recomendar-se o amor a Maria do que o amor a nossas mães. É uma lei gravada nos corações, perpétua, imprescritível, sempre viva, que não precisava ser promulgada. A alma cristã, só pelo fato de viver a vida de Jesus Cristo, participa dos sentimentos que Jesus Cristo dedicava a Sua Mãe.
O início infalível da aberração e do obscurecimento da fé é a indiferença em relação a Maria, como o sinal indubitável da verdadeira piedade é o apego filial à Mãe de Jesus; tal é a tradição unânime dos santos Padres e doutores.
Como definir o papel, a posição e o ministério de Maria na Igreja?
Não esqueçamos que a Igreja é a família dos filhos de Deus, formando juntos um só organismo de que Jesus Cristo é o centro. Para fundar esta família e dar-lhe uma constituição animada e sólida, o divino Salvador colocou-a logo sob uma autoridade infalível: deu-lhe um pai e a esta alta paternidade conferiu todas as graças, dons e prerrogativas que a deviam manter, consagrar e perpetuar até à consumação dos séculos.
“Tu és Pedro e sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Nestes termos é que o fundamento visível da família católica foi lançado; e a história da imutabilidade, da infalibilidade e persistência dela, no meio das vicissitudes de todas as coisas humanas, é o milagre deslumbrante e permanente dos séculos cristãos. A missão de Pedro se transmite por uma série ininterrupta de pontífices e até ao último dia triunfará das trevas do mundo e das cóleras de Satã.
Todavia, como a Igreja é uma família, também lhe é necessária urna mãe.
Não há família sem mãe; e a onipotência divina, que instituiu o pontificado paternal, consagrou igualmente o ministério maternal, mas com uma diferença que é fácil compreender. A autoridade do pai é ostensiva e a sua ação deve ser manifesta e altamente acreditada. Personificam-na os Pontífices romanos que, por uma admirável investidura, sucedem ao Príncipe dos Apóstolos e ocupam a sede suprema. Mas, quanto à mãe da Igreja, quem poderia ocupar esta posição? Pode-se substituir um pai, mas nunca uma mãe. A mãe exerce na família a função do coração, função secreta, misteriosa, invisível, e contudo essencial e vivificante. Do mesmo modo que São Pedro é a cabeça da Igreja, Maria representa o coração de Jesus Cristo.
Não há nada mais tocante do que a promulgação desta divina maternidade. Foi a hora mais solene do sacrifício de Jesus Cristo, no instante em que Ele exalava o seu último alento.
Neste supremo instante olhou Jesus para Sua Mãe e olhou depois para o discípulo bem-amado, dizendo a este: Ecce mater tua! “Eis a tua mãe!” Palavra onipotente, palavra criadora que, num rápido momento, realiza o que diz e transforma em Mãe dos homens a Virgem Imaculada, como anteriormente uma palavra não menos eficaz transformava Simão em Pedro, tornando-o o Pai e o chefe da Igreja.
Deus falou e tudo se fez; Deus ordenou e tudo se cumpriu: “Dixit et facta sunt; mandavit et creata sunt”. A virtude desta palavra, penetrando o coração da Virgem, fez dele brotar uma fonte inesgotável de ternura. Maria tornou-se a obra prima das mães e a maravilha das mãos de Deus. E o profeta, em êxtases diante de tal prodígio, pôde afirmar que “vira uma mulher circundada de sóis”.
A mulher que ele vira é a mulher por excelência, a mulher excepcional, a mulher imaculada que repara a falta cometida pela primeira mulher. Jesus Cristo chamou Mulher a sua própria Mãe, no momento sublime em que a atitude desta ao pé da cruz elevava a dignidade da mulher cristã.
Esta palavra tem aí um sentido misterioso que corresponde à denominação profética que a Escritura dá a Eva: “Eu plantarei a inimizade entre a serpente e a mulher e a raça de uma e de outra”; e ela recebeu o nome de Eva por ser “a mãe de todos os viventes”. Mas os sóis que resplendem em torno de Maria são centelhas de seu coração abrasado de inefável ternura maternal, derramando nos horizontes do mundo as torrentes da graça, as claridades da celeste esperança e todas as solicitudes e bênçãos de uma augusta maternidade.
Jesus Cristo, ao mesmo tempo que enche o coração de Maria destas efusões do amor, vivifica no coração do discípulo querido todos os sentimentos da piedade filial. Uma palavra divina deu uma Mãe aos filhos da Igreja e uma outra palavra consagrou as homenagens que a Igreja rende a esta mãe: “Ecce filius tuus!”
São João, o representante dos discípulos fieis ao pé da cruz, era em verdade filho de Maria, porquanto ele se tornou um outro Jesus; possuía Jesus em sua alma, alimentava-se da Eucaristia e estava animado do espírito de Deus. Como este Apóstolo, nós também somos filhos de Maria não somente em virtude de uma adoção real, mas ainda pelos laços sagrados do Sangue de Jesus Cristo. Nós estamos ligados à Mãe do mesmo modo que ao Filho, pois, como diz São João Crisóstomo, nós fomos incorporados em Jesus Cristo e tornamo-nos por isso os membros do seu corpo, “a carne de sua carne e os ossos de seus ossos”, segundo a expressão de São Paulo. Esta elevada doutrina se resume nas seguintes palavras de Santo Agostinho: “caro Cristi, caro Mariae; sanguis Christi, sanguis Mariae”. – “A carne de Cristo é a carne de Maria; o sangue de Cristo é o sangue de Maria”. Evidentemente, desde que comemos esta carne e bebemos este sangue, participamos também da vida de Maria.
São Mateus, narrando o nascimento do Salvador, diz que a Virgem havia dado à luz o seu primogenitus. De fato, Jesus Cristo, nos termos da Escritura, é o mais velho dentre os seus irmãos; e os homens que se nutrem da sua divina substância, como os ramos nutridos de uma mesma seiva, são todos irmãos de Jesus Cristo.
“Meus irmãos e minhas irmãs disse o próprio Salvador – são os que obedecem a meu Pai que está no céu”. Ora, estes que são irmãos e irmãs do Filho de Maria, hão de ser também filhos de Maria; e, assim sendo, Jesus Cristo é por certo o irmão mais velho deles. Nesta profundeza de teologia sagrada é que se encontram os fundamentos do culto de Maria. A nossa aliança com o Filho de Deus incarnado em nossa natureza nos veio colocar em duas relações inefáveis. Unidos a Deus pela natureza divina de Jesus Cristo, tornamo-nos filhos de Deus e damos a Deus o nome de Pai : Abba Pater! Unidos a Maria pela natureza humana de Jesus Cristo, tornamo-nos filhos de Maria e damos a Maria o nome de Mãe: Alma Mater! Por que é que amamos a Maria? Pergunte-se a uma criança por que ama a sua mãe: e ela responderá naturalmente que a ama porque é sua mãe. Esta singela resposta é a melhor de todas as que poderiam dar a tal pergunta, mas para a compreender é preciso ter um coração de criança, um coração angélico, simples e amorável.
Em virtude dos laços que nos unem a Jesus Cristo, nós participamos da sua dupla natureza; somos ao mesmo tempo divinos e humanos. Grande e inefável verdade, de onde se tira uma consequência manifesta: é que só podemos ser efetivamente filhos da Igreja quando temos a Deus por Pai e a Maria Santíssima por Mãe.
Filhos de Maria, nós amamos e honramos nossa Mãe. Mas este sentimento não é mudo: ele fala, conta e exprime a sua gratidão. “Vinde e escutai – diz o profeta – vós todos que tendes temor de Deus, que eu vos narro as graças que ele verteu em minha alma!”
Daí esse concerto de ações de graças que sobem até ao trono maternal e o doce culto que a piedade filial anima dos mais harmoniosos hinos e dos mais ardentes louvores. O culto de Maria começara ainda em vida de Jesus Cristo: prova-o essa mulher evangélica que um dia exclamou do meio da multidão: “Bendito o ventre que te gerou! Bendito o seio que te amamentou”.
Por que razão, ó celeste Mãe e Rainha, cada vez que vos invocamos, nós ornamentamos as nossas frases, enchendo-as copiosamente de atavios e de imagens em que se repetem os múltiplos títulos que tendes à nossa gratidão? É que os nossos sentimentos são tão abundantes que poucas e isoladas palavras não bastam para exprimi-los e as línguas humanas são pobres demais para celebrar a Virgem Imaculada. O próprio Santo Agostinho deplorava isto: “Quibus te laudibus efferam nescio!” “Eu não acho palavras para vos louvar dignamente”. Todavia, não podemos nem devemos guardar o silêncio. As homenagens que prestamos à Mãe tocam o coração do Filho e realizam as profecias. “De ora avante – disse a Virgem no seu cântico – todas as gerações me proclamarão bem-aventurada!”
Profecia maravilhosa que se realiza com magnificência através dos séculos, pois as gerações não cessam de a sublimar e, entre nuvens de incenso e cânticos, o seu nome ressoa da terra aos céus. O nome de Maria só não é repetido e celebrado nos lugares em que a fé se apaga: a estrela matutina não pode brilhar nas regiões escuras e nebulosas.
Mães cristãs, lembrai-vos de que toda família consagrada a Maria é objeto de uma particular predileção de Deus, e que, entre todas as devoções salutares, nenhuma vos dará uma confiança mais doce durante a vida e uma segurança mais firme à hora da morte, do que o culto filial da Mãe das mães.
Novo Manual das Mães Cristãs pelo Revmo. P. Theodoro Ratisbona, 1938.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico