Lembra-te que a morte não tardará (Ecl. XIV, 12).
Sim: a morte há de vir e envolver num sombrio manto de tristeza todos os esplendores da terra.
Há de vir: e a alegria emudece, os amigos fogem, o mundo abandona-os, o dia fugaz da vida terrena desaparece e começa a luzir o dia sem fim da eternidade.
Também tu, ó jovem cristã, caminhas para a morte: melhor ainda, trazes a morte dentro de ti. És pó e em pó te hás de tornar (1).
Quem poderá evitá-la, se ela em toda a parte nos espia? porventura, o que vive uma vida regalada? Mas é exatamente tal gênero de vida, o que mais contribui para a abreviar. A ciência dos médicos? mas ela tem limites, que o poder onipotente da morte facilmente vence.
Está fixo que o homem há de morrer (2).
Não vês como atrás de nós se erguem novas gerações, que nos estão afastando para longe dizendo: Deixai-nos o passo livre; a vida agora é para nós: descei ao túmulo e não continueis a impedir-nos o caminho da peregrinação que temos de percorrer.
A morte vem e uma só vez.
Está fixo que o homem morrerá só uma vez (3). Franqueados os humbrais da eternidade já não é possível retroceder. A sorte está lançada; e ganho ou perdido, o jogo não se pode recomeçar.
Mas, quando e como virá a morte?
Ó incerteza, ainda mais espantosa do que a própria morte! Morrerei na flor da idade, ou atingirei largos anos de vida? Morrerei de enfermidade prolongada, ou virá por fim aos meus das uma morte repentina?
Só Deus, que tem nas suas mãos as chaves da morte, o sabe.
Posso morrer na juventude; e de fato a morte vai recrutar as suas vítimas, mais nas fileiras dos novos do que nas dos avançados em anos.
A morte não tardará (4). Mas, ainda que só viesse daqui a quinze ou vinte anos, que é isso? Em todo o caso ela virá, e com tanta rapidez que toda a vida nos parecerá o sono de uma noite.
Mas então, será preferível morrer tarde?
A vida prolongada não aumentará a conta que havemos de dar, não apertará ainda mais os vínculos que ligam o nosso coração à terra, tornando-nos mais dolorosa a separação?
Mas, cedo ou tarde, a separação há de chegar, e a morte há de vir infalivelmente. E quão severo é o seu aspecto!
Logo que a luz da vida se acabe de extinguir, a palidez apodera-se do rosto, os membros e os sentidos tornam-se frios e hirtos e a alma separa-se do corpo.
A morte amarga há de me separar também de tudo. (5)
A morte separa-nos de tudo: casa, honras, tesouros e galas; apenas nos deixa a miséria de uma mortalha, e as quatro tábuas dum ataúde.
Separa-nos dos pais, irmãos e amigos: lágrimas, prantos, desespero e promessas, tudo é inútil.
A morte entrega o corpo à corrupção. Ao cabo de algumas semanas já só existem os ossos e uma caveira. A este nada fica reduzido todo o reino da carne, que tanta vez convertemos em ídolo.
A morte entrega a alma a Deus, e leva-a ao seu tribunal. Ai! da que estiver manchada com o pecado!
Eis a sorte que te espera também a ti, talvez no frescor da mocidade! Será isto impossível?
A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.
(1) Gen. III, 19.
(2) Hebr. IX, 27.
(3) Hebr. IX, 27.
(4) Ecl. XIV, 12.
(5) I Reis XV, 32.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico