Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Fonte da imagem: Dominus Est

A vida escondida

Ó Jesus, Deus escondido, ensinai-me o segredo da vida oculta.

1 – Durante a Sua vida terrena, Jesus comprazer-Se em esconder a divindade sob as aparências humanas. Salvo raras exceções, sobretudo nos trinta anos que precederam a Sua vida apostólica, nunca deixou transparecer nada da Sua grandeza, sabedoria e onipotência infinitas. Mais tarde, nos anos da vida pública, quis adaptar-se à maneira tão imperfeita de viver e agir dos Seus apóstolos. ele que lhes era infinitamente superior. Jesus é verdadeiramente o Deus escondido e ensina-nos, com o Seu exemplo, o valor da vida escondida.

Se queres imitar profundamente a humildade de Jesus, deves participar na Sua vida oculta, encobrindo como Ele, tudo quanto possa atrair a atenção e o louvor dos outros, escondendo tudo o que te possa singularizar ou fazer notar, fugindo, tanto quanto te for possível, de qualquer sinal de distinção. “Ama nesciri et pro nihilo reputari” – ama o viver desconhecido e ser tido por nada (imit. I, 2-3) porque assim serás mais semelhante a Jesus “que, sendo Deus, quis tomar a forma de escravo e ser semelhante, no Seu exterior, a um homem qualquer” (cfr. Fil. 2, 6 e 7). O próprio Jesus nos ensinou a prática da vida escondida insistindo em que façamos o bem em segredo, sem ostentação, só para agradar a Deus. Ensina-te assim a guardar segredo sobre a tua vida interior e as tuas relações com Ele: “Quando quiseres orar, entra no teu quarto e fecha a porta”. Ensina-te ainda a ocultar aos outros as tuas mortificações e penitências: “quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto”. ensina-te a não pores em evidência as tuas boas obras: “quando deres esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a direita”, porque todos os que fazem “as suas boas obras diante dos homens para serem vistos por eles… já receberam a sua recompensa e não terão a recompensa do Pai celeste” (cfr. Mt. 6, 1-18).

2 – “Agir pura e unicamente para agradar a Deus, sem nunca querer… o testemunho de olhares humanos”, foi o programa de Sta Teresa Margarida do Coração de Jesus, a Santa da vida escondida (Sp. pg. 369). Querendo reservar unicamente para Deus o dom completo de si mesma, esforçou-se tanto quanto pode, por esconder aos olhos das criaturas a riqueza da sua vida interior, o heroísmo das suas virtudes, de modo que a sua vida foi a plena realização do lema “viver só com Deus só”. A alma que procura ainda a aprovação o louvor e a estima das criaturas, não vive só com Deus só, a sua vida interior não poderá ser profunda, nem as suas relações com Deus muito íntimas. Esta alma vive ainda à superfície. E assim preocupada com as aparências externas, com o que os outros poderão pensar ou dizer dela, facilmente se deixará arrastar, na sua maneira de proceder, pelo respeito humano, pelo desejo de conquistar a benevolência e a estima alheias. Por isso, na sua conduta, faltará frequentemente à simplicidade, à pureza de intenção, talvez mesmo à sinceridade. O sobrenatural está nela ainda demasiado mesclado de humano para que possa dominar a sua vida e, de fato, age muitas vezes, não para gradar a Deus e para Lhe dar glória, mas para agradar aos homens, para conquistar-lhes o afeto e alcançar uma posição mais ou menos honrosa.

Quando “nos surpreendemos a desejar o que brilha – dizia Sta Teresa do Menino Jesus – enfileiremos humildemente entre os imperfeitos e consideremo-nos almas fracas que Deus deve amparar a cada instante” (CL.). E a própria Santa fazia para si este pedido: “Ó Jesus fazei que eu seja calcada aos pés, esquecida como um grão de areia” (M. pg. 321).

Colóquio – “Ó Jesus que dissestes: ‘O meu reino não é deste mundo’, mostrai-me que a verdadeira sabedoria consiste em querer ser ignorada e tida por nada, em colocar a própria alegria no desprezo de si mesma. Ah! queria que o meu rosto como o Vosso, ó Jesus, estivesse verdadeiramente oculto, que sobre a terra ninguém me conhecesse. Tenho sede de sofrer e de ser esquecida…

“Vós não quisestes nem beleza nem esplendor, mas a Vossa face estava como que escondida e os homens não fizeram caso dela. Também eu desejo, como Vós, não ter esplendor nem beleza, ser desconhecida de toda a criatura.

“Sim, devo guardar tudo para Vós com um cuidado cioso. Como é bom trabalhar só por Vós, ó Jesus! Para Vós só! Então o coração fica cheio e sentimo-nos leves! Fazei que ninguém pense em mim, que a mina existência seja, por assim dizer, ignorada de todos; não desejo senão uma coisa: ser esquecida e tida por nada. Sim, desejo ser esquecida e não só das criaturas, mas também de mim mesma; quereria ser de tal modo reduzida a nada que já não tivesse mais desejo algum. A Vossa glória, ó meu Jesus, eis tudo! A minha, abandono-a a Vós” (T.M.J. M.A. pg. 182; NV. 5-VIII; Cart. 84 e 81).

Ó Senhor, ser esquecido pelas criaturas, trabalhar sem que o meu trabalho seja reconhecido, viver no silêncio e na obscuridade de uma vida humilde em que nada sobressai, em que nada é digno de atenção, eis o que mortifica a fundo o meu orgulho. Eis, ó Senhor, uma cura energética para o meu desejo inato de me fazer valer.

Senhor, confesso-o, e Vós já o sabeis, estou muito longe de desejar como os santos, o esquecimento e a indiferença das criaturas, eu que tantas vezes me sirvo espontaneamente de pequenos artifícios para me fazer notar, para me pôr em evidência. Sabeis, ó meu Jesus, que estou doente, e sabeis que me quero curar modelando a minha vida pelo exemplo da Vossa. Só para ser semelhante a Vós posso aceitar e amar a vida escondida. Só para merecer o Vosso amor, os Vossos olhares, a Vossa intimidade posso renunciar à benevolência e à estima das criaturas. Aumentai, pois, ó Jesus, o meu desejo de viver só para Vós e será doce, para mim, o viver ignorado dos homens.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico