Será verdade que hoje em dia Deus ainda governa o mundo? Não são os Estados unidos, ou a Inglaterra ou os judeus? Não é o dinheiro a mola onipotente, não é a moeda de ouro o soberano do mundo?
Apesar de tudo isso permanece de pé a verdade: Deus governa o mundo. Afirmam-no e provam-no a Providência, Onisciência e Onipotência divinas.
Da Providência diz-se com razão: Por decreto de Deus, suas obras existem desde o início… Deu a suas obras uma potência que jamais afrouxa… não cansam, e sua atividade jamais esmorece. “nenhum porá ao outro obstáculo por toda a eternidade.” (12)
Quem tudo rege, é o Criador, melhor conhecedor do mecanismo do mundo, do que qualquer homúnculo que se mete a “sabichão” para reger e criticar o que não entende.
Cristo afirma categoricamente – “Até os cabelos da vossa cabeça todos estão contados!” (13) Vê-se que Deus não negligencia as coisas, que a nós escapariam por nos parecerem de importância quase nula. O grande S. Ambrósio faz a este respeito a sábia reflexão: – Se fosse inconveniente para Deus delas cuidar, muito mais inconveniente teria sido criá-las.
Não há nada para Deus, absolutamente nada, que se subtraia à sua amorosa Providência, pois diz a Escritura – “Fez ele o pequeno e o grande e cuida do mesmo modo de todos.” (14)
Acaso não há, nem pode haver. Em tudo age a Providência “Tudo o que quer, faz o Senhor no céu e na terra, no mar e em todas as profundezas.” (15)
É a Providência que dirige as colossais massas sidéreas a seguir suas trajetórias seculares com majestade soberana, é a Providência que dirige o vôo do sabiá a procurar o ninho; é a Providência que dirige o besourinho a cruzar, sem cuidados, nosso caminho, é a Providência enfim que atenta em nosso globo para que, na célere viagem pelo espaço imenso não se desvie um centímetro sequer da rota a seguir.
A Providência dirige outrossim os povos, os estados e os próprios regentes, apesar de amiudadas vezes parecer-nos que tudo vai às avessas. “O coração do rei está na mão do Senhor como os córregos; inclina-o a tudo que quiser.” (16) “Engrandece os povos e os extermina.” (17)
A Providência divina dirige finalmente cada indivíduo em particular, tanto a mim, como a ti! Devemos, pois, exclamar com o profeta-rei: “Deus mesmo nos rege eternamente.” (18)
Nada, portanto, nada é obra do acaso: tudo, tudo provém da mão amorosa do nosso pai. Dobremos reverentes o joelho e confessemos: – “Tua Providência nos governa.” (19)
Como é grandioso e ao mesmo tempo consolador o que escreve S. Agostinho: Não há criatura, que não esteja sujeita à Providência, queira ou não queira. Deus cuida de cada qual de nós, como se ele existisse sozinho e cuida de todos, como se fossem um só homem.
Apenas na eternidade haveremos de perscrutar os maravilhosos segredos da Providência. É certo, porém, ser verdadeira injustiça contra a bondade e providência de Deus, temê-lo em demasia, temer aquele, que não esquece nenhuma de suas obras e muito menos um filho seu. Se soubesses, quanto te quer, leitor amado… se o soubesses…
Representa-te amiúde a Deus perscrutando teu coração angustiado, desanimado e torturado pelo temor. O Senhor então há de descortinar-te a Providência a cuidar de tudo, a interessar-se por tudo e a dizer: – Homem de pouca fé, porque duvidaste?
Não te esqueças jamais da amorosa Providência de Deus, venha o que vier – e em vez do temor apossar-se-á do teu coração uma confiança filial.
Oh Deus, quem não desejará entregar-se à tua Providência como o filhinho que se aconchega confiante ao seio da mãezinha querida? Quem não exclamará com Jó, tomado da confiança mais intrépida: “Mesmo se me matar, confiarei nele!” (20)
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Outra prova de que Deus rege o mundo é a sua onisciência, da qual confessa o mesmo Jó: – Deus contempla os confins da terra e vê tudo o que está debaixo do céu. (21) Salomão confessa – “os olhos de Deus excedem em lucidez o sol; vêem todos os caminhos dos homens, os abismos mais profundos e os recantos mais secreto dos corações”… (22) E o príncipe dos apóstolos declara diante de Jesus Cristo com a máxima clareza: – “Senhor, sabes tudo!” (23)
De fato, para Deus não há passado nem futuro. à sua onisciência tudo é presente, mais presente do que a nós o são as páginas dum livro aberto. São-lhes presentes os tempos em que a terra ainda não girava no espaço e são-lhe presentes os tempos em que o último dos homens exalará o derradeiro suspiro.
São-lhe presentes as trevas da noite, a escuridão das selvas, o fundo das minas, o horror das masmorras e os segredos de cada quarto. É-lhe presente todo coração com seus sofrimentos e angústias. Quem melhor do que ele perscruta nosso íntimo? Afirma o livro dos livros: “Só tu conheces o coração de todos os filhos dos homens.” (24)
É não é só isso. Afirma mais a Escritura: “Ao Senhor Deus todas as coisas eram conhecidas, antes de tê-las criado; e assim também perscruta todas, depois que as fez.” (25)
Se os homens, os amigos e os próprios parentes te esquecessem – o Deus onisciente não te esquecerá! Onde quer que estejas – na pátria ou no exílio, no alto mar ou numa água furtada – Deus jamais te esquecerá!
Não te enche este pensamento duma confiança sólida, filial? Não és injusto para com Deus, tendo-lhe medo? Ter medo daquele que não te pode esquecer, que se lembra de ti, mesmo quando tu o esqueces e ofendes!
O franciscano Agostinho de Montefeltro foi, no século passado, um dos apóstolos mais insignes de toda a Itália. As maiores catedrais eram pequenas para conter a massa dos ouvintes. A Providência permitiu, porém, fosse caluniado e tivesse que retirar-se da pregação. Foi uma prova mui dura. O padre Montefeltro aceitou-a da mão de Deus e, retirando-se á solidão do claustro, era-lhe grande consolação repetir: – Deus sabe como estão as coisas! – E sua confiança não vacilou.
Quem não se sentirá feliz nas mãos de Deus, que tudo sabe?
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Vejamos uma prova a mais de que Deus rege o mundo. É sua onipotência. Classicamente é esta descrita no livro de Jó: – “Ele é forte por própria energia. Quem lhe resiste e permanece na paz? Transporta os montes, e os que subverteu no seu furor, não no souberam. Sacode a terra do seu lugar, fazendo estremecer suas colunas. Ordena ao sol, e este não se levanta, e como sob um sigilo fecha as estrelas. Estende sozinho o céu e caminha sobre as vagas do mar… Realiza coisas grandes e incompreensíveis e maravilhosas, que é impossível enumerar.” (26)
Como o universo em peso reflete dia por dia a onipotência! Um exemplo dentre muitos: A luz do Sírio alcança-nos após 9 anos, as estrelas da ursa maior após 70, das Plêiadas após 300 anos! A Via-Láctea contém uns 40 milhões de semelhantes sóis flamejantes!
A luz da nebulosa Andrômeda leva não menos de meio milhão de anos. Vemos, portanto, esta nebulosa como ela era há meio milhão de anos! Como de fato hoje é, só o verá a humanidade após mais meio milhão de anos! Para nós homens, cuja existência é tão efêmera, reúnem-se já de alguma maneira por meio de tais distâncias o passado, o presente e o futuro.
Apesar de parecer incompreensível a grandeza destes sistemas siderais, há outros maiores a descrever seus giros no espaço imenso em distâncias que a língua humana já não sabe enunciar. resta-nos, pois, dobrar o joelho diante daquele, que tudo criou, diante do Criador onipotente, pois o universo incompreensível com seus colossais sistemas solares, suas nebulosas imperscrutáveis, surgiu do nada a um simples aceno da sua vontade.
A outro aceno de sua vontade divina, o mesmo universo submergiria de novo no nada! Não aumentará tal onipotência tua confiança?
Não quererás entregar teu destino nas mãos daquele, a quem até os ventos e o mar obedecem? Não quererás confiar de verdade naquele que quebra os cetros dos reis quais raminhos secos e livra de cadeias e masmorras, embora os homens construam portas de ferro e montem dúzias de guardas?
Não hás de presentear teu coração àquele que de si afirmar pode: – “A mim é dado todo o poder no céu e na terra?” (27)
Que injustiça, tratar a um Deus tão poderoso com desânimo e pouca fé! Lembra-te das palavras do profeta Jeremias:
“Bem-aventurado o que põe sua confiança no Senhor!… Será qual árvore plantada á beira d’água… não tem o calor a vir; suas folhas permanecem verdes e não se faz cuidados no tempo da sêca; jamais deixa de produzir frutos.” (28)
Não Temas, Considerações sobre a Confiança em Deus, Frei Atanásio Bierbaum, O.F.M., 1943.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico