Dons do coração – A virtude da santa pureza

A castidade das jovens é de capital importância para a conservação dos bons costumes na sociedade. Se as moças guardarem, rigorosamente no trajar e em todo o proceder, decoro e modéstia, será este o melhor impulso para a moralidade. Sendo, portanto a pureza de coração do sexo feminino de tamanha importância para a moralização da sociedade, deverás gravar bem, no espírito e no coração, e seguir fielmente as normas expostas neste capítulo.

Tem sempre, em alta estima e grande amor, a castidade; pois ela comunicará à tua alma, antes de tudo, particular beleza e graça. “É, sem dúvida a castidade – como diz São Cipriano – a mais formosa flor no jardim da Igreja, o ornamento da beleza, o encanto da graça e a característica da virgem cristã. É por ela que se produzem, na Igreja, os mais deliciosos frutos, e quanto maior for o número das donzelas puras, tanto mais crescerá a alegria desta mãe espiritual”.

São Francisco de Sales escreve: “A castidade é o lírio entre as virtudes; torna os homens semelhantes aos anjos. Nada há belo que não seja puro, e a beleza do homem é a castidade”.

Muitas vezes nas agradáveis manhãs primaveris és arrebatada pelos encantos da natureza. Para onde quer que teus olhos se dirijam, alegram-se com a vida mais luxuriante; montes e vales atapetados de relva fresca banhadas pelos raios dourados do sol. A pomposa florescência das árvores de cujos galhos, cantores alados lançam no espaço, suas canções argentinas. Milhares e milhares de flores abrem as mimosas corolas, exalando suave perfume. Sim, magnífica e admirável é a terra, com seu ornato da primavera.

No entanto muito mais, bela e mais formosa é a alma juvenil que se apresenta pura aos olhos perscrutadores de Deus, não profanada pelo sopro do pecado, espargindo os fúlgidos raios da graça santificante. É tão bela, que os anjos do céu, com grande prazer, a contemplam, e o próprio Deus que com sua bondade onipotente, criou tudo o que há de belo, no céu e na terra, como que encantado com sua magnificência, exclama: “Oh! Quão formosa é a geração casta com seu brilho! Oh! Quão formosa é a geração casta com seu brilho! Imortal é a sua memória e é louvada diante de Deus e diante dos homens” (Sab, 4.1).

O pecado, pelo contrário, que se opões a esta virtude celestial, rouba à alma juvenil, a beleza sobrenatural e torna-a feia aos olhos de Deus. Com razão pois, diz São Boaventura: “Assim como a podridão faz a maça perder a beleza, a cor, o aroma e o sabor, assim também este pecado priva a alma da beleza do merecimento da graça e de toda a sua excelência”. Sim, jovem cristã, ama a pureza do teu coração e guarda-a como a pupila dos teus olhos. Ela te infundirá grande paz interior.

Na noite do Natal cantavam os anjos nos campos de Belém: “Paz na terra aos homens de boa vontade”. Refere-se a ti esta promessa, pois, se fores casta e pura, possuirás seguramente a boa, a melhor vontade. De fato: tua vontade está à vontade infinitamente santa e bem aventurada de Deus. Á voz da tua consciência dás livre e espontânea atenção e pela graça de Deus cooperas fielmente com ela. Como recompensa receberás a paz prometida.

A impureza, pelo contrário introduz na alma desassossego e a inquietação, a confusão e a revolta. Quantos corações dolorosamente agitados, e açulados por causa da sensualidade. Assemelham-se ao mar revolto pela tempestade, cujas ondas parecem fantasmas enfurecidos. Ama, ainda mais que todos os tesouros da terra, a pureza do teu coração e procura conservá-la com o máximo cuidado. Alcançarás assim uma feliz inclinação para todo o bem. Se teu coração for puro e candido, será também moralmente, suscetível a todos os movimentos e inclinações nobres. Teu espírito não será obscurecido pelas paixões. Compreenderás melhor o encanto da graça e mais facilmente e com maior prazer entusiasmar-te-ás pelas coisas elevadas, pela beleza moral. Possuirás também mais coragem e mais força para praticar o bem e sacrificar-te por ele. Com efeito, a castidade é uma força superior e celestial, que levanta o coração acima das próprias fraquezas, unindo-o a Deus; que é a pureza e a força infinitas. Desta união influi sobre o coração casto uma energia cada vez mais nova.

Ao invés não mostra a experiência que a impureza quebra, por assim dizer, as asas à alma juvenil e rouba-lhe todas as forças para os arrancos elevados? Que todo o entusiasmo para o bem para o nobre desfalece no coração envenenado por este vício? Quantas vezes podemos verificar que tais jovens só têm vontade e compreensão para as frivolidades e futilidade, para o gozo e o prazer, para o que é baixo e vil! Quantos pais, professores e educadores não podem, com lágrimas, testificá-los?

Ama principalmente, a virtude da santa pureza. Guarda-a como teu tesouro mais precioso. Por meio dela conservarás, um terno amor a teus pais, a teus irmãos e terás uma vida serena e feliz.

A uma filha, a uma moça, que se mantém pura, será fácil amar os pais e corresponder, fielmente, aos seus deveres para com eles. Seu coração está indizivelmente, dirigido para Deus e para os pais. Depois de Deus as delicadezas especiais são reservadas aos pais, a quem nenhum segredo oculta. Com prontidão infantil cuida de satisfazer os desejos de seus queridos pais, proporcionar-lhes alegria, felicidade e delícias.

A uma pequena indisposição de sua querida mãe, corresponde com os maiores cuidados, que se traduzem nas mais afetuosas expressões. Sucede, ordinariamente, coisa bem diversa à filha, que tem o coração dominado por alguma paixão desordenada! Como podes tratar friamente, com grosseria e aspereza, a mãe que, há vinte anos, ou talvez há mais tempo, vem dedicando-te todo o amor! Já não te lembras das lágrimas que ela derramou por ti, das profundezas feridas que lhe abriste no coração, das amargas aflições que lhe causaste?

Ama a inocência e a pureza do coração e conserva-as com santo zelo, como jóias preciosas, assim poderás contar com um futuro feliz. Para chegares a esses resultados, tem como certo, antes de tudo, que os belos anos de tua mocidade passarão mui rapidamente. Que te aproveitará, então, o haver-te distinguido durante alguns dia e meses, o teres ouvido insípidos louvores; e tomado parte em inúmeras festas e divertimentos, se depois, decorridos, talvez trinta ou quarenta anos, com severa censura de tua consciência, com um olhar retrospectivo ao teu passado sentires a angústia do remorso?

Pensa, portanto, em preparar-te um bom futuro, lançando agora, sólidos alicerces; passa a tua juventude virtuosamente e, sobretudo, conserva-te casta e pura. Assim merecerás os favores de Deus; Ele te conduzirá, te esclarecerá, a fim de com seriedade e recato, atenderes às obrigações do teu estado e não te deixares seduzir por uma paixão cega e alucinante; Ele te abençoará, como o fez ao casto José do Egito.

E, ainda mesmo que não tenha derramado com abundância os bens terrenos sobre a estrada de tua vida, te concederá as suas graças com tanta largueza, que viverás uma vida feliz e um dia com toda a confiança poderás encarar a morte. Se quiseres permanecer casta e pura, deves combater pronta, firme, resolutamente, todos os maus pensamentos e tentações, que sobrevierem contra esta virtude. Apesar de seres boa e virtuosa, teres recebido uma aprimorada educação de teus ótimos pais, possuíres a melhor vontade de passar cristãmente o precioso tempo da tua mocidade, não obstante poderás ser assaltada pelas piores e mais vigorosas tentações.

Consola-te: a tentação nunca e de nenhum modo é pecado, se não consentires nela. Até os maiores santos foram tentados muitas vezes e com violência: São Paulo, apóstolo, que se consagrara todo à causa de Cristo, um São Francisco de Assis, que votava amor seráfico ao Salvador Crucificado, uma Santa Catarina de Sena, tão agradável a Deus por sua elevada pureza.

Assim como o foi para eles, a tentação também será para ti, uma fonte de merecimentos e fortalecerá o teu progresso na virtude, se, como eles a combateres, decididamente. Se acontecer cair sobre a tua roupa um carvão em brasa, não te deténs a olhar como vai o carvão consumindo e devorando o pano. Não, imediatamente, num instante o sacodes fora. É o que te cumpre fazer, se a fagulha de uma tentação impura cai sobre a veste preciosa da graça santificante. Não brinques, pois, com a tentação; logo que a perceberes esforça-te com energia por afastá-la.

Recorre à oração, sobretudo formula no teu interior pequenas, mas vivas e afetuosas jaculatórias, e porfia em passar a outros pensamentos por meio de trabalhos que te distraiam. Assim se afastará a tentação, sem consentires nela, principalmente se permaneceres sempre vigilante sobre a tua vista e, constantemente, em cada ocasião, tomares uma santa e honesta precaução contra ti mesma.

Abstém-te, outrossim, da convivência com certas pessoas, que no seu proceder e conversas são extravagantes e dissolutas. Evita a companhia de moços libertinos… São Francisco de Sales diz: “Os vidros, que, demasiado se aproximam uns dos outros, quebram-se facilmente, e contaminam-se os frutos delicados, quando em contato uns com outros. Nunca permitas a ninguém tocar-te, contra as regras da decência, nem por brincadeira, nem por afagos”.

Se algum importuno quiser tomar contigo certas liberdades, faze como José do Egito: foge, logo que for possível! Se, porém não puderes fugir, clama por socorro e resiste com todas as forças. Determina-te a morrer, de preferência a consentir em qualquer mal. Não te deixes iludir por quem te diga: isto ou aquilo, – que evidentemente é contrário à honestidade e aos costumes cristãos – não tem importância e não é pecado.

Acredita, apenas, no teu catecismo e na voz da tua consciência. Nunca passeies sozinha à noite com um moço, nem permitas excessivas familiaridades com pessoa de outro sexo. Muito, embora, aquela camaradagem possa parecer inocente, no começo, contudo a pureza do coração corre sempre grande perigo. Não te esqueças de que a serpente, que fere mortalmente, gosta de se esconder sob a relva macia e entre as variegadas flores. Não fomentes, portanto, amizade alguma, demasiado prematura e sem vigilância.

Teus pais, que muito se interessam pelo teu bem e felicidade e que, por sua mais larga experiência da vida, mais facilmente conhecem as pessoas e as relações, saberão aconselhar-te a tempo, quando alguém te pretender. Sem que eles o saibam, não deves travar semelhantes relações.

Familiaridade só haja quando a séria intenção e perspectiva de casamento próximo a justifique, e ainda neste caso, não deve faltar à conscienciosa vigilância dos pais ou de outros bons parentes cristãos, para prevenir, o mais possível, qualquer perigo e ocasião de pecado. Ah! Quantas donzelas no dia de suas núpcias, censuram-se amargamente, ao pensar como se preparam tão mal para o casamento, por terem permitido namoros tão leviano e demasiado livre! Quantas há que dão este passo de extrema importância, sem Deus e sem a sua santa benção, fundam uma família, em que não reina paz, nem virtude, nem verdadeira felicidade!

Quantas há que no leito de morte, ao pensarem nos pecados que cometeram antes do casamento, foram atormentadas pelas duras exprobrações da consciência e aguardaram a morte com inquietação e pavor! Se queres casar, faze que, no dia de teu casamento, o divino Salvador, de modo invisível, mas real, do altar, estenda Suas mãos e derrame sobre ti e teu esposo a plenitude de Suas mais preciosas bênçãos, para viverdes em matrimônio feliz e virtuoso. Esforça-te para que não tenhas, algum dia remorsos de consciência, ao lembrar-te do tempo do teu noivado.

Eis porque deves estabelecer os seguintes princípios: evita, quando puderes, até a sombra do pecado; precisamente no tempo do teu noivado, reza com muita regularidade e devoção, com diligência maior e melhor do que antes; honra e venera muito a Santíssima Virgem, coloca-te amiúde debaixo de Seu manto e sob a proteção de São José; recebe mais amiúde e com ótimas disposições, os santos sacramentos, e procura, também estimular a isso o teu noivo. No transcorrer desse tempo tão belo e feliz para ti, mas, por outro lado, tão sério e tão importante, exercita-te mais facilmente do que antes, nas boas obras, sobretudo, nas obras de misericórdia e caridade.

Que bom seria se, no dia de teu casamento, muitos pobres e doentes, que conheceram o teu coração nobre e generoso, implorasse as bênçãos do céu sobre ti! Ser-te-ia muito mais útil do que todo o brilho externo e os alegres banquetes e festas, que em regra se fazem no dia das bodas, embora eu não queira afinal censurar tal costume, quando se festeja as núpcias de maneira cristã e se exclua todo o pecado. Por amor a santa pureza, evita também o mais que puderes, os bailes. Desfalece e extingue-se neles a inocência. Não poderás, talvez, esquivar-te da dança, e de algum baile, mas participa deles o mais raro possível. Nunca tomes parte dos que forem escandalosos; em quaisquer circunstâncias, vai sempre acompanhada de teus pais, ou de outras pessoas conscienciosas.

O manso e suave São Francisco de Sales, que não gostava de impor a outrem exigências rigorosas, manifestou-se contrário às danças e aos bailes, com estas palavras: “Digo dos bailes o que os médicos dizem dos cogumelos; os melhores não valem nada; assim também, as danças mais inocentes não têm valor algum. Pelo que, jamais se hão de permitir tais divertimentos, nem mesmo em caso de necessidade e com a maior precaução”. Ouçamos ainda a tal respeito a opinião de um estadista, o conde de Bussy Barbutin.

Em 1620, o bispo de Autun, que desejava transmitir aos seus diocesanos por meio de uma carta pastoral, a são doutrina sobre os bailes, perguntou-lhe se esses divertimentos nas classes elevadas e educadas não seriam talvez inofensivas. O referido conde respondeu ao bispo do seguinte modo: “Sempre tive por perigosos os bailes; não só o meu bom senso, mas ainda a minha experiência, conduzem-me a esta conclusão, e embora seja de grande valor o testemunho dos Padres da Igreja, penso, contudo, que nesta matéria, pesa mais a opinião de um estadista. Bem sei que, para algumas pessoas há menos perigo do que para outras; não obstante, os temperamentos mais frios aí se inflamam. Em regra, esta espécie de divertimento é preferido pela mocidade que a muito custo logra vencer as tentações, dificuldade que mais se agravam em tais ambientes. A minha opinião, portanto, é que um bom cristão não deve ir a nenhum baile”.

Finalmente, donzela cristã nunca leia livro, jornal ou revista, que contenha coisas lúbricas ou pensamentos e versos ambíguos, de dúbio sentido que se prestem a uma interpretação pouco decente. Muito embora seja magnífica a linguagem ou estilo, não te deixes, todavia aliciar e corromper. O veneno é sempre veneno, ainda que esteja num artístico frasco dourado. Extremamente pernicioso para a moralidade são tais romances, sobretudo os romances de amor livre. Quantas donzelas não depravaram o próprio coração com essas leituras e encheram a cabeça de idéias extravagantes e falsos conceitos da vida! Eis porque admoesta Santo Afonso com grande energia: “Proibi, pais de família, aos vossos filhos, com máximo rigor, que leiam romances, os quais deixam, na infeliz mocidade, torpes impressões que lhes roubam a piedade e a excitam ao pecado”.

O que se diz dos livros maus, pode-se aplicar também às figuras e estátuas imorais. Não as encares, não as examines de perto. São de algum modo ainda mais danosas para a virtude, que os escritos e as conversas desonestas. O que se vê produz uma impressão ainda mais profunda do que aquilo que se lê ou se ouve. Não te detenhas, portanto, em frente de mostruários, onde se expõem coisas capazes de ofender os olhos castos. Alerta, pois e guarda-te que, por desgraça, hoje se encontram nas revistas, nos artigos de comércio e nos móveis, as figuras mais torpes e vergonhosas.

Quanta donzela honesta, houve que preferia morrer a cometer uma ação impura, foi perdendo aos poucos, pela contemplação de tais figuras, o delicado pudor e aversão ao pecado e se despenhou, por fim, no abismo do vício! Que o dano e o prejuízo das incautas te sirva de aviso! Seja precavida, evita, com toda a atenção, os perigos. Freqüenta a sagrada Comunhão. Cultiva amor filial e devoção à Santíssima Virgem Maria, assim transcorrerá, pura e feliz, tua mocidade, e conservarás intacta a inocência até o dia do casamento ou até à hora da morte, se não quiseres contrair matrimônio.

Donzela Cristã, Padre Matias de Bremscheid, 1935.

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