Esconder-se com Cristo em Deus

Ó Jesus, ajudai-me a esconder-me das criaturas para penetrar mais na Vossa intimidade divina.

1 – Quando se fala da vida oculta de Jesus não se deve entender apenas o Seu viver escondido aos olhos dos homens, encobrindo-lhes a Sua divindade e fugindo da Sua glória; mas, ultrapassando as relações externas com as criaturas é necessário penetrar no segredo do Seu Coração onde, oculta a todo o olhar humano, se desenvolve uma vida escondida muito mais sublime. É a Sua vida interior, vida de relações íntimas com a Trindade. A alma santíssima de Jesus, unida pessoalmente ao Verbo, goza incessantemente da visão beatífica: vê o Verbo como sujeito de toda a Sua atividade, vê o Pai como fonte do Seu Ser, vê o Espírito Santo que habita nela como “no Seu templo preferido” e que, revestindo-a com a chama do Seu amor, a leva para Deus no pleno cumprimento da Sua vontade. Exteriormente, Jesus vive com os homens trata com eles como se fosse um deles, mas a Sua verdadeira vida, a vida de Filho de Deus, vive-a – oculta a todo o olhar humano – com a Trindade, na Trindade. Eis a finalidade da imitação da vida oculta de Jesus: participar na Sua vida interior, ou seja, esconder-se “com Cristo em Deus” a fim de penetrar com Ele no santuário da Trindade sacrossanta. Era o que exprime Sta Teresa Margarida no seu ardente desejo de “imitar, pela fé, quanto é possível a uma criatura, a vida e a atividade interna e oculta da Humanidade santíssima de Jesus Cristo, unida hipostaticamente ao Verbo” (Sp. pg. 374).

A prática da vida oculta tem, portanto, dois aspectos. O primeiro, negativo e sobretudo exterior, que consiste em esconder-se aos olhos dos outros e também aos próprios, isto é, em morrer para a glória e para as honras terrenas; o segundo, positivo e todo interior, que consiste em concentrar-se em Deus, numa vida de íntimas relações com Ele. O primeiro aspecto é a condição e a medida do segundo: quanto mais a alma souber esconder-se das criaturas – e também de si mesma – tanto mais será capaz de viver “com Cristo em Deus”, segundo a bela expressão de S. Paulo: “Estais mortos – mortos ao mundo e às suas vaidades – e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Col. 3, 3).

2 – “Meu Deus… agora e para sempre quero encerrar-me no Vosso amantíssimo Coração, como num deserto, para aí viver em Vós, conVosco e para Vós, esta vida escondida de amor e de sacrifícios”. Assim concretizava Sta Teresa Margarida o seu ideal de vida escondida com Cristo.

A alma que se exercitou longamente na parte exterior e negativa da vida escondida, ou seja, que com fidelidade constante soube esconder-se aos olhos das criaturas, está livre e pronta para se esconder com Cristo em Deus. Essa alma não gasta já as suas energias a procurar a estima e as satisfações humanas; sob este ponto de vista, as criaturas tornaram-se para ela um nada e pode bem dizer que “as coisas criadas, quer suas quer dos outros, não lhe causam mais aborrecimento e enfado do que se não existissem” (T>M> Sp. pg. 373). Conseguiu pois a liberdade soberana do espírito, que lhe permite concentrar-se totalmente em Deus. Exteriormente, a sua conduta não tem nada de extraordinário, pelo contrário, o cuidado que põe em se esconder aos olhos dos outros fá-la passar muitas vezes despercebida. Muitos a terão por uma pessoa de pouco valor, mas no íntimo do seu coração desenvolve-se uma vida interior riquíssima, só por Deus conhecida. Unida a Jesus, nEle, com Ele e por Ele, participa da Sua vida trinitária. Isto significa atingir a plenitude, o fim da vida cristã, por que exatamente a graça foi-nos dada para nos fazer participar da natureza, e portanto, da vida divina, da vida do próprio Deus-Trindade. Foi para isto que o Verbo incarnou. Jesus, morrendo sobre a cruz, mereceu-nos a graça, enxertou-nos em Si, para nos reconduzir conSigo ao seio da Trindade, donde nos tínhamos afastado pelo pecado. Podemos assim, não pelos nossos méritos nem pela nossa capacidade, mas só por estarmos enxertados em Cristo, penetrar com Ele e por Ele – nosso Mediador, nossa Ponte, nosso Caminho – na vida íntima de Deus, na vida trinitária. A fé e a caridade que jesus nos mereceu juntamente com a graça, tornam-nos capazes de entrar em relações com as três Pessoas divinas, de modo que podemos realmente viver “escondidos com Cristo em Deus”.

A vida escondida em Deus é o grande atrativo das almas interiores e, para chegar a vivê-la, sentem-se felizes em se ocultarem aos próprios olhos e aos dos outros, fugindo de toda a sombra de glória terrena. Ditoso escondimento que introduz a alma na “vita abscondita cum Christo in Deo”!

Colóquio – “Sim, ó Jesus, nada mais pretendo que tornar-me uma perfeita cópia Vossa, e porque a Vossa vida não foi senão uma vida oculta de humilhação, de amor, de sacrifício, também doravante assim deve ser a minha. Por isso quero encerrar-me no Vosso amabilíssimo Coração, de uma vez para sempre, como num deserto, a fim de aí viver em Vós, conVosco e para Vós esta vida escondida de amor e de sacrifício. E já que inspirastes ao meu coração este desejo de me tornar, tanto quanto possível, em tudo semelhante a Vós, para isso tenderão todos os meus esforços e farei por Vos imitar particularmente nas virtudes que mais agradam ao Vosso amabilíssimo Coração: humildade… e pureza de intenção, tanto no interior como no exterior, agindo sempre com espírito de simplicidade” (T.M. Sp. pg. 324).

Ó Jesus, dignai-Vos abrir também para mim o Vosso dulcíssimo Coração e deixai-me refugiar nele para viver conVosco escondido em Deus. A vida exterior, a vida de esplendor e glória terrenas já não tem atrativo algum para mim; porventura não é tudo vaidade, não é tudo uma fugaz sucessão de circunstâncias que em breve não mais existirão? A única vida que me atrai e que permanecerá para sempre acima de toda a contingência terrena, é a da íntima união com Deus. É este o grande tesouro que me ofereceis pelos méritos da Vossa Paixão. Contemplo-Vos na Cruz, ó Jesus, com o peito rasgado pela lança, como que a dizer-me que a Vossa morte me abriu as portas do Vosso Coração para me admitirdes no santuário da Vossa vida interior. A Vossa morte, com efeito, enxertou em Vós a minha pobre vida humana, para a tornar participante da Vossa vida divina, vida de íntimas relações com a Santíssima Trindade. Esta sim, ´a vida verdadeira, vida perene, vida eterna. É a esta vida que eu aspiro, não pelos meus méritos, mas pelos méritos da Vossa Paixão. Ó Jesus, fazei que ei só procure a minha alegria, a minha felicidade nesta participação da Vossa vida interior e que ponha nela toda a minha glória.

Sim, fazei que toda a minha glória esteja no interior, no segredo da minha vida escondida conVosco em Deus.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Este texto foi útil para você? Compartilhe!

Deixe um comentário