Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

Festa da Anunciação de Nossa Senhora

Antiquíssima é a festa que a Igreja celebra hoje, e tem o nome de Anunciação de Nossa Senhora pelo seguinte motivo: Estava no plano de Deus, que a segunda Pessoa da Santíssima Trindade salvasse o gênero humano e para este fim tomasse a natureza humana. Tendo chegado o momento escolhido desde a eternidade para a realização deste grande mistério, o arcanjo S. Gabriel foi incumbido da missão de comunicá-lo a Maria, santa donzela, que residia em Nazaré e que era descendente do rei David. Foi o mesmo arcanjo que, havia 400 anos, tinha anunciado a vinda e a morte do Messias ao profeta Daniel e poucos meses atrás comunicado ao sacerdote Zacarias o nascimento do precursor. Maria, casada com José, homem justo, como ela da casa de David, em virtude de um voto que havia feito a Deus, vivia com ele em perfeita e virginal castidade. Entre todas as mulheres do mundo a SS> Trindade tinha escolhido esta para Mãe do Messias prometido e por este motivo, não resta dúvida, foi que a enriqueceu de tantos privilégios e graças, que em santidade a elevara acima de toda criatura humana. A Virgem, por Deus tão privilegiada, achava-se em oração, quando o arcanjo entrou no seu aposento. Não é destituída de razão a opinião de Santos Padres que supõem que o objeto da oração de Maria tivesse sido o que interessava vivamente a nação inteira: a vinda do Messias. O arcanjo saudou-a com estas palavras: “Ave, Maria, cheia sois de graça, o Senhor é convosco; bendita sois entre as mulheres.” Maria, ao ouvir esta saudação, assustou-se. O arcanjo, porém, prosseguiu: “Nada temais, Maria! Achastes graça diante de Deus. Eis, concebereis e dareis à luz um filho a quem poreis o nome de Jesus. Este será grande chamar-se-á Filho do Altíssimo e Deus lhe dará o trono de seu pai David e ele reinará eternamente na casa de David e seu reinado não terá fim.”

O que se passou na alma da Santíssima Virgem, ao ouvir estas palavras, das quais cada uma encerra um mistério insondável, é mais fácil imaginar-se do que exprimir-se em palavras. Maria não se perturbou e perguntou ao arcanjo: “Como se fará isto, visto que eu não conheço homem?” Estas palavras não eram a expressão duma dúvida que a SS. Virgem tivesse do que o arcanjo dissera: eram antes a linguagem da humildade, que não podia supor que Deus a tivesse escolhido para tão alta dignidade, eram ainda o reflexo da sua perplexidade, em não saber como havia de conciliar a maternidade com a virgindade votada a Deus. S. Gabriel esclareceu-a imediatamente sobre este ponto, mostrando-lhe que ser mãe não implicaria seu estado de virgem e disse: “O Espírito Santo virá sobre vós e a virtude do Altíssimo vos obumbrará.” Ao ouvir esta declaração, Maria Santíssima, com toda humildade se sujeitou à vontade divina e disse: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo vossa palavra.” No mesmo momento realizou-se o grande mistério da encarnação. O Verbo de Deus se fez carne, o verdadeiro Filho de Deus tomou a natureza humana. A palavra de Maria significava para Deus a maior humilhação, para ela, porém, a elevação à mais alta dignidade. O Filho unigênito de Deus se fez homem; Maria Santíssima veio a ser Mãe de Deus, sem com isto perder sua virgindade.

Os Santos Padres são unânimes em afirmar que a Encarnação do Verbo de Deus é de todos os mistérios o maior e nele todos os demais se encerram; é um mistério que transcende nossa compreensão, um mistério, de que refletem as mais altas perfeições de Deus, como sejam sua sabedoria, caridade e misericórdia. Na Encarnação se revela a sabedoria divina, pois inteligência nenhuma a não ser a divina poderia ter descoberto a paz entre Deus e a criatura; a Encarnação é a revelação da caridade e misericórdia divinas, porque outro princípio não teve, senão a infinita bondade de Deus para com os homens. O Pai Divino manda seu Filho unigênito ao mundo para salvá-lo pelo amor. O Filho de Deus desce do céu para salvar o mundo pelo amor. O Espírito Santo, o eterno amor, prepara aquele santo corpo que será dado como vítima da salvação, “tanto Deus amou ao mundo.”

O dia da Anunciação foi o grande dia, pois que o anelava o mundo inteiro. No dia de hoje se realizaram os desejos, suspiros e profecias dos patriarcas e profetas do antigo Testamento. “Céus, enviai o rocio do alto, e vós, nuvens, o justo como chuva salutar; abra-se a terra e apareça o Senhor.” (Is. 45, 8). “Vinde, Senhor, não tardeis mais.” – “Levantai-vos, Senhor, no vosso poder e vinde para nos salvar.” (Ps. 17). Nestas e outras preces exprimiram os antigos seu ardente desejo de ver o Messias. Hoje comemoramos a data em que o Filho de Deus desceu ao seio da Virgem Mãe; daqui a poucos meses vê-lo-emos reclinado na manjedoura e mais tarde o acharemos no altar da cruz pra, com o preço do seu Sangue, resgatar o gênero humano.

Que gratidão não devemos à infinita bondade de Deus e à sua misericórdia divina! Os anjos, segundo o testemunho de S. Paulo, (Hebr. I, 6)

no dia de hoje, admiraram o grandioso mistério da Encarnação realizado nas puríssimas entranhas da Santíssima Virgem. Muito mais razão temos nós para fazer o mesmo hoje e todos os dias da nossa existência. Esta homenagem tão digna quão justa podemos prestá-la na Santa Missa e no toque do “Angelus”. Pronunciando as palavras: “e o Verbo se fez carne” o sacerdote dobra o joelho em profunda adoração ao augusto mistério. O mesmo ele faz, quando recita as palavras do Credo: “E encarnou por obra do Espírito Santo, e de Maria Virgem se fez homem.” Com este cerimonial a Igreja nos quer lembrar o grande mistério, que merece todo o nosso respeito, toda a nossa gratidão e todo o nosso amor. O toque do “Angelus” não tem outro fim a não ser o de incutir-nos na memória o mistério fundamental da nossa santa religião, para que dele nunca nos esqueçamos e o veneremos todos os dias com muito acatamento. Só os hereges, ímpios e maus católicos têm sorriso e escárnio para estas piedosas práticas, tão caras ao coração do fiel e tão agradáveis a Deus e a sua Santa Mãe.

Maria, tão privilegiada por Deus, escolhida entre as demais mulheres, merece toda a nossa veneração. É opinião de Santo Anselmo e de outros Santos Padres que criatura alguma em tempo algum alcançou tão alta dignidade como Maria Santíssima, sendo Mãe do Altíssimo. Como Mãe de Jesus Cristo ela está acima de todos os anjos e santos do céu, que nela reconhecem e veneram sua gloriosa Rainha. Podemos negar nossa homenagem, respeito e amor a quem foi honrada, enaltecida e amada por Deus como Maria Santíssima, por ele foi distinguida? Como é ingrata, injusta e desapiedada a religião que nos quer negar este direito e colocar a augusta Mãe de Deus ao nível de simples criatura cheia de miséria e pecado!

Como bons católicos devemos ser filhos gratos e devotos de Maria Santíssima. No momento em que ela foi elevada à dignidade de Mãe de Deus, ficou sendo também nossa Mãe, porque, pela Encarnação, Jesus Cristo se dignou ser nosso irmão. Fazendo esta consideração, Santo Anselmo escreve: “Se Jesus Cristo é irmão dos fieis, há um motivo porque sua Mãe não possa ser também nossa Mãe?” A ela pois devemos dirigir-nos como filhos à Mãe, com amor, confiança e gratidão. Nunca se ouviu dizer que Maria tivesse abandonado aqueles que, confiantes, a invocaram em suas necessidades.

REFLEXÕES

O dia de hoje deve ser de grande alegria para todos os católicos, que se sentem felizes em ser filhos de Maria. Ser filho de Maria é uma honra para nós. Se Maria nos honra com seu amor e proteção, nós a devemos honrar com uma vida santa e digna de cristão. “O Senhor é convosco” disse o Arcanjo a SS. Mãe de Deus. Oxalá o nosso anjo possa dizer-nos as mesmas palavras: “O Senhor é contigo.” Seria esta a maior satisfação que Maria, nossa Mãe, poderia ter, vendo-nos benditos do Senhor, protegidos, abençoados e queridos por Deus. Para que o nosso anjo um dia nos possa apresentar a Maria Santíssima na glória eterna e dar-lhe a satisfação de nos abraçar e estreitar-nos contra o coração como benditos do Senhor, imitemos as virtudes de nossa Santa Mãe e procuremos ser verdadeiros servos e servas de Deus.

Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume I, 1928.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico