Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

Leitura para a Festa do Puríssimo Coração de Maria

O Coração de Maria é toda pureza; é “a irmã, a amiga, a pomba, a imaculada” de Deus; é “a pomba eleita, a única perfeita”; é o próprio “candor da luz eterna, o espelho imaculado da majestade de Deus, a imagem da sua bondade”. (Eccl. 7. 26). O Coração de Maria é tão puro que teve o mérito de subministrar o sangue ao Verbo incarnado. Deus, que “jamais entrará numa alma de má fé, e jamais habitará num corpo sujeito ao pecado· (Sap. 1. 4) não se teria certamente incarnado em Maria, se ela não fosse a própria pureza em pessoa. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus”, (Mth. 5. 8) proclamou Jesus Cristo. Pois bem: Maria, que não só vê continuamente Deus feito homem, mas vive da mesma vida e imprime as primeiras palpitações ao Coração de Jesus, deve possuir uma “pureza tal que depois da de Deus há de ser a maior. (Santo Anselmo).

Quanto mais puro é um coração, tanto maior deve ser e é seu amor de Deus: o Coração de Maria, livre de afetos terrenos, era todo de Deus, disposto a arder do santo fogo que Jesus tinha vindo trazer para a terra. O Coração de Maria tornou-se assim todo fogo e todo chama: fogo pelo amor que lhe ardia na alma; chama pelos esplendores de virtude que manifestava. “Maria era toda inflamada pelo Espírito Santo, como o ferro pelo fogo, de maneira que nela não se via senão a chama do Espírito Santo, outra coisa não sentia senão o fogo do divino amor”. (S. Ildefonso).

Maria foi criatura, que melhor que todos e de um modo especial soube reunir em si os valores da vida contemplativa e a ativa ao mesmo tempo, – a única que podia dizer a si própria: “Eu durmo, mas meu coração é vigilante”. (Cant. 5. 2).

Maria, feita Mãe do Salvador, veio a ser Mãe também de todos os homens por Ele salvos; como Mãe, não só de S. João, mas de todos os homens, foi solenemente proclamada no Calvário com estas palavras: “Eis ai teu filho – Eis ai tua Mãe”. (Jo. 19. 26).

Como entre os Santos não haja quem mais ame a Deus que Maria, assim depois de Deus não pode haver quem mereça mais o nosso amor, que esta amorosíssima Mãe. Se grande é o amor natural que uma mãe tem a seu filho, quanto maior não deverá ser o amor sobrenatural que Maria nos tem a nós, seus filhos regenerados pelo sangue de Jesus! A seu respeito se pôde repetir o que Jesus dizia do Pai Eterno: “Amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito”. (Jo. 3. 16). – Deu-no-Lo, quando lhe pedia o consentimento para ir à morte; deu-no-Lo quando entre o ódio dos inimigos e o pavor dos discípulos só ela podia defende-Lo diante dos juízes; a palavra de uma mãe como ela, tão sabia, tão carinhosa, grande força teria exercido sobre os corações, mormente sobre Pilatos, que publicamente declarara a inocência de Jesus; deu-no-Lo, quando, ao pé da cruz, naquelas três horas de agonia outra coisa não fez senão sacrificar, com muita dor, mas também com muito amor a nós a vida do Filho primogênito, para salvar-nos da morte do pecado.

O coração materno de Maria sacrificou o Filho primogênito em favor de nós, seus filhos também, bem sabendo que para Jesus, depois da ignominia da cruz viria o triunfo da ressurreição, e que nós seriamos assim resgatados pelo seu preciosíssimo sangue.

O Coração maternal de Maria continua no céu a unir-nos a Jesus em uma palpitação de amor. “Se já aqui na terra foi grande em Maria o amor aos miseráveis, muito maior será agora, sendo ela Rainha do céu” (S. Boaventura). Agora, conhecendo ela melhor as nossas misérias, mais facilmente poderá nos auxiliar.

“Maria, diz S. Bernardo, realmente é tudo para todos: a todos abre o seio da sua misericórdia, para que todos recebam da sua plenitude: o escravo resgate, o enfermo saúde, o aflito consolação, o pecador perdão, de modo que não há quem se possa subtrair ao seu calor”.

O Coração de Maria é semelhante ao Coração de Jesus. Maria pode dizer a Jesus como disse o Pai Eterno: “Tu és meu Filho, eu te gerei”. (Ps. 2. 7) Maria tem, como o Pai, por Filho a segunda pessoa da SS. Trindade. – Um Deus deve cumular sua mãe de dons e de graças dignas de si tanto em qualidade e quantidade. A mãe deve ser semelhante ao filho, como o filho à mãe. “A humanidade, de Jesus Cristo, por ser unida a Deus e à Beatíssima Virgem, por ser Mãe de Deus, têm uma certa dignidade infinita proveniente do bem infinito que é Deus”. (S. Thomaz de Aquino.)

Maria, como foi a maior criatura depois de Jesus, também depois de Jesus foi a mais humilde de todas as criaturas. Conhecia bem os singulares favores recebidos do Senhor; sabia-se muito bem “a Senhora cheia de graça”; sabia que era Mãe de Deus; no entanto professa-se simples e humildemente a “serva do Senhor”.

Nós, como o fariseu da parábola, somos solícitos em confrontar-nos com outros que nos parecem maiores pecadores e mais miseráveis que nós. Maria, porém, à semelhança de Jesus, confrontava sua humildade com a infinita grandeza e bondade de Deus e se abismava na sua pequenez de criatura. Maria se perturba ao ouvir-se saudada por um arcanjo; a Santa Isabel que a proclama bendita e feliz, Maria responde, atribuindo a Deus toda a glória, com o “Magnificat”. “A minha alma glorifica o Senhor”. (Luc. 1. 46 – 57). Permanece três meses em casa de Santa Isabel, porque, a semelhança de Jesus, não tinha vindo para ser servida, mas para servir”. (Me. 10. 45). Esconde a todos, também ao seu esposo José, a graça de ter sido feita Mãe de Deus, mesmo quando parece necessário desvendar-lhe o grande mistério. Não aparece quando seu Filho é recebido com todas as honras pelo povo de Jerusalém; no Calvário ela está para mostrar ao mundo inteiro, que ela é a Mãe desse condenado, que morre uma morte infame e cheia de ignominia.

À semelhança de Jesus, o Coração puríssimo de Maria na glória celeste não se esquece dos pobres, seus filhos: e como Jesus no céu, está à mão direita de Deus Pai, “vivendo sempre, intercedendo por nós”. (Hebr. 7. 25).

Jesus é o fiel e poderoso Mediador entre Deus e os homens: diz S. Bernardo; mas em Jesus os homens tem a temer a divina majestade; necessitam de alguém outro que interceda junto ao nosso Mediador. Ninguém melhor que Maria poderia desempenhar este encargo”.

O Coração puríssimo de Maria, adornado das mesmas virtudes e palpitando dos mesmos afetos do Coração de Jesus, é o coração de uma criatura, a qual, se bem que esteja exaltada sobre todos os anjos, não foi todavia exaltada como Jesus à igualdade de Deus e a união com Deus em uma pessoa.

“Em Maria nada há de severo, nada de terrível; nela tudo é suavidade”. (S. Bern.) O Coração de Jesus é sempre o Coração de um Deus: o Coração de Maria é só e só o coração da mais mansa e da mais amável das criaturas.

Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume II, 1935.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico