Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
William Holman Hunt, Em oração [Detalhe], 1866, Domínio Publico - Wikimedia Commons

Esconder-se de si mesmo

Ó Jesus que, inteiramente esquecido de Vós, Vos consagrastes à glória do Pai, ensinai-me a esquecer-me de mim.

1 – Para entrar na plenitude da vida escondida, não basta ocultar-se aos olhos dos outros, é necessário também ocultar-se de si mesmo, isto é, esquecer-se de si, evitando toda a preocupação e retorno egoísta sobre si mesmo. Podemos estar preocupados conosco de uma maneira material e grosseira, mas também o podemos estar sob o ponto de vista espiritual. preocupar-se demais com o próprio progresso espiritual, com as consolações que Deus concede ou não, com o estado de aridez em que nos encontramos, etc., é muitas vezes indício de um sutil egoísmo espiritual, é indício de uma alma mais preocupada consigo do que com Deus. É o momento de aprender a esquecer-se, a esconder-se de si mesma, não querendo examinar demais o que se passa no seu interior, não lhe dando muita importância e renunciando também à satisfação de querer dar-se conta do próprio caminho interior. É bom saber que não é raro Deus permitir estados penosos e obscuros precisamente porque quer que a alma viva escondida de si mesma. Era este o programa de Sta Teresa Margarida que não só pretendia por assim dizer, “viver invisível e despercebida” entre as suas irmãs, mas ainda “viver, de certo modo, oculta e ignorada de si própria, morrer a si própria sem o saber e sem saborear prazer algum nessa morte mística, espiritual, sepultando sutilmente em Cristo todo o pensamento e toda a reflexão sobre si própria, mesmo espiritual e eterna”. É o propósito explícito do completo esquecimento de si que inclui também a renúncia à satisfação espiritual de ter consciência da própria imolação. Mas para evitar este debruçar-se sobre si, a alma deve necessariamente polarizar noutra parte todas as suas aspirações; por isso o exercício negativo de não pensar mais em si, deve ir a ar com o positivo que é centrar-se em Cristo, “sepultar em Cristo” todo o pensamento, toda a preocupação, mesmo espiritual, consigo própria. Ninguém conseguirá deixar de se preocupar consigo mesmo se não se fixar no objeto do seu amor. Sta Teresa Margarida esqueceu-se totalmente de si, sepultando “em Cristo”, seu único Amado, o seu pensamento.

2 – A alma esquecida totalmente de si é também totalmente desinteressada. Já não serve a Deus com espírito mercenário, olhando mais para a recompensa que há de receber do que para a Sua glória, mas “serve-O gratuitamente, como os grandes senhores servem os reis”, segundo a bela expressão de Sta Teresa de Jesus (Cart.) Tal deve ser a atitude da alma de vida interior que, tendo sido chamada por Deus à Sua intimidade, não há de agir como mercenária, mas como filha, como esposa. Eis um dos frutos mais preciosos da vida oculta.

S. João da Cruz ensina que: “Agrada mais a deus uma obra, por pequena que seja, feita ás escondidas e sem desejo que se saiba, do que mil feitas com desejos de que os homens as saibam porque, quem trabalha por Deus com amor puríssimo, não somente não se lhe dá que os homens O vejam, mas nem mesmo faz as obras para que Deus as saiba e mesmo que nunca Ele as viesse a saber, não deixaria de prestar-Lhe os mesmos serviços e isto com a mesma alegria e pureza de amor” (AM. I, 20). O mesmo delicado pensamento encontramos em Sta Teresa do Menino Jesus: “Se, o que é impossível, o bom Deus não visse as minhas boas obras, não me afligiria. Amo-O tanto que quereria poder dar-Lhe prazer pelo meu amor e pelos meus pequenos sacrifícios ainda que Ele não soubesse que eram meus” (CL).

Esta absoluta pureza de intenção faz com que a alma trabalhe unicamente por Deus e nunca pelo seu próprio interesse, mesmo espiritual. Certamente Deus recompensará as boas obras, mas este cuidado deve ser totalmente abandonado ao Seu beneplácito, enquanto a alma se ocupa só em dar-Lhe prazer. Avida oculta culmina assim num sublime desinteresse, não só no que se refere ás recompensas e louvores humanos, mas também às consolações espirituais. É então que a alma procura só a Deus e Deus só lhe basta. E se Deus, parecendo não dar conta do seu amor e dos seus serviços, a deixa na aridez e no abandono, não se preocupa nem se detém por isso, porque o único motivo que a impele a agir é contentar somente a Deus.

Colóquio – Ó meu Deus, ensinai-me a esquecer-me de mim, a lançar em Vós toda a preocupação, todo o cuidado excessivo comigo mesmo. Porque quero servir-Vos, Senhor? Porque quero amar-Vos e progredir no caminho da santidade? talvez para minha satisfação, para meu interesse ou vã complacência? Oh! que mesquinha seria uma vida espiritual com fins tão baixos e tão vãos! Não, meu Deus, Vós criastes-me para a Vossa glória, pelo-Vos humildemente que me deixeis viver só para a Vossa glória, acima de todo o interesse e satisfação pessoal.

Não é já bastante grande a honra que me fazeis, permitindo que uma criatura tão vil e miserável como eu possa dirigir a sua vida par aa Vossa glória? Que um pobre verme, como eu sou, possa glorificar-Vos, Deus altíssimo, perfeição infinita? Que procuro eu ainda além disto, Senhor? Valerá mais contentar a criatura ou o Criador, contentar-me a mim mesmo ou ao meu Deus? Senhor, quero servir-Vos e contentar-Vos só a Vós, quero dar-Vos gosto só a Vós, pondo nisso o meu gosto e o motivo da minha alegria. Compreendo que, se me conduzis por um caminho árido e obscuro, se permitis que muitas vezes as trevas se tornem mais densas em torno de mim é porque me quereis ensinar a servir-Vos com pureza de intenção, procurando unicamente a Vossa satisfação e não a minha. Se permitis que continue a exercitar-me na vida interior, na prática da virtude, sem ver nenhum resultado, se mantendes escondidos os meus pobres progressos, é porque me quereis estabelecer na humildade. Se tivesse mais luz, se o trabalho da Vossa graça fosse mais manifesto em mim, talvez, me vangloriasse, me viesse a comprazer em mim, o que impediria o meu ímpeto para Vós, único objeto das minhas complacências.

Que admirável sois, ó Senhor, nos Vossos caminhos! Bendita seja esta obscuridade interior que me livra dos perigos do orgulho espiritual. não, meu Deus, não Vos peço que mudeis o meu caminho; rogo-Vos, pelo contrário, que me continueis a conduzir assim, por um caminho de completo escondimento, não só aos olhos dos outros, mas também aos meus. Se, pela Vossa graça, há em mim algo de bom, que isso sirva para alegrar os Vossos olhos e não os meus que, comprazendo-se vãmente, poderiam arruinar tudo num instante. Guardai-me, Senhor, à sombra das Vossa asas, ensinai-me a servir-Vos desinteressadamente, por puro amor; ensinai-me a esquecer-me de mim, a sepultar em Vós toda a preocupação comigo mesmo, a confiar com pleno abandono, a minha alma nas Vossas mãos. Ei-la, Senhor, eu vo-la entrego para que a guardeis; quero perdê-la em Vós e em Vós hei de novamente encontrá-la revestida da Vossa beleza.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico