Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Igreja Católica, Vaticano

A Intolerância da Igreja: Parte 1 – Em Que Sentido É Intolerante?

Algumas das acusações que se fazem contra a Igreja

Nunca a Igreja, santa em seu Fundador e sempre pura na sua doutrina e na sua moral, deixou de encaminhar os seus filhos para a prática das mais belas e até das mais heróicas virtudes. E, por isso, não obstante as fraquezas da humanidade e a grande força das paixões, jamais deixou de haver ente os católicos uma grande multidão de santos, de apóstolos, de mártires, de homens de grande e nobre caráter, incapazes de baixezas e prontos a levar a cabo obras da mais subida perfeição e da mais sublime caridade. Mas não deixa o cristão de ser um homem livre, e nem a graça do batismo, nem também a do sacerdócio aniquilam as propensões que o puxam para o mal. Mesmo no colégio apostólico, houve quem atraiçoasse o divino Mestre. E no correr dos séculos houve sacerdotes, bispos e até Papas, que faltaram às obrigações do seu estado.

E o que se segue daí? Que é falsa a sua doutrina? Mas nunca a esta doutrina nem à Igreja docente foi jamais concedido o privilégio da impecabilidade. Que ela seja impotente para produzir os frutos de virtudes, que ela própria preconiza? Ainda nos tempos mais corruptos contou entre seus filhos santos eminentes que conseguiram reagir contra a corrupção dominante e reformar a sociedade.

Em lugar, porém, de admirarem estes prodígios de virtude, operados pela graça sobrenatural num sem número de almas, apesar da impetuosidade das paixões, dão-se os inimigos do catolicismo, com grande afã, a rebuscar, através dos séculos, os abusos e faltas, necessariamente inerentes à frágil natureza humana, para delas fazerem o grande cavalo de batalha na sua guerra contra a religião e para perpetuamente as estarem lançando em rosto à Igreja. Para esses homens não tem importância alguma a obra de regeneração social que ela efetuou; nem eles atentam na luta incessante que ela tem que sustentar contra tudo quanto se opõe à lei divina. Os crimes de alguns celerados, que receberam o batismo, são o grande arsenal para estes farejadores de escândalos. Rebatamos, pois, já que é necessário, as principais acusações, que eles obstinadamente se empenham em assacar à Igreja de Jesus Cristo.

1. Em que sentido é a Igreja intolerante

Se os adversários da Igreja tomam a palavra intolerância no seu verdadeiro sentido, isto é, no sentido da intolerância dogmática ou doutrinal, então têm razão de sobra, e a Igreja é a primeira a se reconhecer culpada desta, para eles, enorme falta. E realmente a intolerância dogmática vem a ser um atributo essencial da verdade e uma consequência natural e forçosa da existência mesma da religião católica, a única verdadeira e a única obrigatória para todos os homens. E, pelo contrário, a tolerância dogmática vale o mesmo que indiferentismo religioso, o qual se recusa a reconhecer qualquer religião como a única e exclusivamente verdadeira e obrigatória para todos.

Censurar, pois, a Igreja pela sua intolerância doutrinal vale o mesmo que censurá-la de ser e de se crer possuidora da verdade, a todos necessária, o que é em verdade fazer-lhe um elogio, porquanto é próprio da verdade o excluir tudo o que lhe é contrário. Toda as ciências são necessariamente intolerantes; e por isso é que um matemático, ao ver a demonstração de um teorema, tem logo por absurdas todas as proposições contrárias. E por isso é que também a Igreja, estando certa de ser a possuidora da verdade, necessariamente tem de condenar o erro, que está em oposição com a verdade. “A religião católica, diz Bossuet, é em pontos de erros dogmáticos a mais severa e a menos tolerante de todas as religiões”; e Júlio Simon confessa que “a intolerância eclesiástica está, com toda a razão, acima de toda a discussão”.

Enquanto a dogmas havemos de confessar que todas as outras associações religiosas são tolerantes. O próprio J. J. Rousseau pôde, referindo-se ao protestantismo, afirmar: “A religião protestante é tolerante por princípio; é essencialmente tolerante, e tanto quanto é possível sê-lo, pois que o único princípio que ela não tolera é a intolerância”. Uma declaração como esta é para uma doutrina religiosa a mais esmagadora das refutações.

Se, porém, por uma parte a Igreja se mostra, e com toda a razão, intolerante para com as más doutrinas, e para com os vícios, porque assim o pedem a verdade e o bem, mostra-se por outra parte grandemente condescendente e compassiva para com os transviados e os pecadores, que, reconhecendo a sua falta, imploram o perdão dela. Sendo escolhida para salvar os homens, empregará todos os meios para os trazer ao bom caminho e para lhes livrar as almas das eternas penas. Fiel às normas, que recebeu do divino Mestre, limita-se ela a pregar o Evangelho, isto é, a servir-se da persuasão para converter o mundo. Sofreu em todos os tempos, à semelhança do seu Senhor, toda a sorte de perseguições e derramou muito sangue pela salvação dos homens.

Se por vezes julgou conveniente castigar os seus próprios filhos rebeldes, exerceu um direito que ninguém pensava em contestar-lhe. Fê-lo com sentimentos de mãe, para os trazer ao bom caminho, para refrear os escândalos e para impedir que a corrupção alastrasse. Vamos ver, como não se deu o mesmo com as seitas heréticas nem com outros inimigos da Igreja.

Continua. Leia a Parte 2.

Curso de Apologética Cristã, Exposição Raciocinada dos Fundamentos da Fé, Pe. W. Devivier, S. J., versão portuguesa pelo Pe. Manoel Martins S. J., 1924.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico