Coisa é bem estranha que os homens, que inculpam a Igreja de intolerante, são os que se mostram de ordinário de uma grande benevolência para com o protestantismo. Será acaso por nele encontrarem uma tolerância razoável e abonada por um bom critério? Interroguemos a história, escrita pelos próprios protestantes, e veremos quanto é verdade o que diz o protestante Menzel que “onde dominava o protestantismo, dominava também a intolerância”. “nunca o protestantismo se livrará da pecha de intolerante, diz o protestante Guizot; não proclamou ele a liberdade de consciência, senão que a violou frequentemente”. “A intolerância da Reforma não foi uma intolerância de legítima defesa, do ambiente, ou de um mero acidente, mas foi uma intolerância de ataque, por princípio e calculadamente executada, uma intolerância proveniente da sua natureza e regimen”.
1. O heresiarca do protestantismo, Lutero, a quem querem fazer passar por um apóstolo de tolerância e por um emancipador da inteligência, conquanto ele chegasse a negar até a existência do próprio livre arbítrio no homem, manifestamente incitava os seus adeptos a “ganharem o céu às espaldeiradas e a remontar-se a Deus por montes de cadáveres”. E a sua palavra de ordem era: “Viva a Bíblia! morram os papistas”. “Conviria que todos se precipitassem sobre o papa e contra todos os que com ele estão, os imperadores, os reis, os príncipes e senhores, sem guardar respeito a nenhum deles”. “É necessário lavar as mãos no sangue deles”, repete muitas vezes o facioso inovador em seus escritos.
E não foram estéreis, antes pelo contrário, estes incitamentos à matança muitas vezes repetidos; pois é sabido que este ex-frade apóstata tomou grande parte nos começos da guerra chamada dos camponeses (1525). Enquanto porém, as assolações e crueldades se limitaram aos países católicos, eram estas hordas indisciplinadas aplaudidas pelo reformador; mas, assim que ele as viu invadir, capitaneadas por Munzer, as regiões em que se tinha estabelecido a Reforma, não cessou de gritar e de excitar contra eles os príncipes protestantes. “Às armas, meus príncipes, gritava ele, às armas! Feri, transpassai, matai pela frente e pela retaguarda, porque nada há mais diabólico do que um sedicioso; é um cão que vos morde, se o não deixais prostrado”. “É não só um direito para vós, dizia ele aos príncipes protestantes, senão também um dever, o de estabelecer o Evangelho puro e de proteger as novas igrejas, e o de arruinar a autoridade do papa e não deixar propagar doutrina alguma estranha”. “Belos tempos, em que, exclama ele noutra parte, os príncipes mais facilmente podem merecer o céu, exterminando os camponeses, do que outros oferecendo preces a Deus! Qualquer campônio, ferido de morte, está perdido de alma e corpo e pertence por toda a eternidade ao diabo”. Mais de cem mil destes infelizes perderam a vida; e Lutero se arrogou a glória de uma tão grande carnificina. “Este sangue fui eu que por ordem de Deus o derramei”, escrevia ele.
Assim transbordava de raiva e de crueza a alma do chefe da Reforma. Os saques das igrejas e dos conventos, o roubo dos bens eclesiásticos, a revolta à mão armada, o morticínio de povoações inteiras, uma guerra de trinta anos, que cobriu tudo de sangue e de ruínas, eis os altos feitos, pelos quais se assinalou o protestantismo na Alemanha.
2. E o que se passou na Suíça? Escreveu Calvino, o maus cruel dos tiranos, um livro inteiro para provar que se deve dar a morte aos hereges. E, para com preceito dar também o exemplo, mandou queimar vivo o médico espanhol Miguel Servét pelo crime de heresia, e assistiu em pessoa ao seu suplício. E, se em Genebra Valentim Gentilis escapou à sorte de Servét, foi mediante a retratação das suas doutrinas; e, ainda assim, depois lhe foi decepada a cabeça em Berna, por ter negado o mistério da Santíssima Trindade. Thiago Gruet foi torturado até ao último instante da sua vida; Antoni, Funch, Bolsec,Castellion, Ochino, Acioti e muitos outros pagaram com as suas vidas a contumácia nas suas opiniões religiosas, e sobretudo o imperdoável atrevimento de haverem censurado o reformador. Faltar aos atos do novo culto, tais como à pregação e à ceia, constituía um crime de alta traição e tinha o correspondente castigo. Incriminavam-se até os pensamentos, os desejos, as propensões e inclinações do coração. “Calvino, escreve Galfe, protestante de Genebra, estabeleceu o reinado da mais feroz intolerância, das mais grosseiras superstições e dos mais ímpios dogmas. E conseguiu-o, a princípio pela astúcia, e depois pela força… Precisava de sangue esta alma de lama”. Queria este homem que aos batistas os tratassem como aos salteadores. “na legislação imaginada por este monstro, observa Audin, não se encontra senão a palavra: Morte. Sangue derramado via-se por toda a parte. O eculeo ou a fogueira era a paga aos recalcitrantes”.
Zwuinglio quase não era mais humano. Para se ver quem ele era, basta ler a carta que ele escreveu em 4 de maio (1525) a Ambrósio Blaurer, citada por Janssen, no Ein zueites Wort an meine Kritiker. Nela afirma ser lícito assassinar os padres, se assim for necessário para se abolirem as imagens e a missa.
3. Uma coisa parecida se deu em França. também lá os calvinistas atearam os horrores da guerra civil. Saquearam Orleães, Pithiviers, Nimes, Auxere, Bourges, Montpellier, e devastaram província inteiras, assassinando os habitantes, arrasando todas as igrejas encontradas pelo caminho, afogando ou enforcando os padres e os religiosos que lhes caíam nas mãos. Em Orthez, povoação de três mil almas, todos católicos, não deixaram um só com vida. Só no ano de 1562, segundo o computo por eles feito, deram a morte a 4000 sacerdotes e religiosos, destruíram 20000 igrejas e 90 hospitais. “Quem ignora, diz Bossuet, as violências, que a rainha de Navarra praticou contra os padres e os religiosos! Ainda hoje se mostram as torres, donde precipitavam os católicos, e os precipícios, para onde os atiravam”.
4. Foi também muito cruel a intolerância protestante na Dinamarca, aonde Christino II, cognominado o Nero do Norte, introduziu o luteranismo. No reinado de Frederico I, sucessor daquele príncipe, cometeram-se tais horrores contra os religiosos, que não pôde o protestante Mallet deixar de confessar que “em nenhuma das nações em que se estabeleceu o protestantismo, tiveram os religiosos de sofrer tantos agravos como na Dinamarca”. Havia pena de morte contra todos os sacerdotes e contra os que lhes dessem agasalho. Na Suécia, que se fez luterana durante o reinado de Gustavo Wasa, foi tamanha a crueldade deste monarca contra os católicos e tão horrível a mortandade que até o próprio Lutero ficou enojado.
5. A história do cisma da Inglaterra, ocasionado pela paixão de um rei devasso, por nome Henrique VIII, nos diz que este monarca condenou ao cadafalso, duas rainhas, dois cardeais, vinte arcebispos e bispos, mais de quinhentos abades, priores e frades, e um sem número de doutores, duques, condes e gentis homens, entre os quais sobressai o célebre Thomas More, e, enfim, setenta e dois mil católicos de todos os estados e condições. “Bem quisera eu apagar dos nossos anais, diz o anglicano Fitz, nas suas Cartas de Atticus, a longa série de iniquidades, que acompanharam a implantação da Reforma na Inglaterra; a injustiça e a opressão, o roubo, o assassinato e o sacrilégio neles se acham consignados. Estes foram os meios, pelos quais o duro e sanguinário tirano (Henrique VIII), o fundados da nossa crença, estabeleceu a primazia da sua nova Igreja. Todos os que quisessem conservar a religião dos seus pais e continuar a obedecer à autoridade, que ele mesmo antes lhes ensinara a reverenciar, eram havidos como rebeldes e bem depressa se tornaram vítimas suas”. Foi, porém, no reinado da rainha virgem, a boa Isabel, como lhe chamavam os ingleses (1559-1603) que a perseguição contra os católicos tomou um incremento e um caráter de fereza horrorosa. não matou menos católicos que seu pai esta filha de Ana Bolena; e espantou o mundo com as suas atrocidades, que praticou. Na Irlanda mandou executar tão grande morticínio que, como afirma o protestante Lelam, “quase não ficaram para vassalos de sua majestade Isabel senão cadáveres e cinzas”.
6. Quanto à Holanda, não se pode ler, sem se arrepiarem os cabelos, o que conta o protestante Kerroux, no seu Resumo da história da Holanda, sobre as crueldades e as torturas, por que passaram os católicos nos Países Baixos. É sabido que só mais províncias do Brabante e de Flandres os Guenses (“esfarrapados”) em menos de cinco dias arrasaram mais de quatrocentas igrejas e catedrais, e que cometeram contra os padres, os religiosos e os fieis católicos tais barbaridades, que se teriam por impossíveis, se a triste realidade dos fatos não fosse atestada por documentos históricos dignos de toda a confiança.
Assim procederam os protestantes para com os que se conservavam fiéis à religião dos seus maiores. E, todavia, note-se bem, não cessavam estes reformadores de proclamar como dogma fundamental do seu culto a livre interpretação das Escrituras, convém a saber, o direito de cada um crer o que muito bem lhe aprouvesse (1).
(1) Vid. Janssen, L’Allemagne et la Réforme; Denifle, Luther und Luthertum; A. Baudrillart, L’Église catholique, etc.; Gasquet, Henri VIII, etc.
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Curso de Apologética Cristã, Exposição Raciocinada dos Fundamentos da Fé, Pe. W. Devivier, S. J., versão portuguesa pelo Pe. Manoel Martins S. J., 1924.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico
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