Preparação
- Põe-te na presença de Deus.
- Pede a Deus que te inspire.
Consideração
1. Considera, com respeito ao corpo, todos os dotes que tens recebido do Criador: este corpo, duma conformação tão perfeita, esta saúde, estas comodidades tão necessárias à manutenção da vida, estes prazeres se ligam naturalmente ao teu estado, esta cooperação e assistência de teus inferiores, esta companhia suave e agradável de teus amigos. Compara-te então com outras pessoas que talvez mereçam mais do que tu e que no entanto não as possuem; pois quantas pessoas têm uma figura ridícula, um corpo disforme, uma saúde débil! Quantos não estão a gemer, abandonados de seus amigos e parentes, no desprezo, no opróbrio, em enfermidades longas ou nas angústias da pobreza. Deus assim quis uma sorte para ti e outra para eles.
2. Considera tudo aquilo que se pode chamar dotes do espírito. Pensa quantos homens idiotas, insensatos, furiosos, existem, e quantos educados grosseiramente e na mais completa ignorância; por que não és tu deste número? Não foi Deus quem velou duma maneira toda especial por ti, para te dar um natural feliz e uma boa educação?
3. Considera ainda mais, Filotéia, as graças sobrenaturais, o teu nascimento no seio da Igreja, o conhecimento tão perfeito que tens tido de Deus desde a tua infância, a recepção dos sacramentos tão frequente e salutar. Quantas inspirações da graça, quantas luzes interiores, quantas repreensões de tua consciência, por causa de tua vida desregrada! Quantas vezes Deus te tem perdoado os pecados e velado sobre ti, para livrar-te das ocasiões, onde estavas prestes a perder eternamente a tua alma! Todos estes anos de vida que Deus te concedeu não te deram tempo bastante para progredir no aperfeiçoamento de tua alma? Examina estas graças minuciosamente e contempla quão bom e misericordioso Deus tem sido sempre para contigo.
Afetos e Resoluções
1. Admira a bondade de Deus. Oh! quão bom tem sido o meu Deus para mim! Oh! ele é bom deveras! Ó Senhor, rico sois vós em misericórdia e imenso em bondade! Oh! minha alma, com júbilo anuncia quantas maravilhas o teu Deus tem operado em ti!
2. Arrepende-te de tua ingratidão. Mas quem sou eu, Senhor, para que vos lembreis assim de mim? Oh! grande é a minha indignidade! Ah! Calquei aos pés as vossas graças, abusando delas, afrontei a vossa bondade, desprezando-a, opus um abismo de ingratidão ao abismo de vossa misericórdia.
3. Excita em ti um reconhecimento profundo. Ó meu coração, já não sejas um infiel, um ingrato, um rebelde para um benfeitor tão grande! E como não será minha alma dora em diante sujeita a meu Deus, que operou em mim e por mim tantas maravilhas e graças?
Ah! Filotéia, começas, pois, a negar a teu corpo estes e aqueles prazeres, para acostumá-lo a levar o jugo do serviço de Deus; e em seguida aplica teu espírito a conhecê-lo mais e mais por meio de tais e tais exercícios conducentes a este fim. Emprega afinal os meios de salvação que Deus te oferece por sua santa Igreja. – Sim, eu o farei; exercitar-me-ei na oração, frequentarei os sacramentos, ouvirei a palavra de Deus, obedecerei à sua voz, seguindo à risca os conselhos do Evangelho e as suas inspirações.
Conclusão
1. Agradece a Deus, que te fez conhecer tão claramente as suas graças e os teus deveres.
2. Oferece-lhe o teu coração com todas as tuas resoluções.
3. Pede-lhe que te conserve nestes propósitos, dando-te a fidelidade necessária; pede-lhe isso pelos merecimentos da morte de Jesus Cristo; implora a intercessão da Santíssima Virgem e dos santos.
Pai Nosso…, Ave Maria…
Filotéia ou Introdução à Vida Devota, São Francisco de Sales, Bispo e Príncipe de Genebra, 1958.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico