LIBERALISMO É PECADO
D. Félix Sardà y Salvany
07. EM QUE CONSISTE PRINCIPALMENTE, A RAZÃO INTRÍNSECA DO CHAMADO LIBERALISMO CATÓLICO
Se bem refletimos, a essência íntima do Liberalismo chamado católico, por outras palavras, Catolicismo liberal, consiste provavelmente apenas num falso conceito do ato de fé.
Segundo o seu modo de pensar, os católicos liberais parece que fundamentam todos os motivos da sua fé, não na autoridade de Deus, infinitamente verdadeiro e infalível, que se dignou revelar-nos o caminho único que nos há de conduzir á bem-aventurança sobrenatural, – mas na livre apreciação de um juízo individual, que lhes dita ser melhor uma crença, que outra qualquer.
Não querem reconhecer o magistério da Igreja, único autorizado por Deus para propor aos fiéis a doutrina revelada e determinar-lhe o sentido genuíno; antes, arvorando-se eles em juízes da doutrina, admitem a parte que bem lhes parece, reservando-se não obstante o direito de crer na contrária, sempre que razões aparentes pareçam provar-lhes ser hoje falso o que ontem aceitavam como verdadeiro.
Para refutação de semelhante teoria basta conhecer a doutrina fundamental De fide, exposta sobre esta matéria pelo Santo Concílio do Vaticano.
Demais, chama-se católicos porque crêem firmemente que o catolicismo é a única verdadeira revelação do Filho de Deus; porém chama-se católicos liberais, ou católicos livres, porque julgam que esta sua crença não lhes deve ser imposta a eles, nem a ninguém, por outro motivo superior, senão o da sua livre apreciação. Donde resulta que, sem o pressentirem, o diabo lhes substituiu arteiramente o princípio sobrenatural da fé pelo princípio naturalista do livre exame; e assim ainda que julgam ter fé nas verdades cristãs, não a têm, mas apenas simples convicção humana; o que é essencialmente distinto.
A consequência é que julgam a sua inteligência livre em crer ou não cre, e igualmente livre a de todos os outros.
Na incredulidade, pois, não vêem um vício, enfermidade ou cegueira voluntária do entendimento e mais ainda do coração, mas sim um ato lícito da jurisprudência interna de cada um, tão senhor de si para crer, como para não admitir crença alguma. Por isso, coaduna-se com este princípio o horror a toda a pressão moral ou física, que externamente venha a castigar ou prevenir a heresia; e daí o horror a às legislações civis francamente católicas. Daí o respeito sumo, com que entendem dever ser tratadas sempre as convicções alheias, ainda as mais opostas á verdade revelada; pois para eles são tão sagradas quanto errôneas, como quando verdadeiras, visto que todas nascem do mesmo sagrado princípio de liberdade intelectual, em vista do qual se erige em dogma o que se chama tolerância, e se dita para a polêmica católica contra os hereges um novo código de leis, que nunca conheceram os grandes polemistas católicos da antiguidade.
Sendo essencialmente naturalista o conceito primário da fé, segue-se daí que há de ser naturalista todo o seu desenvolvimento no indivíduo e na sociedade. Daí o apreciar-se a Igreja, principal e quase exclusivamente às vezes, pelas vantagens de cultura e civilização que proporciona aos povos, esquecendo e quase nunca citando para nada o seu fim primário sobrenatural, que é a glorificação de Deus e a salvação das almas. Daquele falso conceito aparecem eivadas várias apologias católicas, que se escrevem na época atual. De sorte que, para essas tais, se o Catolicismo tivesse por infelicidade ocasionado algures um atraso material para os povos, já não seria verdadeira nem louvável, em boa lógica, uma tal religião. E tanto assim podia ser, que, indubitavelmente para alguns indivíduos e famílias tem sido ocasião de verdadeira ruína material a fidelidade à sua religião, sem que ela por isso deixasse de ser coisa muito excelente e divina.
É este o critério que dirige a pena da maior parte dos periódicos liberais, que, se lamentam a demolição dum templo, só apontam nisso a profanação da arte; se advogam as ordens religiosas, não fazem mais que ponderar os benefícios que prestaram às letras; se exaltam a Irmã de Caridade, é apenas em consideração aos humanitários serviços com que suaviza os horrores da guerra; se admiram o culto, é apenas em atenção ao seu brilho exterior e à sua poesia; se na literatura, católica respeitam as Sagradas escrituras, é fixando-se apenas na sua majestosa sublimidade.
Deste modo de encarecer as coisas católicas unicamente por sua grandeza, beleza, utilidade ou excelência material, segue-se em boa lógica que merece iguais louvores o erro, quando reunir tais condições, como sem dúvida as reúne aparentemente em mais de uma ocasião algum dos falso cultos.
A maléfica ação deste princípio naturalista até chega à piedade, convertendo-a em verdadeiro pietismo, isto é, em falsificação da piedade verdadeira. Assim o vemos em tantas pessoas, que não buscam nas práticas religiosas mais que a emoção, o que é puro sensualismo da alma e mais nada. Assim aparece inteiramente desvirtuado hoje em dia em muitas almas o ascetismo cristão, que é a purificação do coração por meio do enfraquecimento dos apetites, e desconhecido o misticismo cristão, que não é a emoção, nem a consolação interior, nem alguma outra dessas delícias humanas, senão a união com Deus por meio da sujeição a sua santíssima vontade, e por meio do amor sobrenatural.
Por isso é catolicismo liberal, ou melhor, catolicismo falso, grande parte do Catolicismo usado hoje por certas pessoas. Não é Catolicismo, é mero Naturalismo, é Racionalismo puro, é Paganismo com linguagem e formas católicas, se nos permitem a expressão.
O Liberalismo é Pecado – Pe. Félix Sardá y Salvany, 1949.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico
Posts relacionados:
- O Liberalismo é Pecado – 19. Regras principais de prudência cristã que deve observar o bom católico em seu trato com os liberais
- O Liberalismo é Pecado – 17. Vários modos por que, sem ser liberal, um católico pode não obstante tornar-se cúmplice do Liberalismo
- O Liberalismo é Pecado – 16. Haverá hoje erro de boa fé em matéria de liberalismo?
- Do Liberalismo à Apostasia: A Liberdade Religiosa condenada pelos Papas – Parte 2
- Do Liberalismo à Apostasia: As origens do liberalismo – Parte 4