Quem rezar o Rosário fiel e devotamente, até o fim da vida, ainda que seja grande pecador, pode crer que receberá uma “coroa de glória que jamais fenecerá” (Pe 5,4).
Ainda que estivésseis na beira do abismo, ainda que já tivésseis um pé no inferno, ainda que tivésseis vendido vossa alma ao demônio, ainda que fôsseis um herege empedernido e obstinado, vós vos converteríeis mais cedo ou mais tarde e vos salvaríeis – desde que (notai bem minhas palavras) rezásseis todos os dias o santo Rosário, devotamente, até à morte, para conhecer a verdade e obter a contrição e o perdão de vossos pecados.
O santo Rosário contém duas coisas, a oração mental e oração vocal. Ele consiste em rezar quinze dezenas de Ave-Marias, precedidas cada qual por um Pai-Nosso, enquanto se meditam e se contemplam as quinze virtudes principais que Jesus e Maria praticaram nos quinze mistérios do Rosário.
No primeiro terço, que é de cinco dezenas, são honrados e meditados os cinco mistérios gozosos; no segundo, os cinco mistérios dolorosos; e no terceiro, os cinco mistérios gloriosos.
O Rosário é, pois, uma sagrada composição de oração vocal e mental para honrar e imitar os mistérios e as virtudes da vida, da morte, da paixão e da glória de Jesus Cristo e de Maria.
O Rosário é um manancial e depósito de toda a espécie de bens da qual:
01º Os pecadores obtêm perdão;
02º As almas sedentas saciam a sede;
03º Os prisioneiros vêem seus grilhões quebrados;
04º Os que choram encontram alegria;
05º Os tentados encontram tranquilidade;
06º Os indigentes recebem socorro;
07º Os religiosos são reformados;
08º Os ignorantes são instruídos;
09º Os vivos triunfam sobre a vaidade;
10º Os mortos são aliviados à maneira de sufrágio.
As origens do Rosário
O santo Rosário, na forma como é rezado presentemente, foi inspirado à Igreja, e dado pela Santíssima Virgem a São Domingos, no ano de 1214, para converter os hereges albigenses e os pecadores, conforme relatou o Beato Alano de la Roche.
São Domingos, vendo que os pecados dos homens impediam a conversão dos hereges albigenses, entrou numa floresta próxima a Toulouse e lá passou três dias e três noites em contínua oração e penitência.
Para acalmar a cólera de Deus, não cessava de gemer, de chorar e de macerar o corpo com golpes de disciplina, a ponto de cair esgotado.
A Vigem então lhe apareceu, acompanhada de três princesas do céu, e lhe disse: “Se queres ganhar para Deus esses corações endurecidos, prega o meu Rosário”.
O Santo se levantou consoladíssimo e, ardendo de zelo pela salvação das almas, entrou na catedral; imediatamente os sinos foram tocados por Anjos para reunir os habitantes.
No começo da pregação houve uma tempestade espantosa; a terra tremeu, o sol se obscureceu, trovões e relâmpagos repetidos fizeram estremecer e empalidecer os ouvintes. Seu terror aumentou ainda mais quando viram uma imagem da Vigem, exposta em lugar de destaque, erguer os braços três vezes para o céu para pedir vingança a Deus contra eles, se não se convertessem e não recorressem à proteção da Mãe de Deus.
O Céu queria, com esses prodígios, promover a nova devoção do Rosário e torná-la mais conhecida.
A tempestade cessou afinal, pelas orações de São Domingos. Este prosseguiu a pregação e explicou com tanto fervor e entusiasmo a excelência do santo Rosário, que quase todos os habitantes de Toulouse o adotaram e renunciaram a seus erros. Em pouco tempo, notou-se uma grande mudança nos costumes e na vida da cidade.
O estabelecimento do Rosário dessa forma prodigiosa que faz recordar o modo como Deus promulgou sua Lei no Monte Sinai, torna manifesta a excelência dessa devoção.
São Domingos, inspirado pelo Espírito Santo, instruído pela Santíssima Virgem e por sua própria experiência, pregou o Rosário todo o resto de sua vida. Pregou-o pelo exemplo e pela palavra, nas cidades e nos campos, diante dos grandes e dos pequenos, diante dos sábios e dos ignorantes, dos católicos e dos hereges.
Enquanto os pregadores difundiram, a exemplo de São Domingos, o santo Rosário, a piedade e o fervor floresceram nas Ordens religiosas que praticavam essa devoção e no mundo cristão em geral. Mas, quando se negligenciou um tal presente vindo do céu, pecados e desordens se viram por toda a parte.
A devoção do Rosário se conservou fervorosa até cerca de cem anos após sua instituição. Depois, esteve quase sepultada no esquecimento. A malícia e a inveja do demônio com certeza contribuíram para tal esquecimento, e para que assim cessasse o fluxo das graças que o Rosário trazia para o mundo.
A Justiça divina castigou os reinos da Europa, a partir do ano de 1349, com a mais terrível peste que jamais se vira. Surgida no Oriente, espalhou-se pela Itália, Alemanha, França, Polônia, Hungria, e devastou todas essas terras, de modo que de cem homens somente um sobrevivia . As cidades, as aldeias e os mosteiros se despovoaram durante os três anos que durou a epidemia. E a esse flagelo de Deus ainda se seguiram outros.
Quando pela misericórdia de Deus tais misérias cessaram, a Virgem ordenou ao Beato Alano de la Roche, célebre doutor e famoso pregador da Ordem dominicana, que restabelecesse a antiga Confraria do Santo Rosário.
Desde o estabelecimento do Rosário por São Domingos, até 1460, quando o Beato Alano o restabeleceu por ordem do Céu, ele foi chamado o Saltério de Jesus e da Virgem, porque contém 150 Ave-Marias – o mesmo número dos Salmos de Davi.
Depois disso a voz pública, que é a voz de Deus, lhe deu o nome de Rosário, que significa coroa de rosas. A Santíssima Virgem aprovou e confirmou esse nome, revelando a várias pessoas que elas Lhe ofereciam tantas rosas agradáveis quantas Ave-Marias, e tantas coroas de rosas quantos rosários rezassem.
O Irmão Afonso Rodriguez, da Companhia de Jesus, recitava o Rosário com ardor, e via frequentemente a cada Pai-Nosso sair de sua boca uma rosa vermelha e a cada Ave-Maria uma branca, iguais em beleza e perfume, somente diferentes na cor.
As crônicas franciscanas contam que um jovem religioso tinha o louvável costume de rezar o terço diariamente, antes da refeição. Um dia, por uma razão qualquer, não o rezou e, quando tocou o sino para o jantar, conseguiu do superior permissão para rezá-lo antes de ir à mesa.
Mas como ele se demorasse demais, o superior enviou um religioso para chamá-lo. Esse religioso o encontrou na cela toda iluminada por uma luz celestial, e viu a Santíssima Virgem com dois Anjos; à medida que o religioso rezava as Ave-Marias, belas rosas saíam de sua boca e os Anjos as iam pegando uma após outra, e as colocavam sobre a cabeça da Virgem, que manifestava seu agrado.
Dois outros religiosos, mandados pelo superior para ver a causa do atraso dos outros, presenciaram também o fato. A Virgem só desapareceu quando o terço estava inteiramente rezado.
O Rosário é, pois, uma grande coroa e o terço é um diadema, ou uma pequena coroa de rosas celestes que se põe sobre a cabeça de Jesus e de Maria.
Não é possível exprimir como a Virgem estima o Rosário acima de todas as devoções e quanto Ela é generosa em recompensar os que trabalham por pregá-lo e difundi-lo; e, pelo contrário, como Ela é terrível contra os que se opõem a ele.
Enquanto viveu, São Domingos acima de tudo teve empenho em louvar a Santíssima Virgem, pregar suas grandezas e incentivar todas as pessoas a honrá-La por meio do Rosário.
Em contrapartida, a poderosa Rainha do Céu não cessou de espargir abundantes bênçãos sobre o Santo, e coroou seus trabalhos com prodígios e milagres. Nunca ele pediu alguma coisa a Deus pela intercessão da Virgem sem ser atendido. Como cúmulo de favores, Ela o tornou vitorioso sobre a heresia dos albigenses e o fez Pai e Patriarca de uma grande Ordem religiosa.
A Virgem não somente favorece os pregadores do Rosário, mas também recompensa os que pelo exemplo atraem outros a essa devoção.
Afonso, rei de Leão e da Galícia, desejava que todos os seus servidores honrassem a Maria Santíssima pela reza do Rosário. Para animá-los com seu exemplo, tomou o hábito de levar consigo, ostensivamente, um grande Rosário, embora não o rezasse. O efeito foi que todas as pessoas da Corte se sentiram obrigadas a rezá-lo.
Aconteceu que o rei caiu extremamente doente e, quando já o julgavam morto, foi arrebatado em espírito ao tribunal de Jesus Cristo. Ali, viu os demônios que o acusavam de todos os pecados que havia cometido e viu o Juiz já a ponto de condená-lo às penas eternas.
Nesse momento, apresentou-se a Virgem diante de seu Filho e intercedeu por Afonso. Foi então trazida uma balança, e num dos pratos dela foram colocados todos os pecados do rei; no outro prato, a Virgem colocou o grande Rosário que ele tinha levado em sua honra e também os que ele, pelo seu exemplo, tinha feito rezar. E esse prato pesou mais que o de todos os pecados.
Depois, olhando-o com olhar benigno, Ela lhe disse: “Obtive de meu Filho, como recompensa pelo pequeno serviço que tu me prestaste ao levar o meu Rosário, o prolongamento de tua vida por mais alguns anos. Emprega-os bem e faz penitência”.
Voltando-se do arrebatamento, Afonso exclamou: “Ó bem-aventurado Rosário da Santíssima Virgem, pelo qual fui liberto da condenação eterna!” Depois disso, recuperou a saúde e passou o resto da vida rezando-o diariamente.
Ainda que a devoção do Rosário tenha sido autorizada pelo Céu por meio de muitos prodígios e tenha sido aprovada pela Igreja por diversas bulas de Papas, sempre se encontram depravados, ímpios e “espíritos fortes” que procuram desacreditá-la, ou pelo menos afastar dela os féis.
É fácil reconhecer que suas línguas são infectadas pelo veneno do inferno e que eles são conduzidos pelo espírito maligno; pois ninguém pode desaprovar o santo Rosário sem que condene o que há de mais piedoso na religião cristã, a saber, o Pai Nosso, a Ave-Maria, os mistérios da vida, da morte e da glória de Jesus Cristo e de sua santa Mãe.
Se São Boaventura teve razão em dizer que morrerá no pecado e será condenado aquele que tiver desprezado a Santíssima Virgem, que castigos não devem esperar aqueles que afastam os outros de sua devoção?…
Quando São Domingos pregava em Carcassonne, um herege fazia brincadeiras com os seus milagres e com os quinze mistérios do Rosário, o que impedia a conversão de outros hereges.
Para punir esse ímpio, Deus permitiu que quinze mil demônios entrassem em seu corpo; os pais dele o levaram ao Santo, pedindo que o livrasse daqueles espíritos malignos. Ele se pôs em oração e exortou toda a gente a rezar o Rosário com ele, em voz alta. Eis que, a cada Ave-Maria, a Santíssima Virgem fazia sair cem demônios do corpo daquele herege, sob a forma de carvões ardentes. Depois de liberado de todos os demônios que o possuíam, abjurou seus erros e se converteu, juntamente com muitos correligionários impressionados pelo castigo e pela força do Rosário.
Eu não duvido que os espíritos críticos e orgulhosos deste tempo coloquem em dúvida os relatos deste pequeno tratado, como sempre fizeram, se bem que eu me tenha limitado a transcrever excelentes autores contemporâneos, e em parte um livro recentemente composto pelo Padre Antonin Thomas, da Ordem dominicana, intitulado O Rosário místico.
Toda a gente sabe que há três espécies de fé para as diversas narrativas. Às histórias narradas na Escritura sagrada, devemos uma fé divina; às histórias profanas que não repugnam à razão e são escritas por bons autores, devemos uma fé humana; e às histórias piedosas contadas por bons autores e em nada contrárias à razão, à fé e aos bons costumes, ainda que elas sejam por vezes extraordinárias, devemos uma fé piedosa.
Não se deve ser nem crédulo demais nem crítico demais; é preciso manter o equilíbrio para dessa forma encontrar o ponto da verdade e da virtude. Mas assim como a caridade crê facilmente em tudo o que não é contrário à fé nem aos bons costumes, assim também o orgulho leva a negar quase todas as narrativas bem confirmadas, sob o pretexto de que elas não estão na Escritura.
É esse um artifício de satanás, no qual caíram os hereges que negam a Tradição, e no qual caem sem se dar conta os críticos de hoje, que movidos unicamente por orgulho e auto-suficiência não crêem no que não compreendem ou no que lhes desagrada.
Que todos, os sábios e os ignorantes, os justos e os pecadores, os grandes e os pequenos, louvem e saúdem, dia e noite, a Jesus e Maria pelo santo Rosário.
Rezai todos os dias, com devoção, pelo menos um terço do Rosário; e estareis oferecendo uma coroa de rosas a Jesus e Maria.
A Eficácia Maravilhosa do Santo Rosário – São Luís Maria Grignion de Montfort.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico