Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Lendo Devoções ao Avô, por Albert Anker, 1893, Public Domain, Wikimedia Commons

O zelo pelas almas

Ó Jesus que Vos entregastes para a salvação do mundo, acendei no meu coração um zelo ardente pela salvação das almas.

1 – À medida que o amor de Deus vai tomando posse dos nossos corações, faz nascer e alimenta neles um amor cada vez maior para com o próximo, amor que, sendo sobrenatural, tende acima de tudo ao bem sobrenatural dos nossos semelhantes e converte-se em zelo pela salvação das almas.

Se amamos pouco a Deus, também amaremos pouco as almas e, vice-versa, se o nosso zelo pelas almas é fraco, também o é o nosso amor a Deus. Efetivamente, como seria possível amar muito a Deus sem amar muito os que são Seus filhos, os que são objeto do Seu amor, dos Seus cuidados, do Seu zelo? As almas são, por assim dizer, o tesouro de Deus. Ele criou-as à Sua imagem e semelhança por um ato de amor, remiu-as com o Sangue do Seu Unigênito por um ato de amor ainda maior. “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo. 3, 16). Quem penetrou o mistério do amor de Deus aos homens, não pode permanecer indiferente pela sua sorte: à luz da fé compreendeu que tudo quanto Deus opera no mundo é para seu bem, para sua felicidade eterna e quer de algum modo participar nesta ação, sabendo que não pode fazer coisa mais agradável a Deus do que prestar a sua humilde colaboração na salvação dos que Lhe são caros. Foi sempre este o desejo ardente dos santos, desejo que os impeliu a realizar heroísmos de generosidade, ainda que fosse para o bem de uma só alma. “Esta – escreve S.ta Teresa de Jesus – é a inclinação que o Senhor me deu. parece-me que Ele aprecia mais uma só alma que Lhe ganhemos com as nossas indústrias e orações mediante a Sua misericórdia, do que todos os serviços que Lhe possamos fazer” (Fd. 1, 7).

É verdade que o fim primordial da ação de Deus é a Sua glória, mas Ele, infinitamente bom, gosta de a procurar particularmente através da salvação e felicidade das Suas criaturas. De fato nada exalta tanto a Sua bondade, o Seu amor, a Sua misericórdia, como a obra salvífica em favor dos homens. Por isso, amar a Deus e a Sua glória significa amar as almas, significa trabalhar e sacrificar-se pela sua salvação.

2 – O zelo pelas almas nasce da caridade, da contemplação de Jesus crucificado: as Suas chagas, o Seu Sangue, os sofrimentos dilacerantes da Sua agonia, dizem-nos quanto valem as almas na presença de Deus e como Ele as ama. Este amor, porém, não é correspondido e parece que os homens ingratos querem fugir cada vez mais à Sua ação. É o triste espetáculo de todos os tempos que ainda hoje se repete, como se quisessem insultar Jesus e renovar a Sua Paixão. “Todo o mundo está em chamas: os ímpios querem, por assim dizer, voltar a sentenciar a Cristo, pois levantam contra Ele mil falsos testemunhos e querem deitar por terra a Sua Igreja”. Se Teresa de Jesus (Cam. 1, 5) podia afirmar isto do seu século atormentado pela heresia protestante, com maior razão podemos afirmá-lo nós no nosso, em que a luta contra Deus e contra a Igreja aumentou desmedidamente e alastra por todo o mundo. Felizes de nós se pudéssemos também repetir coma Santa: “Despedaça-me o coração a perda de tantas almas. Quisera não ver perder-se mais nenhuma… Mil vidas sacrificaria eu para salvar uma só alma das muitas que se perdem” (ib. 4 e 2). Mas não se trata só de formular desejos; é preciso agir, é preciso trabalhar e sofrer pela salvação dos irmãos.

S. João Crisóstomo afirma que “nada há de mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros”. Esta frieza é consequência duma caridade muito frouxa; acendamos, reavivemos a caridade e acender-se-á em nós o zelo pela salvação das almas. Então o nosso apostolado deixará de ser um dever imposto do exterior que devamos cumprir necessariamente por obrigação do nosso estado, para se tornar uma exigência do amor, uma chama que se inflama espontaneamente no fogo interior da caridade.

Dar-se à vida interior não significa fechar-se numa torre de marfim para gozar tranquilamente as consolações divinas, desinteressando-se do bem alheio, mas significa concentrar todas as energias na busca de Deus, no trabalho da santificação pessoal para agradar a Deus e adquirir um poder de ação e intercessão capaz de obter a salvação de muitas almas.

Colóquio – “Ó meu doce Senhor, quão indignamente sois perseguido por aqueles a quem fizestes tanto bem! Parece na verdade que estes traidores Vos querem crucificar de novo, não Vos deixando um lugar onde reclinardes a cabeça. Não posso pensar nisto sem sentir o coração despedaçado!

“Considerai, ó Pai eterno, que não são para esquecer tantos açoites, injúrias e tão gravíssimos tormentos. pois, Criador meu, como podem suportar umas entranhas tão amorosas com as Vossas, que o que fez com tão ardente amor o Vosso Filho e para mais Vos contentar a Vós, que Lhe mandastes que nos amasse, seja tido em tão pouca conta como a que têm esses hereges ao Santíssimo Sacramento, que Lhe tiram os Seus sacrários e destroem as Suas Igrejas? Acaso terá ainda o Vosso Filho de fazer mais alguma coisa para Vos contentar? Não fez já tudo? Sempre que voltamos a pecar, há de pagá-lo este amantíssimo Cordeiro? Não o permitais, Imperador meu; aplaque-se já Vossa Majestade! Não olheis para os nossos pecados, mas considerai que fomos remidos pelo Vosso sacratíssimo Filho. Olhai para os Seus merecimentos, para os de Sua gloriosa Mãe e de tantos Santos e Mártires que morreram por Vós!

“Ai que dor!… Como me atreverei eu a fazer esta petição? Com razão haveis de indignar-Vos, Soberano Juiz, ao ver-me tão atrevida. Porém, ó Senhor, já que sois Deus de misericórdia, tende-a desta pecadorazinha, deste miserável verme que assim se atreve.

“Olhai, meu Deus, para os meus desejos e para as lágrimas com que Vos suplico isto, esquecei as minhas más obras, por quem sois, tende piedade de tantas almas que se perdem e favorecei a Vossa Igreja” (T.J. Cam. 1, 2 e 3; 3, 8 e 9).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico