Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

“Miseremini mei, miseremini mei, saltem vos, amici mei, quia manus Domini tetigit me”. “Piedade! Piedade de mim, ao menos vos que sois meus amigos, porque a não do Senhor me feriu.” (Job. XIX, 21.)

1. Causas das Penas do Purgatório

1. – Que mão é esta tão pesada?… E que ferida é esta tão dolorosa que arranque gemidos tão pungentes a almas tão santas e tão resignadas?!…

É a mão da Divina Justiça, da infinita Santidade, e do infinito Amor que se reúnem para operar a misericordiosa purificação de Almas escolhidas e predestinadas, de queridas Esposas de Jesus chamadas a entrar na eterna Bem-aventurança, a unir-se com a Divina Essência, para ver a Deus como se vê, conhecê-lo como se conhece, gozá-lo como se goza, viver a sua Vida Divina, nos resplendores da glória do Céu.

2. – Ah! nessa Jerusalém triunfante, nessa Cidade Santa, nesse Templo da infinita Santidade, nada manchado nunca poderá entrar: Non intrabit in eam aliquod coinquintum. (Apoc. XXI.) É pois necessária a purificação das mais leves manchas, que não foram perdoadas na vida!… É necessária a perfeita satisfação da pena temporal devida pelas culpas perdoadas!

E não podendo sofrer o infinito Amor que fiquem privadas da visão beatífica almas que ainda tem que purificar-se e que satisfazer, uniu-se com a Santidade, e com a Justiça infinita para deter nas chamas do Purgatório suas queridas Esposas até pagarem suas dívidas e se tornarem tão puras que possam ver a Deus como Ele é: sicuti est!

3. – Mas or serem as penas do Purgatório temperadas pelo infinito amor de Deus, não são menos dolorosas. Tais são, diz Santo Anselmo, que o mínimo tormento de lá é maior, que todos os máximos tomentos desta vida: Minimum majus est quam maximum quod in hac vita excogitari possit. E vai além São Bernardino, dizendo que todas as penas desta vida, nada são a respeito das penas do Purgatório: respectu paenae Purgatorii nihil sunt… Mais longe ainda vai São Cirilo de Alexandria afirmando que todas as penas desta vida são consolações a respeito das do Purgatório: solatia sunt! O mesmo afirma São Gregório dizendo que o suplício do fogo pelo qual passam as almas do Purgatório é mais intolerável do que os mais horríveis tormentos, as mais graves tribulações desta vida. Assim tudo quanto se padece no mundo, em todos os seus trabalhos juntos, é nada comparando-se com a mínima pena do purgatório!… Quem pois poderá fazer ideia cabal do que sofrem essas queridas almas!…

2. Qualidades principais das penas do purgatório

1. – As que padecem as almas são tão grandes que só Deus que tudo sabe, sabe quanto padecem!… Penas de dano ou ausência de Deus, e penas de sentido no horrível suplício do fogo: eis a causa da piedosa súplica que nos dirigem repetindo: Piedade! Piedade! Tende piedade de nós ao menos vós, que nos tendes amizade! Piedade! Piedade, nesta prisão de fogo não podemos mais merecer, sendo tanto o nosso sofrer! Vivíssimo é o fogo em que ardemos, e muito mais vivos são nossos desejos de vermos a Deus! ó Vós que amais a Jesus, ó Guardas de Honra de seu Sagrado Coração, vós também amais as Esposas queridas de tão piedoso Coração, e vós muito podeis merecer, muito podeis nos aliviar! Piedade! Piedade! Miseremini! miseremini!

Duas vezes repetido o grito piedade! indica duas penas principais: uma é o fogo em que arde, a outra é a ausência de Deus para quem aspiram.

Uma só hora deste fogo, uma só hora desta ausência lhes parece muitos anos!

2. – A pena do fogo para entendermos quão terrível é, basta sabermos que é de fogo, pois esta é a maior pena que conhecemos. Mas que fogo será este do qual o nosso foge tão atroz não é mais que uma imagem e semelhança? Que fogo será este tão vivo, tão ardente que a mão de Deus toma-o por instrumento de sua justiça. Ó fogo terribilíssimo que faz as almas o que o nosso fogo faz no metal, derretendo-o, identificando-se com ele, purificando-o. “Vede o ouro, diz Santa Catarina de Genova no seu belo tratado do Purgatório, vede o ouro: quanto mais vezes o fundirdes no fogo, tanto melhor sai até perder toda escória e imperfeição; mas quando é puro de vinte e quatro quilates, não se purifica mais, ainda que se meta no fogo muitas vezes, porque este não pode consumir senão sua imperfeição. – Assim obra o fogo divino na alma! Deus a tem no fogo tanto tempo quanto é necessário até consumir as imperfeições todas, e ficar perfeitamente purificada, cada uma porém no seu grau.” Mas é pelos sufrágios dos fiéis que se pode abreviar o tempo da purificação, e da satisfação, da pena que devem a Deus pelas culpas perdoadas.

É seu Sangue Divino que Jesus confia ao nosso zelo para que com ele suavizemos os ardores da Divina Justiça à qual estão satisfazendo as almas, Esposas de seu amor. A elas quer que apliquemos o refrigério do seu preciosíssimo Sangue pela assistência fervorosa ao Santo Sacrifício da Missa, pela comunhão ou real, ou espiritual, pelas orações, pelas obras satisfatórias que podemos ganhar, e que são um suavíssimo orvalho que abranda o fogo da Divina Justiça. Ah! quanta razão tem as almas desamparadas de clamar e implorar nossa piedade: – Miseremini! Tende piedade de nós! E não nos abandoneis neste fogo devorante!

3. – Com ais instância porém repetem sua súplica miseremini, tente piedade, pela segunda pena do Purgatório, a ausência de Deus incomparavelmente mais pungente e mais dolorosa do que a pena do fogo… “É pena tão excessiva, diz Santa Catarina de Genova, é pena tão incompreensível a pena de dano, ou ausência de Deus no Purgatório, que não há entendimento capaz de percebê-la, nem língua que a possa contar. E posto que Deus, pela sua graça, deu-me a conhecer o tormento que causa tão grave pena, não tenho palavras para exprimi-la, porque não é possível dizer o atrocíssimo sofrimento da alma ausente de seu Deus, privado de seu Sumo Bem para o qual sente-se atraída com amorosa violência, sem poder saciar a inexplicável fome que sofre, nem aliviar a sede ardente, em que está abrasada, de unir-se com seu Deus para gozá-Lo.”

E tanto é maior a aflição quanto a mesma alma está muitas vezes incerta do tempo em que há de penar naquele escuro cárcere, naquele tormento exílio longe de sua pátria celeste, longe da visão da infinita formosura de seu Deus e Senhor a quem ama com pura e perfeita caridade e de quem é amada como filha, e como esposa, sem o poder ainda nem contemplar, nem possuir! Viva dor! Justa causa de exclamar: miseremini! miseremini!

Viva Jesus! Manual ou Tesouro da Arquiconfraria da Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus e da Arquiconfraria das Almas do Purgatório, 5ª Edição, 1896.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico