É Maria Medianeira entre Deus e os homens?
A Virgem Maria Nossa Senhora é verdadeira Medianeira entre Deus e os homens em virtude duma mediação real e própria que exerce entre eles.
Que significa mediação?
Mediação é uma função de ordem moral pela qual uma terceira pessoa intervém para estabelecer entre outras duas relações de paz: quer para dirimir uma contenda ou concertar um contrato, quer para obter a reconciliação ou o perdão, quer ainda para solicitar um favor ou patrocinar uma causa.
Poderíeis mostrar isto com alguns exemplos?
Servem admiravelmente para declarar a mediação de Maria vários exemplos tomados da Sagrada Escritura.
David, irritado contra Nabal, ia já vingar-se das injúrias que dele tinha recebido; mas intervém Abigail, e com as suas humildes súplicas e presentes logra aplacar a ira de David e livrar da morte a Nabal, seu esposo.
Assuero, rei dos Persas, tinha fulminado sentença de morte contra todos os judeus: mas intervém Ester, sua esposa, e alcança a revogação da sentença. Do mesmo modo, Deus, justamente indignado contra os filhos de Adão, tinha decretado contra eles sentença de morte eterna; mas intervém Maria, e alcança de Deus a revogação da fatal sentença.
Pode a mediação entender-se de um modo mais geral ?
De um modo mais geral pode a mediação considerar-se como uma ação subordinada e instrumental entre a ação suprema de Deus e a salvação dos homens.
Poderíeis declarar isso com algum exemplo?
A absolvição dada pelo sacerdote no tribunal da penitência dá uma ideia exata desta mediação mais geral. O que perdoa principalmente os pecados é só Deus; mas exige como instrumento da remissão deles a absolvição do sacerdote, a qual é, por conseguinte, uma mediação entre Deus e os homens.
É boa neste sentido a comparação de Maria com a lua?
É certamente muito boa para declarar isto mesmo a comparação da lua. Assim como durante a noite a lua transmite à terra os raios que recebe do sol, assim durante a noite desta vida, Maria, colocada entre Deus e os homens, transmite-lhes os raios da divina graça que ela recebe de Deus. Deus é o princípio da graça, Maria é o meio ou instrumento pelo qual Deus comunica aos homens a graça.
É o mesmo Medianeira e Intermediária?
Não é o mesmo Medianeira e Intermediária. Intermediária diz-se duma pessoa que se interpõe entre outras duas que por qualquer motivo, não comunicam entre si direta e imediatamente; ao passo que Medianeira é uma pessoa cujo ofício consiste precisamente em pôr em comunicação as outras duas da maneira mais direta possível.
Assim Maria não intervém entre Deus e os homens para substituir e como que eclipsar a Deus, mas para estabelecer ou estreitar entre eles relações diretas e amigáveis.
Tal é a doutrina católica não entendida pelos protestantes, quando atacam a confiança que os católicos põem em Maria, como se esta fosse contrária à confiança que devemos pôr em Deus.
A mediação de Maria não é, pelo menos, contrária à mediação de Jesus Cristo?
De modo algum a mediação de Maria é contrária à mediação de Jesus Cristo, nosso divino Salvador, mas antes deriva da de Jesus, como o seu complemento providencial.
Para haver oposição, devia a mediação de Maria ser independente da de Jesus Cristo e levantar-se como seu rival. Ora sucede exatamente o contrário. Porque a mediação de Maria, segundo a doutrina católica, depende inteiramente da de Jesus Cristo, está-lhe totalmente subordinada, e recebe dela todo o seu valor e eficácia.
Como é que a mediação de Maria é o resultado e complemento da mediação de Jesus Cristo?
São Paulo ensina que não há senão um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo. Isto quer dizer que nenhuma outra pessoa tem em si mesma autoridade própria nem merecimentos próprios para se apresentar diante de Deus, como mediador dos homens; e neste sentido a mediação de Jesus Cristo é única e exclusiva. Portanto a mediação de Maria não é uma mediação estranha que depois se submete e subordina à de Jesus Cristo; é uma participação subalterna da mediação de Jesus Cristo, uma associação da Mãe à mediação de seu divino Filho.
Por que razão quis Deus associar Maria à mediação de Jesus Cristo?
Deus associou Maria à mediação de Jesus Cristo, não por necessidade, mas por sua libérrima vontade e amorosa dignação.
A mediação de Jesus Cristo é absolutamente necessária e suficiente, ou, para melhor dizer, superabundante. Por isso era escusada a mediação de Maria como a de qualquer outra pura criatura. Jesus Cristo bastava-se superabundantemente para exercer digna e eficazmente o seu ofício de Mediador. Mas quis Deus, para glória de Maria e para maior proveito e consolação dos homens, que Maria fosse associada à mediação de Jesus Cristo. Esta glória da Mãe em nada obscurece a glória do Filho. Porque, afinal, o Filho é verdadeiro Deus: e a sua glória é tão soberana e excelsa, que, por mais que uma criatura seja realçada e glorificada, sempre esta glória criada e emprestada fica a uma distância infinita da glória de Jesus Cristo. É tão grande Jesus Cristo, que nunca pura criatura alguma lhe fará sombra.
Os protestantes mostram ter um conceito muito baixo de Jesus Cristo, quando temem que a glória simplesmente emprestada da Mãe vá obscurecer a glória do Filho.
Haverá algum exemplo que possa tornar sensíveis estas verdades?
Sim, o exemplo seguinte tomado da vida ordinária pode servir para mostrar que a mediação de Maria, com ser real, é no entanto inteiramente recebida de Jesus Cristo. Suponhamos que numa nação existem 3.000 milhões em ouro; mas por motivos de ordem econômica decreta-se que este ouro se recolha no Banco Nacional, e que em seu lugar se ponha em circulação o papel moeda. O valor do papel moeda é real e efetivo; por isso quem o possui em grande quantidade é rico: não obstante, todo esse valor é puramente representativo e emprestado, e não aumenta nada a riqueza nacional, sendo esta de 3.000 milhões antes e depois da emissão do papel.
Tal é a mediação de Maria; papel moeda, dum valor real e efetivo, mas não próprio, senão recebido da mediação de Jesus Cristo, que é ouro. É o que significam os Doutores, quando ensinam que a mediação de Jesus Cristo é de direito próprio e natural, ao passo que a de Maria é de pura graça e um privilégio livremente outorgado por Deus. Esta mediação não acrescenta nada à de Jesus Cristo; antes dela lhe vem toda a sua eficácia.
Por que é que Maria foi elevada a participar da mediação de Jesus Cristo?
Ainda que a associação de Maria à mediação de Jesus Cristo seja um puro privilégio, existem contudo muitas e poderosas razões para Deus a levantar a tão grande glória. A primeira razão, ainda que a mais remota, é a sua qualidade de verdadeira Mãe de Deus.
Esta dignidade é tão excelsa, que, como ensinam os santos Padres, é a maior a que pode ser exaltada uma pura criatura. Ora, era justo e conveniente que semelhante dignidade fosse ornada por Deus com toda a sorte de prerrogativas e privilégios, sem exclusão da dignidade e ofício de Medianeira.
Existe alguma razão mais direta e imediata da mediação de Maria?
Sim, existe; é a posição singularmente privilegiada que ocupa de ser juntamente Mãe de Deus e Mãe dos homens. Assim como Jesus Cristo, por ser ao mesmo tempo Deus e homem, é o Mediador nato entre Deus e os homens, assim também, com a devida proporção, Maria, por ser juntamente Mãe de Deus e Mãe dos homens, parece nascida para exercer o ofício de Medianeira entre os homens e Deus. É singularmente apta para este ofício pela sua qualidade de Mãe; Mãe de Deus, em cuja presença deve interceder, e Mãe dos homens, em favor dos quais intercede. Esta qualidade dá à sua mediação um valor imensamente superior à mediação de qualquer outra criatura e que a torna semelhante à própria mediação de Jesus Cristo.
Qual é a razão mais poderosa para crer na mediação de Maria?
A razão principal para crermos na mediação de Maria, não são os nossos raciocínios, ainda que solidamente fundados, senão a palavra de Deus que se dignou revelá-lo.
A revelação divina está contida e depositada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja. E tanto a Escritura como a Tradição atestam que Maria é Medianeira entre Deus e os homens.
Onde ensina a Escritura que Maria é Medianeira?
Em muitos lugares ensina a Sagrada Escritura que Maria é verdadeira Medianeira entre Deus e os homens. Para mostra bastará citar uma só passagem.
Pouco depois do pecado dos nossos primeiros pais, disse Deus, falando com a serpente tentadora: «Porei inimizades entre ti e a Mulher, entre a tua descendência e a Sua: ela te esmagará a cabeça» (Gen. 3, 15).
O sentido natural destas palavras, autorizado pela interpretação unânime da tradição cristã e pelo magistério dos Concílios e Romanos Pontífices diz-nos: que a Mulher de quem se fala é Maria; que Maria participa da obra salvadora de Jesus Cristo e em particular do seu ofício de Mediador.
Primeiramente, que a Mulher seja Maria, é coisa manifesta, porque se a Descendência da Mulher é Jesus Cristo, que dela nasce, a Mãe desta Descendência, deste Filho, não é outra senão a Virgem Maria.
Em segundo lugar, a obra salvadora do Redentor prometido é expressa sob a imagem de hostilidade e luta contra a serpente, e de vitória sobre a serpente: esta hostilidade, luta e vitória constituem Jesus Cristo Redentor e Mediador.
Por conseguinte, quando se diz de Maria que participará da hostilidade, luta e vitória de Jesus Cristo, diz-se por isso mesmo que participará da sua Mediação.
Mais claro ainda: nas citadas palavras, à primeira mulher cúmplice do primeiro pecado e da nossa ruína, Deus contrapõe outra Mulher, partícipe e cooperadora na obra da nossa reparação.
Deus quis reparar a ruína dos homens pelos mesmos passos por que esta sobreveio; eis porque quis opor a Adão e Eva, mediadores do pecado e da morte, Jesus Cristo e Maria, Mediadores da vida.
Os Santos Padres também ensinam a mediação de Maria?
Os testemunhos dos Santos Padres a este respeito são inumeráveis e ainda mais explícitos. Bastará citar para amostra uns poucos.
No século II escrevia Santo Ireneu: «Eva, virgem desobediente, foi para si e para o gênero humano causa da morte; Maria, virgem obediente, foi por sua vez para si e para o gênero humano causa da salvação. A Virgem Maria desatou o nó que a virgem Eva tinha atado» (1)
No século III escrevia Tertuliano: «Eva tinha acreditado na serpente, Maria acreditou em Gabriel. Aquela, acreditando, pecou; esta, acreditando, destruiu o pecado» (2).
No século IV cantava Santo Efrém: «Por Eva veio a morte, a vida por Maria» (3). E chamava a Maria «Medianeira de todo o mundo» (4). «Medianeira para com Deus» (5), «Medianeira em todas as coisas» (6).
Não muito tempo depois escrevia São Jerônimo: «A morte por Eva, a vida por Maria» (7) . E quase nos mesmos termos Santo Agostinho: «Por uma mulher a morte, por uma mulher a vida» (8)
À medida que os séculos passam os testemunhos dos Santos Padres multiplicam-se, zelosos em recolher dos seus predecessores, como preciosa herança, a fé e a confiança ilimitada na mediação de Maria.
São Germano, Patriarca de Constantinopla, chamava a Maria Medianeira verdadeiramente boa de todos os pecadores» (9). E ajuntava, falando com a Santíssima Virgem: «Sem a vossa mediação ninguém obtém da misericórdia divina dom algum da graça» (10).
Pouco depois São João Damasceno: «Todos os olhos se volvem para Vós com esperança: Tendo-vos por Medianeira, alcançamos a reconciliação com o vosso divino Filho» (11).
Entrado já o século XI, Santo Anselmo falava deste modo com Maria:
«Fazei que por vós tenhamos entrada com vosso Filho que por vós remiu o mundo. Ó Medianeira nossa, recomendai-nos a vosso Filho» (12).
No século seguinte é São Bernardo que nos exorta a darmos graças a Deus por nos ter dado Maria por Medianeira; «porque, dizia, Deus não quis que tivéssemos nada que não passasse pelas mãos de Maria» (13).
No século XIII Santo Alberto Magno chama a Maria «Medianeira da nossa reconciliação com Deus» (14). O seu discípulo São Tomás de Aquino ensina que «a Mãe de Jesus se encontra nos desposórios espirituais como Conciliadora, visto que pela sua intercessão nos unimos a Jesus Cristo pela graça» (15).
São Boaventura diz que «a Bem-Aventurada Virgem Maria é Medianeira entre nós e Jesus Cristo, como Jesus Cristo é Medianeiro entre nós e Deus seu Pai» (16).
No século XV São Bernardino de Sena escrevia estas palavras que depois fez suas o Papa Leão XIII:
«Toda a graça concedida ao mundo segue esta tríplice gradação: De Deus a Jesus Cristo, de Jesus Cristo à Santíssima Virgem, da Santíssima Virgem aos homens: tal é a ordem maravilhosa da sua disposição» {17).
E como estes poderiam citar-se outros inumeráveis testemunhos, que demonstram com toda a evidência que os Santos Padres e Doutores da Igreja são unânimes a respeito da Mediação de Maria. E o que estes afirmam, ensinam-no também por sua vez os Soberanos Pontífices e os bispos, e é crença comum de todos os fiéis, que recorrem instintivamente, como nota Leão XIII (18), à Santíssima Virgem como a Mãe e Medianeira para alcançar de Deus tudo o que desejam.
É próprio e exclusivo de Maria ser nossa Medianeira para com Deus?
Não, porque de uma parte Jesus Cristo é nosso Medianeiro principal, e por outra, também os santos que gozam de Deus no Céu, são, de algum modo, medianeiros entre Deus e os homens, como o ensina o Concílio de Trento (Sess. 25).
Em que difere a Mediação de Maria da mediação dos outros Santos?
A Mediação de Maria difere da mediação dos outros santos por diversos respeitos, sobretudo pela sua maior dignidade e eficácia, e pela sua extensão universal. Porque a mediação de Maria é mediação de Mãe que conserva certos direitos maternais para com seu divino Filho, e excede incomparavelmente em santidade e merecimentos a todas as criaturas juntas: ao passo que a mediação dos outros santos é mediação de servos de Deus, imensamente inferiores a Maria em santidade e merecimentos.
Além disso, a Mediação de Maria tem uma extensão universal, enquanto que a dos outros santos é pariticular e limitada.
Por estes motivos a Mediação de Maria ocupa um lugar intermédio entre a Mediação suprema de Jesus Cristo e a dos outros santos.
Maria Medianeira de Todas as Graças, pelo Padre José M. Bover, S. J. Tradução de Manuel Batista, S. J., 1957.
(1) Ir. M. G. 7, 958-960.
(2) Tert. M. L. 2, 782.
(3) Ephr. Lamy, 2, 526.
(4) Ephr. Ass. gr. 3. 528
(5) Ephr. Ass. gr. 3, 532.
(6) Ephr. Ass. gr. 3, 552.
(7) Hier. M. L. 22. 408.
(8) Aug. M. L. 38, 1 108.
(9) Germ. M. G. 98, 322.
(10) Germ. M. G. 98, 379.
(11) Damasc. M. G. 96, 662.
(12) Anselm. M. L. 158, 960.
(13) Bernar. M. L. 183, 1 00.
(14) Alb. M. Marial. q. 145.
(15) Thom. In Joa. c. 2, lect. 1 n. 2.
(16) Bon. In 3 dist. 3, p. 1, a 1, q. 2.
(17) Ber. Sen. serm. 6 de Annunt. a 1. c. 2. Leão XIII
«Jucunda semper» 8 Sept. 1 894.
(18) Leão XIII «Octobri mense» 22 Sept. 1891.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico