Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Jesus e o jovem rico, um dos episódios de Marcos 10, por James Tissot, entre 1886 e 1894, Domínio Público / Wikimedia Commons

Pobreza evangélica

POBREZA EVANGÉLICA

Ó Jesus, que por meu amor quisestes abraçar uma vida pobríssima, fazei que eu possa compreender o grande valor da pobreza.

1 – Um dia, um escriba, aproximando-se de jesus, disse-Lhe: “Mestre, eu seguir-te-ei para onde quer que fores”. E Jesus respondeu-lhe: “as raposas têm as (suas) covas e as aves do céu os (seus) ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt. 8, 19 e 20). Jesus põe imediatamente diante de quem o quer seguir, o quadro da Sua vida extremamente pobre e privada do menor conforto, pois quem não está disposto a partilhar com Ele, pelo menos em certa medida, a Sua pobreza terrena, não poderá ter parte nas Suas riquezas eternas. Ninguém, com efeito, pode servir ao mesmo tempo a dois senhores: “Não podeis servir a Deus e à riqueza” (Mt. 6, 24). Se estás apegado às riquezas, às comodidades, ao bem-estar material, em vão procurarás dar a Deus todo o teu coração; ele ficará sempre escravo dos bens terrenos. Precisamente por isto, o jovem rico, depois de ter perguntado a Jesus o que devia fazer para alcançar a vida eterna, quando Lhe ouviu dizer: “Vai, vende quanto tens e dá-o aos pobres”, retirou-se triste “porque tinha muitos bens”. Era um jovem bom: desde a infância tinha observado os mandamentos e desejava sinceramente a vida eterna, tanto que “Jesus, pondo nele os olhos, mostrou-lhe afeto” (Mc. 10, 21 e 22); todavia, o apego aos seus bens impediu-o de seguir Jesus. É a história de muitas almas que, depois de terem caminhado muito tempo no serviço de Deus, param e volta atrás, porque não têm coragem para se desprenderem dos bens terrenos. Jesus, comentando o fato, voltou-se para os apóstolos, dizendo: “Mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no reino de Deus” (ib. 24 e 25). Considera que com estas palavras, Jesus não quer aludir somente a quem é “rico” porque possui muito, mas sobretudo a quem é “rico” porque está apegado ao que possui.

2 – As riquezas não são, por si mesmas, um obstáculo à salvação eterna e à santidade, mas podem sê-lo quando o homem se torna escravo delas. E para ser escravo dos bens terrenos, não é preciso possuir muito, basta possuir “com apego” alguma coisa, mesmo de pouco ou nenhum valor. Os Apóstolos eram pobres e possuíam bem pouco; não obstante, quando Jesus os convidou a segui-Lo, pediu-lhes que abandonassem ainda aquele pouco. O que liberta a alma da escravidão dos bens terrenos não é tanto a pobreza material como a “pobreza de espírito”, ou seja, a pobreza dos afetos, dos apegos até dos mais pequenos.

S. João da Cruz ensina que só esta pobreza é “noite para a alma”, isto é, que só ela a faz penetrar na noite dos sentidos: “Porque não tratamos aqui da carência das coisas, porque isso não despe a alma, se delas tem apetite; senão da desnudez do gosto e apetite delas, pois é o que deixa a alma livre e vazia delas, mesmo que as tenha” (S. I. 3, 4). Por isso diz o Santo: “Não andar buscando o melhor das coisas temporais, senão o pior”; esta é a pobreza material, boa e até necessária dentro de certos limites, mas não suficiente; e a seguir acrescenta: “e desejar entrar em toda a desnudez e vazio e pobreza por Cristo em tudo quanto há no mundo” (ib. 13, 6); esta é a pobreza espiritual que, libertando a alma de todo o desejo e afeto aos bens terrenos, aperfeiçoa e dá valor à pobreza material. Porque, se depois de ter renunciado ao supérfluo, ao bem-estar e às comodidades da vida, lhes ficas apegado com o afeto do coração, bem pouco te aproveitará a renúncia material: “Porque as coisas deste mundo não ocupam a alma nem lhe causam dano, pois não entram nela, mas só a verdade e o apetite delas que moram nela” (ib. 3, 4).

Colóquio – “Ó benigníssimo Senhor Jesus Cristo, riquíssimo em amor, aprendi por experiência que nada há mais penoso neste mundo do que deixar-se abrasar por desejos terrenos, pois o amor das riquezas é fome insaciável que tortura muito mais a alma com o ardor do desejo do que lhe causa refrigério, depois de alcançado aquilo que se desejou.

“A aquisição das riquezas é causa de grandes canseiras, a sua posse produz grandes temores, a sua perda ocasiona graves amarguras. Quem as ama não pode amar-Vos, Senhor, pois sendo elas caducas, cairá na perdição; quem nelas se apoia com amor, come elas acabará tristemente. Quem as encontra, perde a paz; se está acordado, pensa como aumenta-las; se dorme, sonha com ladrões; durante o dia está ansioso e aflito; durante a noite teme e assim é sempre infeliz” (Vem. R. Giordano).

Ó Senhor como seria infeliz, se o amor dos bens terrenos me impedisse de Vos seguir de mais perto! Oh! Como é diferente a minha vida da Vossa! Que diversidade de gostos, de desejos! Vós, o Rei do céu e da terra, que podíeis rodear-Vos de esplendores, porque toda a riqueza foi por Vós criada, que podíeis ter uma multidão de servos às Vossas ordens, nada quisestes e escolhestes, como Vossa primeira morada, um estábulo de animais, e como última, uma dura cruz. E eu, que sou pó e cinza, e não tenho direito algum a possuir, porque não tenho nada por mim mesmo, mas tudo me vem da Vossa liberalidade, porque terei a pretensão duma vida cômoda e tantos desejos de bem-estar material? Não permitais, Senhor, que o amor aos bens temporais se levante como um obstáculo e um muro de divisão entre Vós e eu. A união de amor exige semelhança; o amor, ou encontra, ou torna semelhantes os que se amam. Eu Vos amo, Senhor, mas ainda é fraco o meu amor; fortalecei-o Vós, para que seja capaz de combater qualquer apego que me impeça de Vos seguir mais de perto e de me assemelhar a Vós.

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico