São João de Deus

São João de Deus, fundador dos Irmãos de Caridade, nasceu em 1495 em Montemor o Novo em Portugal. Na idade de oito anos abandonou a casa paterna e foi durante 22 anos pastor em Orepota. Também tomou parte numa campanha contra a França. Uma queda que levou do cavalo o enfraqueceu, e acusações difamantes privaram-no da confiança dos seus patrões. Assim voltou a ser pastor. Em 1532 alistou-se no exército austríaco e esteve na guerra contra os turcos. Quando voltou para Portugal não encontrou mais os seus pais vivos. Triste e ao mesmo tempo arrependido do seu passado, fez o propósito de cumprir futuramente os deveres de cristão. Pela terceira vez entrou em serviço de pastor para depois acompanhar para África um fidalgo exilado e sustentar a família do mesmo com o trabalho das suas mãos. Poucos anos depois procurou ganhar a vida na Espanha pondo à venda livros e quadros. Um sermão que ouviu de S. João d’Avila fê-lo mudar de rumo para começar uma vida extraordinariamente santa. Tudo que possuía, deu aos pobres e aos presos. O sentimento de contrição dos seus pecados levou-o a praticar ações tão esquisitas, que era havido e tratado por louco. Como tal foi tido e maltratado no hospital até que os conselhos de S. João d’Avila o determinaram modificar seu proceder. João dedicou-se então ao serviço dos doentes. Para este fim fundou em Granada um pequeno hospital, e tratava os enfermos com tanta caridade e dedicação que lhe foram oferecidos os meios para aumentar o estabelecimento. Um incêndio destruiu a Santa Casa. João permaneceu durante meia hora no meio das chamas salvando doentes e móveis. Este fato extraordinário, geralmente considerado milagre, consolidou ainda mais as simpatias que já possuía. Em pouco tempo saía das ruínas novo hospital, maior que o primeiro. Sua caridade não se limitava aos doentes do seu estabelecimento, procurava de preferência pobres e doentes em suas casas, levando-lhes o auxílio de que necessitavam. Particular interesse votava aos pobres infelizes, escravos do pecado. Seus conselhos, orações e principalmente sua caridade efetiva reconduziu a muitas destas pobres criaturas ao caminho do dever e da virtude.

Não havia em Granada, quem não se admirasse da atividade espantosa do homem que poucos anos antes era qualificado como doido. O Arcebispo começou a se interessar pela obra de João, e pessoas não faltaram que se oferecessem ao benfeitor da humanidade para tomar parte nas suas obras caritativas. João nunca tinha pensado em fundar uma Ordem, mas o Bispo de Tuy, presidente da câmara real de Granada, o animou a dar a sua fundação um caráter religioso e vestiu-lhe o hábito, impondo-lhe o nome de João de Deus. Só seis anos depois da morte de João foi composta uma regra e em 1570 os primeiros religiosos de sua Ordem emitiram os santos votos.

Era a caridade personificada para com os outros, e para si reservava João o rigor, a penitência. Na mortificação e oração achava força contra as tentações. Muito perseguido, nunca lhe veio o sentimento da vingança: “Hei de perdoar aos inimigos – dizia ele – se quiser salvar a minha alma, isto mais cedo ou mais tarde, neste caso perdoarei já de uma vez.”

Em tempo de uma grande inundação o Santo tinha exposto sua vida na obra da salvação de muitas pessoas. A consequência foi uma grave doença que lhe abriu as portas da eternidade. Em certa ocasião, acusado da facilidade com que aceitava no hospital doentes e pobres, entre estas pessoas de má vida, o Santo respondeu ao Arcebispo de Granada o seguinte. “O Filho de Deus veio a este mundo para salvar os pecadores, e nossa obrigação é auxilia-lo nesta sua missão de os converter. Para isto temos a oração e os conselhos. Eu fui infiel a minha vocação, não cumprindo este dever. Para minha confusão confesso, que neste hospital não sei de outro pecador a não ser de mim, que não sou digno de comer o pão dos pobres.” Esta resposta com muita naturalidade e humildade, comoveu ao Arcebispo, que ainda uma vez pôde convencer-se da grande santidade de João. João de Deus morreu em 8 de Março de 1550. Sua canonização teve lugar em 1690.

Sua Ordem floresce em muitos países. Na Espanha seus filhos têm o título de Hospitaleiros, na França são chamados Irmãos de Caridade, na Alemanha têm o nome Irmãos da Misericórdia e na Itália todos os conhecem com o título de Fate bene fratelli ou Bon fratelli.

REFLEXÕES

“Se é verdade, que devo perdoar aos inimigos, sob pena de perder a minha própria alma, então perdoo já a todos que me ofenderam.” Assim falava S. João de Deus e muito acertado andou em proceder deste modo. A ira e o ódio são duas paixões perigosíssimas, que, uma vez aninhadas no coração, o levam a todos os desvarios, e quanto mais tempo ali se alojarem quanto mais forem atendidas e animadas mais terríveis se tornarão. Com elas no coração, não se salva, porque onde há ira e ódio não há perdão, não há caridade, não há misericórdia. Urge, pois, fazer violência e arrancá-las, custe o que custar. É melhor perdoar logo, do que deixar crescer a paixão do ódio e a dificuldade de a exterminar. “A ira mora no coração do tolo.” (Ecl. 7. 10) “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Efes. 4. 26.)

2. “Tende compaixão de vós mesmos” dizia S. João de Deus, quando ia pedindo esmolas. Queria ele dizer que a pessoa que dá esmola, é benfeitor de si mesma. Quem é misericordioso, obterá misericórdia. “O homem misericordioso faz bem à sua alma. “(Prov. 11. 17.) O Evangelho diz: “Dá ao pobre, e terás um tesouro no céu.” (Marc. 10. 21) O pobre a quem é dada a esmola, recebe um benefício material e passageiro; quem dá esmola recebe a benção de Deus e a recompensa eterna. “Vinde, benditos de meu Pai, e possui o reino, que vos foi preparado desde o princípio do mundo, pois eu tive fome, e vós me destes de comer.” (Math. 25. 34.)

Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume I, 1928.

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