São Pascoal Bailão (Pascal Baylon)

São Pascoal Bailão, Irmão da Ordem de S. Francisco de Assis, era de origem espanhola e nasceu em Valença na festa de Pentecostes do ano de 1540. Pobres camponeses que eram seus pais, muito se distinguiam pela sua piedade e virtude cristã. Se sua pobreza não lhes permitia dar a seu filho excelentes mestres que o instruíssem nas ciências, não lhe deixaram faltar o que para o homem é ainda mais necessário, e que eles mesmos lhes podiam proporcionar: uma educação sólida sob a base do temor de Deus. Tendo Pascoal alcançado a idade de poder prestar algum serviço, confiaram-lhe os pais a guarda do gado no campo. A falta de instrução cívica, o menino mesmo procurou equilibrar por uma aplicação pouco comum entre meninos de sua idade. Estando a guardar o gado, pedia aos transeuntes que lhe ensinassem as letras e assim em pouco tempo aprendeu a ler, vantagem esta, de que se serviu para ainda mais se instruir na doutrina cristã. Foi esta vida, que Pascoal teve até a entrada na Ordem Franciscana. Separado da sociedade, pode-se dizer, só com Deus, em companhia dos animais, Pascoal não chegou a conhecer o mundo, e quando pediu admissão entre os Frades Menores, nenhum pecado grave tinha manchado sua alma. Inimigo da blasfêmia, da mentira, das brigas, e conversas e cantigas indecentes, não permitia que seus semelhantes em sua presença ofendessem a Deus com semelhantes pecados. Cuidados no cumprimento, do seu dever, procurava, evitar, o mais que pudesse, que fosse causado prejuízo ao próximo. Se ainda assim acontecia que alguém por uma qualquer circunstância ou por inadvertência de sua parte fosse prejudicado, Pascoal o indenizava pelo seu trabalho ou pelo desconto de seu salário. Nunca se viu que ele tivesse imitado o exemplo que seus semelhantes lhe davam, de furtar frutas ou uvas dos pomares e vinhedos alheios. Deu-se, que um dos seus companheiros, mais velho que ele, mandasse buscar uvas numa vinha que não era sua. Como Pascoal se negasse a isto e o mais velho o ameaçasse com pancadas, respondeu-lhe: “As uvas são de outrem. Antes eu me deixo cortar em pedaços do que ir furtar coisa alheia, o que é pecado”. Tal era o horror que o Santo tinha ao pecado.

Fora do comum era seu amor à oração. Sempre que se lhe dava ocasião entrava na igreja para adorar o Santíssimo Sacramento e fazer uma visita à Maria Santíssima. Para tê-la sempre diante os seus olhos, entalhou sua imagem no seu cajado, encimando-a por uma pequena cruz.

Pascoal tinha vinte anos, quando por uma visão, que teve de S. Francisco e de Santa Clara, reconheceu sua vocação para o estado religioso. Em vão seu patrão lhe prometeu tê-lo como seu filho; em vão fez-lhe a proposta de constituí-lo único herdeiro de sua grande fortuna: Pascoal, tendo uma vez conhecido a vontade de Deus, renunciou a todos os bens terrestres para não pôr em perigo a salvação de sua alma. Foi na Festa de Nossa Senhora das Candeias que Pascoal trocou o cajado pelo burel. Se já era santa sua vida de pastor, como religioso ainda mais se aperfeiçoou na santidade. Às práticas de piedade acrescentou outras da mais rude penitência, como jejum, as vigílias e mortificações de toda a espécie, cada qual mais dolorosa e sensível.

Grande parte das horas noturnas passava-as Pascoal em oração, feita com tanto fervor, que sua alma parecia arrebatada em êxtase. Trabalhador, nunca era ele ocioso e antes de começar suas ocupações, fazia uma pequena oração. Pontualíssimo em suas devoções, não fazia repetições inúteis, como costumam fazer pessoas escrupulosas que, perturbadas por distrações involuntárias, se martirizam inutilmente, repetindo muitas vezes as orações que lhes parecem ter sido mal feitas. Tal procedimento desagrada a Deus e dá ao demônio o prazer de atormentar a alma.

Pascoal anda sempre na presença de Deus e por isto jamais era visto entregue à melancolia e tristeza. Como da peste fugia do elogio feito à sua pessoa e alegrava-se com o escárnio e a humilhação, quando lhe faziam. Com um cuidado sobremodo extraordinário velava sobre a pureza de sua consciência, levando esta delicadeza ao ponto de evitar os mais leves pecados. Quando ainda era pastor, seus companheiros, de pouco escrúpulo, falaram uma vez num plano que queriam levar a efeito: de convidar uma mulher passar umas horas bem divertidas. Pascoal, ouvindo-os falar assim, enrubeceu e, indignado, disse-lhes: “Deixai vir aquela sujeita, que a ei de receber com pedras na mão”. Mais tarde, quando se achava no exercício de porteiro do convento, aconteceu que uma leviana o quisesse beijar. pascoal não a deixou esperar pela paga merecida: deu-lhe um empurrão e fechou a porta.

Em certa ocasião uma mulher pediu um sacerdote para se confessar. Estando ele ocupadíssimo com outros trabalhos disse ao porteiro, que era Pascoal: “Dizei àquela senhora que não estou em casa” – “Prefiro então dizer, respondei Pascoal, que V. Revma. está ocupado” – “Não, replicou o sacerdote, dai o recado como vos falei, sei porque assim me exprimo”. pascoal, porém, não se conformando com isto, disse “Sr. Padre, eu não farei tal coisa, porque na minha opinião isso é pecado por ser uma inverdade”.

Embora não fosse sacerdote, Pascoal não perdia ocasião de fazer bem ao próximo levando-o ao caminho da virtude. Sua palavra simples, caridosa e convincente, conduziu grandes pecadores ao cumprimento do seus deveres.

Numa viagem que fez de Espanha a Paris muito sofreu Pascoal do fanatismo dos Huguenotes. Seu humilde hábito de Franciscano parecia ser uma constante provocação à ira dos hereges que, por diversa vezes maltrataram o pobre viandante. Não fôra a intervenção de pessoas compadecidas, teriam dado cabo do piedosa monge.

Simples irmão leigo que era Pascoal, possuía ele uma sabedoria profunda nas ciências e mistérios da santa religião, pelo que causou grande admiração da parte dos homens mais sábios do seu tempo. Pascoal possuía o dom de ler nas consciências, predizia coisas futuras e auxiliava os pobres de uma maneira maravilhosa. “Cumpre ao homem – assim costumava ele dizer – ter um coração de criança para com Deus, um coração de mãe para com o próximo e um coração de juiz para consigo mesmo”. Era esta máxima o programa de sua vida.

Tendo 52 anos, Pascoal adoeceu gravemente. Por inspiração divina teve conhecimento prévio da hora de sua morte e para ela se preparou dum modo edificante. Ao médico que lhe desenganara agradeceu por ter-lhe dado notícia tão agradável.

Era no domingo de Pentecostes. Por diversas vezes perguntou Pascoal a seus enfermeiros: “Já principiou a Missa solene?” Quando lhe disseram que sim, tomou em suas mãos o crucifixo e o terço. Na hora da elevação da Sagrada Hóstia entregou seu espírito a Deus. Quando por ocasião das exéquias o corpo de Pascoal se achava no presbitério, foi observado pelos assistentes, que, pela elevação das sagradas espécies, por duas vezes seus olhos se abriram e fecharam.

O corpo do Santo ficou exposto pelo espaço de três dias. Durante esse tempo recebeu as homenagens do povo que o venerava como relíquia preciosíssima. Oito meses depois do sepultamento foi aberto o túmulo e o corpo encontrado intacto, sem sinal de corrupção, apesar da grande quantidade de cal virgem com que fôra coberto no dia do enterro.

Grandes e numerosos têm sido os milagres com que Deus glorificou o túmulo de Pascoal Bailão. Um paralítico que com grande incômodo se chegou ao túmulo do Santo, recuperou imediatamente o uso dos seus membros. Um indivíduo que ficara inutilizado em consequência de uma queda, pela intercessão de S. Pascoal recuperou a saúde. Um outro que apresentava um tumor maligno na garganta sarou à invocação do santo. A bula da canonização frisa dois grandes milagres, que o processo reconheceu como inegáveis. O primeiro deu-se com Francisco Vargas, Vigário de Corrallrubio na Espanha. Este sacerdote teve a infelicidade de, por uma desajeitada manipulação com uma machado, amputar o dedo indexa da mão esquerda. Sem ocupar um médico, sem aplicar outros medicamentos, recomendou-se a S. Pascoal e pelo fim do terceiro dia teve sua mão curada.

Outra poderosa intervenção de S. Pascoal experimentou o camponês Domingos Perez que, sendo baldados todos os esforços para encontrar água na sua fazenda, confiadamente se dirigiu a S. Pascoal bailão. Saindo um dia de sua casa, levou consigo um machado. Chegando ao lugar onde desejava ter um poço, deixou cair o machado e disse estas palavras: “Em nome de Deus e de S. Pascoal”. Imediatamente abriu-se a terra em tal lugar e apareceu uma mina d’água abundante e saborosa.

Pascoal Bailão foi canonizado por Alexandre VIII. A Igreja católica estabeleceu-o como padroeiro dos Congressos Eucarísticos.

REFLEXÕES

1 – “Perante Deus devemo-nos haver como meninos obedientes, perante o próximo como mães caridosa, para nós devemos ser juízes inexoráveis”. Era este o lema de S. Pascoal e por este lema orientou sua vida. Poucos, bem poucos, são os cristãos que pensam e ainda menos que procedem como S. Pascoal. Desobedientes ao mandamentos da lei de Deus, transgridem-nos sem o menor escrúpulo. Caridade ao próximo é coisa que recomendam aos outros, sem eles mesmos a praticarem. Condescendentes para consigo, não têm eles olhos para os seus próprios defeitos e não toleram a mínima restrição nas suas comodidades. Muito amigos de tudo que agrada à sensualidade, têm aborrecimento à penitência. Não é esta a tática dos Santos, e o nosso próprio sentimento religiosos diz-nos que não pode ser ela o caminho para o céu. Os Santos todos, sem excetuar um só, seguiram os princípios que vemos externados no lema de S. Pascoal. Outros não podem ser os teus, se aspiras ao mesmo ideal que é a santidade, a união com Deus.

2 – S. Pascoal negou obediência ao seu amo, quando este lhe ordenou que lhe trouxesse uvas de um vinhedo alheio. Embora fosse apenas um leve pecado, tirar umas frutas de propriedade alheia, S. Pascoal teria preferido a morte á praticar este mal. Procedeu ele corretamente porque a Deus devemos obedecer em primeiro lugar. Ordem humana nenhuma pode ser colocada acima de uma determinação divina.

Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume I, 1928.

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