Sentimentos de amor para com Jesus Cristo na Eucaristia

I

Vós, sozinho e abandonado!

Amadíssimo Jesus meu, ó Deus abrasado de amor para com os homens, que podeis inventar ainda para Vos fazer amar? Oh! com certeza, se os homens Vos amassem, todas as igrejas estariam continuamente repletas de povo. Prostrados com a face na terra, os fiéis Vos adorariam e renderiam graças, com o coração ardente de amor, considerando-Vos com os olhos da fé oculto num tabernáculo. Mas não, eles se esquecem de Vós e do Vosso amor, para irem fazer côrte a um homem de quem esperam algum miserável favor; e Vós, Senhor, ficais aí só e abandonado!… Oh! não poder eu pelas minhas homenagens reparar tanta ingratidão! Arrependo-me de ter sido outrora como eles, indiferente e ingrato; mas não quero mais ser tal no futuro, resolvido estou a Vos fazer companhia o mais tempo que puder. Inflamai-me no Vosso santo amor, para que dora por diante não viva mais senão para Vos amar e agradar. Mereceis o amor de todos os corações; se outrora Vos desprezei agora não tenho outro desejo que o de Vos amar. Meu Jesus, Sois meu amor e todo o meu bem. Ó Santíssima Virgem Maria, alcançai-me um grande amor para com o Santíssimo Sacramento.

II

Eis aqui o meu amor!

Meu Jesus, cada vez que eu vier daqui em diante visitar-Vos no altar, espero Vos dizer sinceramente: Eis aqui o meu amor, eis aqui todo o meu amor! Sim, amadissimo Redentor meu, a Vós desejo, a Vós só quero amar; quero que sejais o único amor da minha alma. Sinto-me morrer de dor, à lembrança de ter outrora amado as criaturas e as minhas satisfações próprias mais do que a Vós, e Vos ter desprezado por elas, ó Bem infinito. Mas com que paciência me suportastes até agora, para não me verdes perecer! em vez de me punirdes, como o merecia, me feristes o coração com tantas setas de amor, de sorte que, não podendo resistir mais, a Vós enfim me dei. Vejo que me quereis inteiramente para Vós; mas, pois esta é a Vossa vontade, não Vos esqueçais, Senhor, de que a Vós pertence fazer que assim seja: soltai-me de todo o apego à terra e a mim mesmo, e reduzi-me a buscar a Vós somente, a não pensar senão em Vós, a falar só de Vós. O único desejo do meu coração, o único suspiro da minha alma, seja arder de amor para convosco, viver e morrer por Vós! Ó amor de meu Jesus, vem, apodera-te do meu coração todo, e dele expulsa todo o amor que não é para Deus. Amo-Vos, ó Jesus Sacramentado, amo-Vos, ó minha vida, meu tesouro, meu amor, meu tudo! Ó Maria, minha esperança, rogai por mim e dai-me ser todo de Jesus.

III

Vinde, Senhor!

Terno Jesus, que mais podeis executar para nos atrair ao Vosso amor? Ah! dai-me conhecer por que excesso de amor Vos reduzistes a estado de alimento, para Vos unir a pobres e vis pecadores como somos. Ó dulcíssimo Redentor meu, a Vossa ternura para comigo tem sido tão grande, que não recusastes dar-Vos muitas vezes todo a mim na santa comunhão; e eu, quantas vezes tive a ingratidão de Vos expulsar de minha alma! Mas não é possível que desprezeis um coração contrito e humilhado. Por mim Vos fizestes homem, por mim morrestes, e chegastes a Vos fazer o meu alimento; após isto, que Vos fica ainda por fazer no intuito de conquistardes o meu amor? Ah! não poder eu morrer de dor cada vez que me lembro de ter assim desprezado a Vossa graça! Ó meu amor, arrependo-me de todo o meu coração de Vos ter ofendido. Amo-Vos, ó Bondade infinita, amo-Vos, ó Amor infinito! Todo o meu desejo é amar-Vos, e o meu único temor é viver sem Vos amar. Amadíssimo Jesus meu, não recuseis vir a minha alma: Vinde, Senhor! Resolvido estou a morrer antes mil vezes do que repelir-Vos de novo, e quero fazer tudo o que possa para Vos agradar; vinde e abrasai-me no fogo do Vosso amor; esqueçam-me todas as coisas para não mais pensar senão em Vós e só a Vós buscar, meu único e Soberano Bem! Ó Maria, minha terna Mãe, rogai por mim, e, pelas vossas orações, tornai-me reconhecido para com Jesus, que tanto amor me tem.

IV

Quero unir-me muitas vezes a Vós!

Ó amor infinito de Jesus, infinitamente digno de amor! Quando então Vos amarei, meu Jesus, como Vós a mim? Nada poupastes para ganhar o meu amor e eu tive ânimo de deixar um bem infinito para correr após objetos vis e desprezíveis! Alumiai-me, ó meu Deus; mostrai-me cada vez mais a extensão da Vossa bondade, para que seja todo inflamado de amor a Vós, e me empenhe com esforço sempre novo em Vos agradar. Amo-Vos, Jesus meu, meu amor, meu tudo, quero me unir muitas vezes a Vós no Santíssimo Sacramento, para desapegar-me de tudo o mais e não amar senão a Vós, que Sois a minha vida. Meu Redentor, socorrei-me pelos merecimentos de Vossa Paixão. Ó Mãe de Jesus e minha Mãe, assisti-me também, e pedi a Vosso divino Filho me abrase no seu santo amor.

V

Ó amado da minha alma!

Ó Amor infinito de Jesus, digno de ser amado com outro amor infinito! Sois tão ardente de amor para com os homens, ó meu divino Salvador; como, pois, acontece que eles tão pouco Vos amam? que mais podíeis fazer para conquistar os seus corações? Já que Sois, meu Jesus, tão amável e amante, fazei-Vos então amar. Ó amadíssimo da minha alma, por que não Vos amei sempre! Ai! um tempo houve em que eu não Vos amava, desprezava até a Vossa graça e o Vosso amor. A dor que sinto me consola; ela me faz esperar o perdão, porque prometestes perdoar a todo aquele que se arrepende. Para Vós, ó Salvador meu, volto agora os meus afetos; pelos merecimentos da Vossa Paixão, ajudai-me a Vos amar com todas as minhas forças. Oh! não poder morrer por Vós, como morrestes por mim! Ó Maria, Mãe de Deus, obtende-me a graça de não amar no futuro senão a Deus só.

VI

Unidos fiquemos sempre, e jamais nos separemos!

Ah! meu Jesus, eis o que Vos peço e pedirei sempre na santa comunhão: Unidos fiquemos sempre, e jamais nos separemos. Sei que não Vos separareis de mim, se não for eu o primeiro a me separar de Vós; ai! todo o meu medo é que no futuro venha eu a separar-me de Vós pelo pecado, como fiz outrora. Por mercê, não o permitais, ó meu amadíssimo Redentor! Até à morte, estarei sempre exposto a este perigo; ah! conjuro-Vos pelos merecimentos da Vossa Morte, antes cortai-me o fio da vida do que me deixardes cair nesta desgraça. Repito, e Vos peço a graça de repeti-lo sempre: Não permitais me separe mais de Vós. Ó Deus da minha alma, amo-Vos, amo-Vos; quero amar-Vos sempre, e não amar senão a Vós. Protesto, à face do céu e da terra, só a Vós quero, e nada maís. Meu Jesus, escutai-me, eu o repito: só a Vós quero, e mais nada. Ó Mãe de misericórdia, terna Maria, intercedei neste momento por, mim; obtende-me a graça de não me separar mais de Jesus, e não amar mais senão a Jesus.

VII

Longe de mim, afetos terrenos!

Adorável Jesus, nada desprezastes para, nos fazer compreender quanto nos amais: destes a Vossa vida por nós; ficastes no Santíssimo Sacramento, para que venhamos aí alimentar-nos da Vossa carne sagrada; e quanto desejo tendes de Vos unir a nós! Como então podemos ver todas estas inefáveis invenções da Vossa ternura sem ficarmos totalmente abrasados no Vosso amor? Longe de mim, afetos terrenos, saí do meu coração; Vós é que me impedis de arder por Jesus como ele arde por mim. Ó meu Redentor, que outros testemunhos de afeto posso ainda esperar, após os que me tendes dado? por meu amor sacrificastes Vossa vida inteira; por meu amor abraçastes uma morte dolorosíssima e cheia de opróbrios; por meu amor chegastes, por assim dizer, a aniquilar-Vos, reduzindo-Vos na Eucaristia a estado de alimento, para Vos dardes todo a mim. Ah! Senhor, não permitais resista eu a todas estas provas do Vosso amor. Graças Vos rendo pelo tempo que me concedeis para chorar as minhas ingratidões e Vos amar. Arrependo-me, ó soberano Bem, de ter tantas vezes desprezado Vosso amor. Amo-Vos, ó Bondade infinita; amo-Vos, ó Tesouro infinito; amo-Vos, ó Amor infinito, digno de amor infinito! Por piedade, ajudai-me, ó meu Jesus, abanir do meu coração todos os afetos que não são para Vós, para que daqui por diante não deseje, não busque e não ame senão a Vós. Amadíssimo Senhor meu, fazei Vos ame sempre; apoderai-Vos de toda a minha vontade, para que queira sãmente o Vosso beneplácito. Meu Deus, meu Deus, a quem então amarei, se não amo a Vós em quem se encontram todos os bens? só a Vós quero, e mais nada. Ó Maria, minha Mãe, tornai o meu coração e enchei-o de perfeito amor a Jesus.

VIII

Vós me tornareis forte!

Quanto mal fiz, Senhor, de me queixar da minha fraqueza, ao considerar as numerosas quedas que dei! como teria podido resistir aos assaltos do inferno, separando-me de Vós, que sois a nossa força? se me houvera aproximado muitas vezes mais da santa comunhão, não tivera sido tantas vezes vencido pelos meus inimigos. No futuro não será mais assim: Em Vós esperei, Senhor, não serei contundido (SI 30, 2). Não quero mais confiar nas minhas resoluções, mas em Vós, ó meu Jesus; junto de Vós é que virei buscar a força para não cair mais no pecado. Fraco sou: mas, pela santa comunhão, far-me-eis forte contra todas as tentações, e poderei dizer com São Paulo: Tudo posso n’Aquele que me conforta (Filip 4, 13). Dulcíssimo Jesus meu, perdoai-me toda a minha frieza para convosco; arrependo-me de toda a minha alma: estou resoluto a morrer antes do que Vos desprezar de novo; pelos merecimentos da Vossa Paixão, espero a força de perseverar na Vossa graça até à morte: Em Vós esperei, Senhor, não serei confundido. A Vós também dirijo este grito de esperança, ó Maria, minha Mãe, e vos digo com São Boaventura: Em vós esperei, ó grande Rainha, não serei confundido.

IX

Oh! que tesouros de graças perdem os que pouco se ocupam em orar a Deus. depois da santa comunhão!

Ó Deus de amor, quão grande é o desejo que tendes de nos dispensar as Vossas graças! e nós outros, somos tão pouco atentos em Vô-las pedir! Ah! qual a nossa angústia à hora da morte ao pensarmos numa negligência tão danosa para nós! Ó meu Senhor, dignai-Vos de esquecer as ofensas que contra Vós cometi; de agora em diante quero, com o Vosso socorro, aparelhar-me mais cuidadosamente para Vos receber, banindo do meu coração todo o apego capaz de por obstáculo às Vossas graças. Quero também, depois da comunhão, entreter-me convosco o mais possível, para obter a graça de progredir no Vosso amor. Concedei-me ser fiel a esta resolução. Ah! meu Jesus, quanto, no passado, me descuidei de Vos amar! Se a Vossa misericórdia me deixa ainda algum tempo sobre a terra, é para que me prepare para a morte, e repare pelo meu amor as ofensas que Vos fiz; quero então viver unicamente para chorar os meus pecados e Vos amar. Amo-Vos, ó Jesus, meu amor; amo-Vos, ó meu único bem; tende piedade de mim, não me desampareis. Ó Maria, minha esperança, socorrei-me sempre pela Vossa intercessão.

As Mais Belas Orações de Santo Afonso, Coordenadas pelo Pe. Saint-Omer, Redentorista e vertidas para o vernáculo por D. Joaquim Silvério de Sousa, Editora Vozes, 1961.

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