A paciência

Ó Jesus manso e divino Paciente, ensinai-me o segredo da verdadeira paciência.

1 – A paciência é a virtude que nos faz aceitar, por amor de Deus, com generosidade e paz, tudo quanto desagrada à natureza, sem nos deixarmos abater pela tristeza que facilmente nos invade quando nos encontramos diante de coisas desagradáveis.

A paciência é um aspecto particular da virtude da fortaleza, a qual nos impede de nos desviarmos do caminho reto por temor das dificuldades que nele se encontram. Não há vida sem dificuldades, e estas são habitualmente maiores e mais frequentes para aqueles que querem empreender grandes coisas. As grandes obras, as grandes virtudes, as virtudes heróicas, desabrocham sempre no meio das dificuldades. Em face delas a fortaleza tem uma dupla ação: enfrentar e suportar. Muitas dificuldades são superadas e vencidas com um ato de coragem; outras, ao contrário, são impossíveis de eliminar, sendo então necessário aprender a suportá-las. É este o papel da paciência. Tarefa árdua porque é mais fácil enfrentar diretamente um obstáculo do que suportar dificuldades e sofrimentos inevitavelmente ligados à vida e que, com o andar do tempo, tentam enfraquecer a nossa coragem e fazer-nos cair na tristeza.

Só fixando o olhar em Jesus, o divino Paciente, se aprende a praticar a paciência. Quando O vemos vir ao mundo para nos salvar, viver desde o primeiro instante da Sua existência terrena, no meio de incômodos, privações, pobreza, e mais tarde no meio de incompreensões, de perseguições, feito objeto do ódio dos Seus concidadãos, caluniado e perseguido de morte, atraiçoado por um amigo, processado e condenado como um malfeitor, o nosso espírito sente-se abalado e compreende que não podemos ser Seus discípulos senão percorrendo o Seu mesmo caminho. Se Jesus, inocentíssimo, suportou tanto por nosso amor, não saberemos nós, pecadores, e portanto merecedores de sofrimento, suportar alguma coisa por Seu amor? Por muito dolorosa que seja a nossa vida, sê-lo-á sempre bem pouco, mesmo nada em comparação com os sofrimentos infinitos de Jesus, porque Jesus na Sua Paixão, não abraçou a dor de uma só vida ou de muitas vidas humanas, mas a dor de toda a humanidade.

2 – Quem quer tornar-se paciente deve possuir, acima de tudo, em face da dor, um profundo olhar de fé, que lhe faça compreender que tudo quanto acontece na vida é permitido por Deus unicamente para seu bem. É certo que muitas vezes o sofrimento, as dificuldades se nos apresentam através de causas segundas; mas que importa isso quando sabemos que tudo nos vem do nosso bom Pai celestial que Se serve destas circunstâncias dolorosas para nos fazer avançar na virtude? Uma alma que só quer viver de Deus, não pára nunca a considerar as causas humanas dos sofrimentos, mas, em face delas, repete com simplicidade: Dominus est! É o Senhor! E tudo aceita das Suas mãos.

Isto, porém, não impede que se sinta, e talvez profundamente, o peso do sofrimento – também Cristo o sentiu na Sua agonia no horto – mas ajuda-nos a não nos perturbarmos, a não perdermos a paz e a serenidade, o domínio de nós mesmos e, portanto, a paciência.

Começa-se a exercitar a paciência, procurando suportar sem murmurar, mas com resignação, os incômodos e sofrimentos quotidianos sabendo que a divina Providência não permite provação alguma que não seja para nós uma fonte de bens. Ao princípio, e ainda durante muito tempo, a alma sentirá uma grande repugnância pelo sofrimento, contudo, se se esforçar por o abraçar com constância, com paz, com submissão à vontade divina, pouco a pouco, através deste penoso exercício, começará a experimentar um grande proveito espiritual, sentir-se-á mais desprendida das criaturas e de si própria e mais perto de Deus. Então chegará espontaneamente a dar valor ao sofrimento e depois ao experimentar a sua fecundidade espiritual, acabará por amá-lo.

Mas não tenhamos ilusões: o amor ao sofrimento é o vértice da paciência, é o fruto da paciência perfeita; para chegar a tais alturas, deve começar-se por um exercício muito mais humilde: aceitar em paz, sem se lamentar, tudo o que faz sofrer.

Colóquio – Ó Jesus, por Vosso amor e com a Vossa ajuda, quero sofrer em paz todas as contrariedades da vida. “Os Vossos pensamentos não são os nossos pensamentos, os Vossos caminhos não são os nossos caminhos. Vós apresentais-nos às vezes um cálice tão amargo que a nossa débil natureza mal o pode suportar. Não quero retirar os lábios do cálice preparado pelas Vossas mãos. Vós me ensinais o segredo de sofrer em paz. Quem diz paz não diz alegria, ou pelo menos alegria sentida; para sofrer em paz basta aceitar com gosto tudo o que Vós quereis.

“Para ser Vossa esposa é necessário assemelhar-me a Vós. Vós estais todo coberto de sangue e coroado de espinhos. Vós quereis tornar-me semelhante a Vós; porque terei medo de não levar a cruz sem fraquejar? Vós, no caminho do calvário, caístes três vezes e eu, pobre criatura, não deverei ser semelhante a Vós? Não quererei cair cem vezes se necessário for para provar o meu amor, tornando-me a levantar com mais forças do que antes da queda?

“É extremamente consolador pensar que Vós, o Deus forte, conhecestes as nossas fraquezas, tremestes à vista do cálice amargo, esse cálice que antes desejáveis tão ardentemente beber.

“Quanto me custa dar-Vos, ó Jesus, o que pedis! Mas que felicidade isso custar-me! Longe de me queixar das cruzes que me mandais, não posso compreender o amor infinito que Vos levou a proceder assim comigo. Ó Senhor, não quero perder a provação que Vós me enviais; é uma mina de ouro a explorar. Eu, grão de areia, quero pôr mãos à obra sem alegria, sem coragem, sem força, e todos estes títulos facilitar-me-ão a empresa; quero trabalhar por amor.

“Apesar da prova que me tira todo o gozo, posso exclamar: ‘Senhor, encheis-me de alegria com tudo o que fazeis!’ Pois existirá acaso alegria maior do que a de sofrer por Vosso amor?… Quanto mais os sofrimento é íntimo e menos aparece aos olhos das criaturas, mais Vos agrada, ó meu Deus; mas se por impossível, Vós houvésseis de ignorar o meu sofrimento, mesmo então ficaria contente por o possuir, se com ele pudesse impedir ou reparar uma só falta” (T.M.J. Cart. 63, 57, 59; M.C. pg. 257).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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