Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
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Jesus na corte de Herodes [detalhe], 1308-1311, Por Duccio di Buoninsegna, atualmente no Museo dell'Opera del Duomo, em Siena, na Itália, dominio publico, Wikimedia Commons

A Paixão do Senhor: Jesus é levado a Herodes

Herodes, chamado Antipas, tetrarca da província da Galiléia. Tinha como irmãos: Felipe, tetrarca da Ituréia e Arquelau, que fora tetrarca da Judéia. Há tempos a Judéia era governada por procuradores romanos; Pôncio Pilatos era o sexto. Os três irmãos eram filhos de Herodes, o Grande; o mesmo que querendo matar o menino Jesus, massacrou os inocentes em Belém. Herodes Antipas era então tetrarca da Galiléia, quando Jesus foi preso e condenado. Era tão desonesto que tinha tomado Herodíades, mulher de seu irmão Felipe, e vivia publicamente em adultério com ela. Por desejo de Herodíades, após Salomé dançar para ele, mandou matar João Batista, que o censurava pela sua vida escandalosa. Era tão ambicioso, que para conseguir o reino da Judéia, que havia tirado de seu irmão Arquelau, fazia de tudo para criar simpatia entre os judeus. Talvez por esta razão, veio celebrar a Páscoa em Jerusalém, e pela mesma razão mandou mais tarde matar, Tiago e prender Pedro (6) (cf. At 12, 2-3). Herodes era inimigo de Pilatos, porque o governador estava à frente de uma província que desejava; e tinha mandado matar dentro do templo alguns judeus durante um sacrifício, e sendo amigo de um pagão não alcançaria simpatia perante os judeus. Estes eram os monstros que detinham o poder, em suas mãos estava o destino do Senhor.

Perante a inocência de Jesus e a revolta dos sacerdotes, Pilatos decidiu ter uma consideração com Herodes, e enviou-lhe um preso tão extraordinário como se fosse um presente real. Por Herodes ser judeu (7), pensava que poderia entender melhor a causa e resolver o processo. Qualquer que fosse o motivo, Pilatos se via livre de toda a sftuação, mesmo comportando-se como um péssimo juiz, pois conhecia a verdade e não a defendeu. Preferiu confiar o problema a um homem ambicioso e desonesto.

Como não tinham conseguido seu intento ju nto a Pilatos, ficaram felizes quando Jesus foi enviado a Herodes, pois este desejava agradar-lhes. Poderiam lembrar que seu pai perseguiu Jesus, qua ndo este era menino. Com Jesus sob sua custódia seria mais fácil incitar o povo a pressioná-lo para que fizesse seu dever patriótico.

Com isso todos os tribunais e poderosos conheceram o processo contra Jesus de Nazaré e consequentemente sua inocência.

Correu a notícia vinda do pretório: haviam levado Jesus para o palácio de Herodes. Vendo os sacerdotes saírem, voltou a aglomeração do povo pelas ruas para ver Jesus passar. Pilatos enviou um mensageiro na frente para avisar Herodes, os sacerdotes também se adiantaram para poderem pressionar; depois chegou Jesus amarrado entre os guardas.

Herodes ao ver Jesus encheu-se de alegria, pois queria há muito tempo conhecê-lo, tinha ouvido falar muito a seu respeito e esperava ver algum milagre.

Disse que estava contente que na sua província, Galiléia, surgisse um homem tão importante; que fazia tempo que queria conhecê-lo; que tinha ouvido falar de seus milagres e ensinamentos; prometia interceder em seu favor em troca de um desejo. Depois perguntou se realmente era ele que os magos do oriente tinham vindo adorar e que trouxe tanta preocupação a seu pai; se era João Batista que ressuscitou (Mt 14, 2); se os milagres eram verdadeiros, pois sendo assim seria mais que um homem. E então pediu que fizesse um milagre na sua presença, já que fazia muitos e gratuitamente, recordando que era seu rei, juiz e podia livrá-lo ou enviar-lhe a morte.

Jesus não fez nenhum milagre e nada respondeu. Perante Pilatos tentou explicar a verdade, pois este aparentava desejo de conhecê-la, embora depois se deixasse levar pela covardia. Mas Herodes não buscava a verdade, pelo contrário, ela o incomodava a ponto de mandar matar João Batista, que era a voz de Jesus. Como falar diante daquele que havia matado a verdade?

Além disso, era a penas por curiosidade e divertimento que Herodes desejava um milagre. Como se Jesus fosse um bobo da corte, um palhaço para alegrar e entreter os cortesões. A Majestade do Senhor não se sujeitou em ser um bufão nas mãos de Herodes. Não deu aos soberbos e arrogantes o que distribuía com tanto gosto aos simples e humildes.

Ele se oferecia voluntariamente à morte e não se acomodaria para escapar, realizando desejos tolos.

Com o silêncio ensinou a desprezar a honra e o favor mal intencionado; a não usar da graça de Deus em cobiças e ambições pessoais; a ser cuidadosos e não falar de Deus ingenuamente perante pessoas que só têm curiosidade e querem fazer chacota.

Os sacerdotes e escribas presentes, temendo o fracasso pela segunda vez, com grande insistência continuavam com as acusações. Quando Herodes pediu um milagre, ficaram com medo, pois caso acontecesse, podia ser persuadido. Assim, para que Herodes ficasse com ódio, aumentaram os ataques. Diziam que Jesus e João Batista eram parentes e juntos caluniavam sobre o adultério de Herodíades; que tinha louvado e defendido João em público, quando este estava preso; que o tinha insultado de “raposa” perante todos; que seu trono não estava seguro, como o seu próprio pai não estava, quando Jesus era um menino. Herodes depois do longo silêncio de Jesus, começou a considerá-lo um louco; os sacerdotes e escribas temendo que fosse posto em liberdade por este motivo, insistiam com novas acusações; diziam que estava fingindo e fazia-se de mudo, mas quando estava diante do povo, sabia muito bem o que falar.

O silêncio do Senhor pareceu a Herodes uma ofensa à sua pessoa e como vingança, desprezou-o. Pilatos, que examinava a situação como um juiz prudente ficou admirado perante o silêncio, ao contrário, Herodes que era um homem vazio e ambicioso, que só buscava poder e luxo, sentiu apenas desprezo. Como não conseguiu arrancar nenhuma palavra, muito menos um agradecimento por tentar salvá-lo em troca de um milagre; começou achar que era um demente. Esta é a esperteza do mundo, que tem por loucura a sabedoria de Deus.

Os cortesões e soldados da guarda caçoavam de Jesus e começaram a dar empurrões como se fosse um bobo da corte. Herodes mandou vesti-lo com uma túnica branca, para zombar de sua realeza. Entediou-se, e o mandou de volta para Pilatos fazer o que desejasse com ele.

Naquele dia Pilatos e Herodes fizeram as pazes. Os dois eximiram-se da causa, quando por motivo de seus cargos, tinham por obrigação, julgar e absolver Jesus.

A Paixão do Senhor, Luis de La Palma, 1624.

(6) Quem mandou matar Tiago e prender Pedro foi Herodes Agripa I, neto de Herodes, o G rande.

(7) Herodes não era considerado um judeu nato, porque seu pai era Idumeu.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico