Dai-me, Senhor, uma esperança invencível; ensinai-me a esperar contra toda a esperança.
1 – Damos provas da solidez da nossa fé quando perseveramos nela apesar das obscuridades. Damos provas da solidez da nossa esperança quando não cessamos de esperar apesar das circunstâncias adversas, pelas quais nos parece às vezes que Deus nos abandonou. Assim, como é mais meritório o ato de fé feito em plenas trevas e dúvidas, também é mais meritório o ato de esperança emitido no meio da desolação e do abandono. As virtudes teologais são o meio mais apto e proporcionado para nos unirmos a Deus; e de fato unir-nos-emos tanto mais a Ele, quanto mais a nossa fé, a nossa esperança, a nossa caridade, forem puras, intensa e plenamente sobrenaturais. É para nos fazer chegar a este ponto que Deus nos faz passar pelo crisol da provação. Em cada alma amada por Deus renova-se, de algum modo, a história de Job: é provado nos bens, nos filhos, na sua pessoa; é abandonado pelos amigos e pela mulher; de rico e estimado que era, vê-se sozinho, num monturo, coberto de uma horrível lepra dos pés à cabeça. Mas se Deus é bom, se é verdade que nos quer bem, porque permite tudo isso? Porque nos deixa sofrer? “Deus não fez a morte – diz a Sagrada Escritura – nem se alegra com a perdição dos vivos… os ímpios, porém, chamaram pela morte com a suas obras e palavras” (Sab. 1, 13 e 16). A morte, o sofrimento, são consequências dos pecados que Deus não impede porque quer deixar o homem livre. E contudo não sofrem apenas os pecadores, mas também os inocentes. Porque? Porque Deus quer prová-los como se prova o ouro no cadinho, quer purificá-los, quer elevá-los a um bem e a uma felicidade imensamente superiores aos bens e à felicidade da terra. E eis que Deus permite o sofrimento dos bons e serve-Se até das consequências do pecado – guerras, desordens, injustiças sociais e privadas – para maior bem dos Seus eleitos. Acontece porém que, durante a prova, não vemos nem compreendemos a sua razão de ser; Deus não nos dá contas da Sua conduta, não nos descobre os Seus planos e por isso é duro para nós perseverar na fé e na esperança. Duro, mas não impossível porque é certo que Deus nunca nos manda provas acima das nossas forças, como também é certo que Deus jamais nos abandona se não somos nós os primeiros a abandoná-lO.
2 – O menor ato de esperança, de confiança em Deus, formulado no meio da prova, num estado de desolação interior ou exterior, vale imensamente mais do que mil atos formulados em tempo de alegria e de prosperidade. Quando sofres na alma ou no corpo, quando experimentas o vazio do abandono e da impotência, quando és atormentado por repugnâncias e rebeliões da natureza que quereria sacudir o jugo do Senhor, não podes pretender conservar o sentimento confortante da esperança, da confiança, antes experimentarás muitas vezes o sentimento contrário e, todavia, mesmo neste estado, podes fazer atos de esperança e de confiança não sentidos, mas voluntários. As virtudes teologais exercitam-se principalmente com a vontade; quando o sentimento as acompanha, o seu exercício é suave, consolador; mas quando é um puro ato da vontade, então este exercício torna-se árido e frio, embora nem por isso menos meritório, pois pode até sê-lo mais ainda e dar muita glória a Deus. Portanto, não te deves inquietar se não sentes a confiança, mas deves querer ter confiança, deves querer esperar e esperar a todo o custo, apesar de todos os golpes que Deus te inflige por meio da provação. É então o momento de repetir com Job: “Ainda que Deus me matasse, nele esperarei” (13, 15). Não te iludas julgando que vais poder passar através destas provas sem ter de lutar contra o desalento, contra tentações de desconfiança e talvez até contra o desespero; esta é a reação da natureza que se revolta contra quem a fere. O Senhor, que conhece a nossa fraqueza, não nos condena, mas compadece-Se de nós. Este estado não ofende a Deus desde que procures sempre reagir docemente com atos voluntários de confiança. Cada vez que a onda do desânimo tenta arrastar-te, reage, ancorando-te em Deus com um simples movimento de confiança; mesmo que, em certos períodos, a tua vida espiritual devesse reduzir-se a este exercício, nada poderias, antes pelo contrário, ganharias muito. Através destas provas chega-se ao exercício heroico da fé e da esperança; e o heroísmo das virtudes é necessário para chegar à santidade.
Colóquio – “Salvai-me, ó Deus, porque as águas me chegam ao pescoço! Estou atolado num lodo profundo e não encontro onde pôr o pé; cheguei a um sítio de águas profundas e já as ondas me cobrem. Estou cansado de gritar, enrouqueceram as minhas fauces, desfaleceram os meus olhos à Vossa espera, meu Deus. Porém, ó Senhor, a minha oração eleva-se a Vós no tempo da graça. Ó Deus ouvi-me, segundo a Vossa grande bondade, segundo o Vosso auxílio fiel. Tirai-me do lodo para que não seja submergido; livrai-me daqueles que me odeiam e da profundidade das águas. Ouvi-me, Senhor, porque é benigna a Vossa graça, segundo a multidão das Vossas comiserações. Olhai para mim e não escondais o Vosso rosto. Salvai-me porque sois a minha esperança, ó Senhor Deus! Vós sois a minha esperança desde a minha mocidade, em Vós pus a minha confiança. Ó Deus, não Vos afasteis de mim, acudi em meu socorro. Eu sofro, mas sempre esperarei em Vós e cada dia contribuirei mais para o Vosso louvor. Impusestes-me tribulações numerosas e amargas, de novo me fazeis reviver e dos abismos da terra outra vez me tirareis; aumentai o meu prestígio e consolai-me de novo” (Sal. 68 e 70).
“Ó esperança, doce irmã da fé, tu és aquela virtude que, com as chaves do Sangue de Cristo, nos abres a vida eterna. Tu guardas a cidade da alma do inimigo da confusão; e quando o demônio, por causa da gravidade das culpas cometidas, quer lançar a alma no desespero, tu não afrouxas o passo, mas, virilmente, perseveras na fortaleza pondo na balança o peso do Sangue de Cristo. Tu colocas na cabeça da perseverança a coroa da vitória porque esperaste consegui-la em virtude do Sangue” (Sta Catarina de Sena).
Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico