As exigências da doutrina de Cristo

Ó Jesus, fazei-me compreender e dai-me força para pôr em prática os Vossos ensinamentos.

1 – Convidando-nos a imitar a santidade do Pai celeste, Jesus empenha-nos numa profunda luta contra o pecado que se opõe diretamente à infinita perfeição de Deus e que é para Ele a maior ofensa. Em todos os Seus ensinamentos inculca-nos um profundo ódio ao pecado e, sobretudo, ao orgulho, à hipocrisia, á malícia consciente e obstinada, que constituem um estado de completa oposição a Deus; eis porque Ele, tão misericordioso com os pecadores, lança estas palavras de fogo contra os fariseus: “Ai de vós escribas e fariseus hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros branqueados… Serpentes, raças de víboras! Como escapareis da condenação ao inferno?” (Mt. 23, 27 e 33). Descreve-nos depois a fealdade do pecado e põe a claro os efeitos desastrosos que produz no homem, reduzindo-o a um estado de extrema miséria moral: eis o filho pródigo que, por ter abandonado o pai, ficou reduzido a “guardar porcos” (Lc. 15, 15).

“Todo o que comete o pecado – disse Jesus – é escravo do pecado” (Jo. 8, 34); o escravo do pecado não pode ser servo de Deus; por isso o Mestre insiste: “ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro” ou vice-versa (Mt. 6, 24).

Jesus, nosso Salvador, veio para destruir o pecado e destrói-o com a Sua morte; e com a Sua morte mostra, duma maneira clara, a enorme malícia do pecado. O pecado é tão inimigo de Deus e possui uma força tão terrivelmente destruidora, que foi a causa da morte do divino Mestre.

2 – O pecado mortal opõe-se tão completamente a Deus, que O afasta da alma que o comete; mas em si mesmo, qualquer pecado, ainda que venial, qualquer defeito ou falta, está sempre em contraste com a santidade infinita de Deus.

Por outro lado, a nossa natureza, ferida pelas consequências do pecado original, traz em si o gérmen do pecado sob s forma de tendências ou também de maus hábitos. por isso, se quisermos seguir jesus que nos apresenta a perfeição do Pai celestial como norma da nossa vida, devemos empenhar-nos numa luta sem tréguas contra o pecado, para o destruir em nós pela raiz, em todas as suas formas, por mais leves que sejam. È precisamente isto que nos ensina Jesus nestas breves palavras: “nega-te a ti mesmo”. Trata-se de negar o nosso eu com todas as suas inclinações e hábitos defeituosos e de o negar continuamente. Um trabalho assim exige muita fadiga e é penoso; no entanto é indispensável para chegar à santidade. Jesus disse: “Que estreita é a porta, e que apertado é o caminho que conduz à vida e quão poucos são os que acertam com ele” (Mt. 7, 14). na medida em que soubermos avançar por este caminho de total renúncia de nós mesmo, aproximar-nos-emos da perfeição infinita de Deus. Por este motivo todos os mestres espirituais insistem muito no desprendimento, no despojamento e renúncia de nós mesmos e fazem deste trabalho a base indispensável de toda a vida espiritual; eis porque S. João da Cruz propõe à alma que quer chegar à união com Deus, o áspero caminho do “nada”.

Mas Jesus, o Mestre divino, foi o primeiro que nos indicou a necessidade absoluta de passar por este caminho: “Se alguém quer vir após de mim negue-se a si mesmo” (Mt. 16, 24).

Colóquio – Eu Vos suplico, ó Jesus, que infundais na minha alma um ódio profundo e sincero ao pecado, a toda a espécie de pecado, de modo que esteja realmente disposto a preferir todo o gênero de sofrimentos e até a própria morte, a qualquer ofensa a Deus. fazei-me compreender, ó divino Mestre, que o mal, que o único e verdadeiro mal que me pode acontecer e do qual devo pedir incessantemente que me livreis, é o pecado, por ele ser a tal ponto Vosso inimigo, que Vos flagelou e coroou de espinho, pregou na cruz, fez derramar todo o Vosso Sangue e morrer no meio de atrozes tormentos. Ó Jesus, Vós que nos ensinastes a pedir ao Pai celeste: “livrai-nos do mal”, interponde a Vossa poderosa intercessão, mostrai ao Vosso e nosso Pai as chagas ainda sangrentas da Vossa Paixão e alcançai para mim e para todos os Vosso fiéis, a libertação do terrível mal do pecado. Ó Jesus, farei ainda distinção entre pecado grave e pecado venial, entre pecado e imperfeição?

“Mas que pode haver de pequeno, sendo contra tão grande Majestade e vendo que nos está a ver? Isto a mim parece-me pecado premeditado e como quem diz: ‘Senhor, embora Vos pese, eu farei isto. Bem vejo que o vedes e sei e entendo que não o quereis; mas antes quero seguir o meu capricho e apetite do que a Vossa vontade’. Ó Senhor, livrai-me dos pecados de advertência por pequenos que sejam” (T.J. Cam. 41, 3).

Com a Vossa ajuda, ó Jesus, quero levar até ao fim a luta contra o pecado, procurando vencer em mim todas as tendências, inclinações e maus hábitos. isto reclama uma constante renúncia de mim mesmo, mas com o Vosso auxílio estou pronto a empreendê-la. É verdade que se trata de negar o meu eu, mas com o fim de agradar a Deus: dizer não à minha má natureza para preferir a santa vontade do Pai celestial, as Suas inspirações e os Seus desejos. trata-se de morrer para mim mesmo a fim de viver para Vós, ó Jesus! E se verdadeiramente Vos ama, como poderei achar muito dura esta renúncia total? Oh! fazei que eu possa dizer com S. Paulo: “tudo julgo perda e vaidade, tudo considero esterco, a tudo renuncio para ganhar a Cristo e viver n’Ele” (Cfr. Fil. 3, 7-9).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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