Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Thomas Faed - THE BIBLE READING

Bíblia nas mãos

“Vós examinais as Escrituras, julgando ter nelas a vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de mim.” (Jo 5,39)

1 – Nosso Senhor Jesus Cristo sabia muito bem o que estava dizendo, quando afirmou isto, e quando ordenou aos Apóstolos: “Ide por todo o mundo e PREGAI o Evangelho a toda a criatura.” Mc. 16,15. O mesmo aconteceu quando garantiu: “A Escritura não pode falhar.” São João 10,35. Tais declarações divinas evidenciam a todos nós que a Palavra de Deus, parada pelo estaticismo, pela imobilidade própria da Escritura (“a letra mata, mas o Espírito vivifica” 2 Cor. 3,6), deve ser movida e vivida através da entrega oral e explicação de viva voz, em todo o seu conjunto, da doutrina inteira, de geração a geração, pela dinâmica da Tradição constante e universal, exercida pela PREGAÇÃO OFICIAL instituída pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo. Ora, é fato evidentíssimo que Nosso Senhor Jesus Cristo ordenou pessoalmente a PREGAÇÃO, que outra coisa não é que TRADIÇÃO ORAL. Logo, devemos concluir que tal Pregação e Tradição Oral tem que ser infalíveis, em sua catolicidade, uma vez que está em jogo a palavra do próprio Mestre, Fundador da Religião, Deus e Homem Verdadeiro. Logo, tal Pregação oficial e Tradição oral devem ser feitas pelo magistério infalível, obra e graça de Deus, como causa instrumental, nos planos da Divina Providência, para a salvação de toda a humanidade. Tanto isto é verdade, que Jesus faz depender a salvação Eterna desta condição: “Quem crer e for batizado, será salvo, quem não crer, será condenado”. Mc 16,16. Rematou assim o que já havia dito antes: “Quem vos ouve, a Mim ouve, quem vos despreza, a Mim despreza e quem me despreza, despreza Aquele que Me enviou.” Lc. 10,16.

2 – Não existe, pois a Bíblia como tal, como sendo PALAVRA inspirada por Deus, sem a Tradição Oral que nos prove e testemunhe perenemente ser Deus o Principal Escritor de todas e cada uma das partes das Sagradas Escrituras. A Tradição Oral prova e movimenta a inspiração escrita da Bíblia. Ajuda muito observar que é próprio do homem o falar, e, por conseguinte, o escutar, o ouvir também. Mas é convencional o escrever e ler, como nos atestam os milhões de analfabetos, entre nós e no mundo inteiro. Sobrenatural e psicologicamente é uma verdade inconteste que: “a Fé entra pelo ouvido.” Rom. 1, 17. Logo, a obrigação de ouvir, o dever desta audição é tão grave e divino, quanto é divina e grave a ordem de pregar a mesma Palavra de Deus, POIS DEUS NÃO FAZ NADA INÚTIL. Em primeiro lugar, pois, ouvir, e, em segundo lugar, se possível, ler. Nem mais, nem menos. É preciso, primeiro ser instruído por outrem, devidamente autorizado, para que, em segundo lugar, a leitura seja possível e proveitosa, e não inútil, ou pior ainda, perniciosa, como a experiência no atesta na história de todos os erros, por exemplo, dos espíritas, que tendo sempre nos lábios a Bíblia, no que Ela tem de mais lindo: a Caridade, negam abertamente TODOS OS MISTÉRIOS da Fé.

Nos Atos dos Apóstolos 8, 26-39, lemos um exemplo frisante da necessidade de alguém ser instruído por outrem: Felipe, ouvido o enviado da rainha da Etiópia ler o profeta Isaías, lhe perguntou: “Compreendes o que lês?” A resposta veio rápida: “Como poderei compreender, SE NÃO HOUVER ALGUÉM QUE ME EXPLIQUE ISTO?” Então, Felipe explicou a passagem de Isaías, antes ininteligível ao etíope; em seguida, o batizou. Isto se repete, desde Nosso Senhor Jesus Cristo até nós mesmos, ao aprendermos, em pequenos, sem nunca termos lido a Bíblia, crendo firmemente o que nos era ensinado pelo Sacerdote, por nossos pais, catequistas e professores de religião. Mais uma vez repetimos: pela sobrenaturalidade da Religião, pela Revelação Divina, pela exigência natural da inteligência humana, somos todos, sem exceção, ensinados pelos outros.

Os critérios internos da Bíblia não provam mas simplesmente comprovam o testemunho ininterrupto da tradição Oral que nos ensina a inspiração divina das Sagradas Escrituras. Aliás a própria bíblia nos diz que, primeiro, a doutrina foi pregada, e só depois de ter sido pregada é que nos Livros Sagrados foram escritos. Cristo não mandou os Apóstolos escrever livros, mas prega de viva voz. Assim a Bíblia é posterior à Tradição oral, se bem que sejam ambas de igual inspiração e autoria divinas, portanto de igual valor. Finalmente, a coleção total e inteira e pormenorizada dos muitos livros que compõem a Bíblia, isto é, o catálogo de todos e cada um dos Livros Sacros, com todas e cada uma de suas partes, só e unicamente a Tradição nos pode ensinar infalivelmente, pois, NA PRÓPRIA BÍBLIA NÃO EXISTE TAL PRECIOSÍSSIMO RELATO.

Concluímos e repetimos, duas são as fontes da Fé: a Bíblia e a Tradição, cuja origem é Deus.

3 – Concluímos igualmente que não existe sequer a possibilidade de interpretação particular, singular, individual, personalística, em assunto o mais grave, importante e universal, como nos ensina o Primeiro Papa, 2 Pe, 1,20-21: “atendendo antes de tudo a isto: que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular. Porque a profecia nunca foi dada pela vontade dos homens, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”. Antes já havia dito: “Pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação.” 1 Pe. 1, 5.

Muito bem nos diz o Catecismo Romano, proêmio §5: “Nós nos apoiamos na admirável promessa de Nosso Senhor, que afirmou ter lançado alicerces de sua Igreja, com tanta firmeza, que as portas do inferno jamais prevaleceram contra ela.” Fugir desta Tradição é naufragar na fé.

4 – Portanto a leitura da Bíblia requer e exige: 1) Todo o respeito religioso pela Palavra de Deus; 2) nunca apegar-se a uma frase isolada de seu conjunto, sem conhecimento do texto e contexto e lugares que tratam do mesmo assunto, porque, na Bíblia, sendo toda ela palavra de Deus, nunca poderá haver contradição, em hipótese alguma. Prudência. A imprudência de não poucos gerou as heresias de todos os tempos; 3) humildade em pedir explicações a quem tem o dever grave e sagrado de dá-las ao povo: os Sacerdotes. 4) como os Apóstolos, suplicar sempre a Nosso Senhor: “Aumentai-nos a fé.” Lc. 17, 5.

5 – Nenhum outro livro de ensino, meditação, de qualquer autor que seja, pode, sequer, comparar-se com o ensino e meditação da Bíblia. É isto que nos ensina a Santa Igreja pelas leituras bíblicas da liturgia quotidiana, no fim das quais o Sacerdote beija o texto lido.

(Do Livro: A Bíblia nas Mãos – Cônego Lourenço Cavallini – 1962)

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico