Hermano Cohen, músico judeu, vai tocar um dia o órgão numa igreja em que se expunha o Santíssimo Sacramento. Um amigo lhe pedira que o substituísse. Quando o jovem judeu presencia a cerimônia no esplendor das luzes e do incenso, cai de joelhos e deseja a fé. Breve torna-se católico fervoroso.
Carlos Luiz de Haller converteu-se pela explicação das cerimônias litúrgicas. “Um dia, diz ele, passava eu por uma livraria e vi um livrinho… Estavam ali explicados os ritos da Igreja Católica… e comprei-o por curiosidade… Qual não foi a minha surpresa quando compreendi… o fim, o sentido, a utilidade de tantos costumes que julgávamos superstições!”
O desejo de crer nasce também às vezes da necessidade de paz, de conforto para o coração. François Coppé, em longa enfermidade, sente precisão de um conforto. Não lhe bastam os sucessos do seu talento nem lhe basta a lembrança dos prazeres gozados. No leito da dor, tudo isso é vão e só vê na religião o conforto às suas dores. Então pôs-se a fé, encontra-a e o belo livro O bom Sofrimento brota da sua pena satisfeita.
Huismans foi levado à fé pelo impulso das comoções artísticas. Por muito tempo ele procurou a beleza que inebria os sentidos, mas viu afinal que essa não sacia a alma. Foi então elevando-se às belezas do cristianismo e viu no simbolismo cristão o ideal da sua alma de artista. Desejou assim a fé e converteu-se.
O desejo da fé nasce, por conseguinte, de muitos modos e ele inclina o homem a crer. Mas isso não basta. A fé não é um sentimento, é uma adesão da mente, é uma aceitação de verdades. E as verdades não se aceitam sem exame, não se crêem sem provas. De maneira que. O primeiro passo é do coração, mas o segundo é da inteligência.
O homem obtém seus conhecimentos por duas vias: ou pela ciência ou pela fé; ou porque viu, ou porque leu ou ouviu contar. Conhece ás vezes por experiência e muitas outras conhece pelo ensino de outros. Pode ter visto que os corpos caem todos com igual velocidade no vácuo, e pode não o ter visto mas sabê-lo porque o professor de fisica lho ensinou. No primeiro caso, examinou diretamente o caso; no segundo, para ter certeza, bastou um exame indireto, isto é, certificou-se de que o professor sabia e era sincero no seu ensino. Se sabe que o professor é competente e que não tem motivo para enganar, ouvindo-o explicar essa lei da queda dos corpos no vácuo, tem certeza dela, ainda que nunca tenha feito a experiência. É a fé: é crer na palavra de outrem.
Assim também nas verdades que Deus nos revelou não é preciso examinar diretamente essas verdades, mas basta o exame indireto. A saber: é suficiente adquirir certeza acerca da existência de Deus e acerca do fato da revelação.
Este exame tem sido leito algumas vezes miraculosamente. S. Paulo, convertido repentinamente no caminho de Damasco, é um exemplo.
Em Roma, em 1852, um jovem israelita, noivo, conversava num café com dois amigos sobre o carnaval. Ele mesmo escreve: “Se naquele momento um terceiro interlocutor se aproximasse e me dissesse: daqui a um quarto de hora tu adorarás a Jesus Cristo… e te prostrarás numa pobre igreja… e renunciarás ao mundo, à tua fortuna, às tuas esperanças, ao teu futuro… renunciarás à tua noiva, à tua família, aos amigos, aos judeus… e só aspirarás a servir Jesus Cristo e a carregar a sua cruz até à morte…, digo que se algum profeta me falasse assim, acharia que só um homem seria mais doido do que ele: o que acreditasse na possibilidade de tal loucura”.
E, no entanto,.esse fato se verificou. Afonso Ratisbonne, ao sair do café, acompanhou um dos seus amigos a uma pobre igreja de Roma, onde ia tratar uma cerimônia fúnebre. “Eu volvia maquinalmente os olhos em torno sem formular pensamento algum…; subitamente a igreja desapareceu, eu não vi mais nada, ou, antes,.meu Deus! vi uma só coisa”. E narra em seguida as suas lágrimas, o seu horror ao passado, a sua necessidade de se livrar das suas faltas, o seu conhecimento súbito, extraordinário, dos dogmas cristãos, sem nunca ter aberto um livro de religião. Como cheguei a este conhecimento? pergunta ele. Não sei dizer. O que sei é que, ao entrar na igreja, ignorava tudo e, ao sair dela, enxergava claro como um cego de nascença que enxerga de repente a luz do dia”…
Mas o milagre é para poucos. A maior parte não sente necessidade de tais milagres para chegar à crença. Basta-lhes saber que na sua cidade se crê, na sua família há fé, no mundo inteiro a Igreja crê. Consideram que o seu vigário está em contato com os outros vigários e estes com o bispo; sabem que o bispo está em contato com os outros bispos do mundo e estes com os fieis; Têm certeza de que tanta gente não se pode enganar. E ei-los firmes, crendo pelo testemunho dos outros as verdades reveladas, assim como por testemunho de outros crêem tantas outras coisas que ignoram. que não podem ou não querem indagar por si; e têm certeza de não serem iludidos.
Enfim, ha outro meio de se chegar à fé: é o exame das provas de que de fato Deus revelou a verdadeira Religião. É o meio dos fortes, dos que dispõem de tempo e boa vontade, sem serem faltos de inteligência para penetrarem os problemas que à questão lhes apresenta. Foi o meio pelo qual chegaram à fé Newman, Manning, Faber, Bautain, Lacordaire, Gratry e tantos outros.
Razões da Nossa Crença, Justino Mendes, 1933.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico